"A revolução a operar na Igreja implica que ponha fim à ordenação de sacerdotes"

O lançamento de um novo livro, O Mundo e a Igreja - Que Futuro?, é a porta de entrada para fazer uma reflexão aprofundada sobre os novos tempos na Igreja, em que o padre Anselmo Borges percorre em quase 500 páginas as grandes questões da humanidade desde os tempos mais antigos à atualidade.

João Céu e Silva
O padre Anselmo Borges publicou um novo livro© Artur Machado / Global Imagens

É um livro muito polémico aquele que chega às livrarias do padre Anselmo Borges, onde os temas que estão a abalar os pilares da Igreja, principalmente desde que Francisco deu início ao seu papado, bem como todos os assuntos que afetam a população mundial, estão presentes ao longo dos vários capítulos. Basta ler o índice para confirmar essa variedade de enfoques que serão analisados e que, após a leitura, deixam o leitor inquieto.

Membro da Sociedade Missionária Portuguesa, professor na Universidade de Coimbra, com formação em instituições destacadas de Roma e Paris, entre outras, o também colunista do Diário de Notícias questiona de forma abrangente o que inquieta a humanidade e dá respostas. Os tempos problemáticos vividos com a Covid-19 não estão ausentes e quando se lhe pergunta se a frase tão ouvida durante os últimos meses, "Vamos sair da pandemia melhores", é um "milagre" que se confirma ou a Humanidade não se reconheceu ao olhar-se ao espelho, a resposta é categórica: "Não estou a ver o milagre. Pelo contrário. Vejo cada vez mais receio, egoísmo, desequilíbrios sociais. A percentagem entre nós de pessoas com problemas mentais dá que pensar." Explica: "A nível global, estou convencido de nunca a Humanidade enfrentou ameaças e perigos tão graves. Dou exemplos: alterações climáticas; guerras espalhadas pelo mundo; o perigo da guerra nuclear; lutas entre as maiores potências mundiais pelo domínio geo-económico-político; migrações incontroláveis; as NBIC, acrónimo de nanotecnologias, biotecnologias, inteligência artificial, ciências do cérebro, neurociências, na sua ambiguidade: há vantagens, mas, face ao trans-humanismo e ao pós-humanismo, o que queremos, pensando também em bebés transgénicos, híbridos, etc.? Estes problemas são globais e exigem soluções ético-jurídico-políticas globais." Deixa a pergunta: "Não é urgente erguer uma Governança Global? Não digo, evidentemente, um Governo mundial, mas uma Governança Global.»

Ao ler-se o prefácio, Maria de Belém Roseira faz questão de registar que este livro "expõe factos, coloca interrogações e apresenta propostas de novos caminhos". Apesar de uma contemporaneidade cada vez mais sem limites, a religião continua a responder às grandes questões que afetam o ser humano?
Todo o ser humano, mais cedo ou mais tarde, será confrontado com as três famosas perguntas de Immanuel Kant: "Que posso saber? Que devo fazer? O que é que me é permitido esperar?"", acrescentando uma quarta: "O que é o Homem?". Significativamente, reservou a resposta à terceira pergunta, referente à esperança, para a religião. De facto, tem sentido estudar, tem sentido namorar, casar, ter filhos, exercer uma profissão... mas, face à morte, perguntamos: Qual é o sentido de todos os sentidos, o Sentido último? Tudo acaba no nada ou, pelo contrário, na morte, entra-se na plenitude da vida, da vida eterna, dom de Deus? Evidentemente, o crente não pode demonstrar que há Deus e vida depois da morte, mas pode e deve mostrar que a sua fé é razoável. O crente não pode dizer: "Eu sei que há Deus e que há vida depois da morte". Ele crê, com razões. Mas o não crente também não pode dizer: "Eu sei que não há Deus e que com a morte acaba tudo". Ele não sabe, crê, e eu até compreendo as suas razões. Isto quer dizer que a fé precisa de ser refletida, tem de apresentar razões. Infelizmente, na Igreja, fala-se pouco da razão, da inteligência, embora o Novo Testamento "defina" Deus como "agapê" (Amor incondicional) e "logos" (Razão, Inteligência, Palavra). Mais: no livro, há uma parte, a segunda - "O sofrimento, a morte e Deus" -, que mostra, segundo dados científicos, a importância da religião e da espiritualidade para a saúde e para a cura. Orientei, aliás, uma tese de uma jovem médica, na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, precisamente sobre este tema. Por outro lado, a fé autêntica deve ser, e tem sido, até na pandemia, impulso para a prática da justiça social e no apoio dos mais necessitados...

Bastam seis linhas para surgir a primeira referência ao Papa Francisco. A Igreja está perante o grande reformador ou após alguns anos do seu papado há hesitações incompreensíveis?
Não há dúvida de que Francisco foi e é uma bênção para a Igreja e para o mundo. Ninguém de boa vontade poderá pôr isso em dúvida. O que seria da Igreja face à tragédia dos abusos sexuais de menores e à corrupção no Vaticano sem o Papa Francisco? E quanto lhe deve a Humanidade inteira?

Ele é um cristão. Daí, a simplicidade, a abertura fraterna a todos, a sua presença constante junto dos mais desfavorecidos, dos marginalizados, dos abandonados... Em relação à Igreja institucional, tem desmascarado a Cúria de modo violento, os "bispos príncipes", "de aeroporto", para que sejam servidores e não senhores... Pôs em marcha reformas fundamentais em relação à Cúria, que "é mais difícil de reformar do que limpar a esfinge do Egipto com uma escova de dentes". Quer uma Igreja sinodal, isto é, uma Igreja de e com todos, na qual todos sejam ouvidos e participem... O que é de todos deve ser decidido por todos.

Mas é necessário reconhecer que Francisco tem alguns poderosos adversários, que se lhe opõem por causa de nomear mulheres para lugares das decisões no topo da Igreja, de abrir a possibilidade da comunhão para os recasados, da aceitação dos homossexuais... Há quem continue a insistir na Missa em latim e de costas para o povo...

Aqui chegados, permita que lhe diga que, perante a gravíssima crise da igreja - os números de abandono da Igreja e da fé, concretamente na Europa, são dramáticos -, é urgente uma reforma funda, diria mesmo uma revolução, para voltar ao início, à Igreja dos começos.

É essencial voltar ao Evangelho, que quer dizer notícia boa e felicitante. Como se deu a passagem do Evangelho para o Disangelho, notícia de desgraça, segundo a denúncia legítima de Nietzsche? Não há dúvida de que Jesus anunciou e foi um Evangelho, por palavras e obras. Haverá notícia melhor, mais felicitante do que a de Jesus? Deus é bom, é Pai/Mãe, Amor incondicional, que a todos dá a mão, que quer a dignificação de todos?

Essa foi a mensagem de Jesus, por palavras e obras: leia-se a parábola do filho pródigo, veja-se o interesse de Jesus por todos, a começar pelos marginalizados, pobres, doentes, esfomeados... O núcleo da sua revolução está na revolução da imagem de Deus: "Ide aprender: Deus não quer sacrifícios rituais de vítimas, quer justiça e misericórdia". Neste contexto, repare-se que quem decidiu condená-lo à morte foram os sacerdotes do Templo, que viviam de uma religião que oprimia o povo, com um Deus que precisa de sacrifícios rituais, e Pilatos, representante do império romano, porque a mensagem de Jesus colocava em perigo o império que vivia da opressão de tantos...

Jesus é o exemplo?
Jesus foi até ao fim, não negociou e morreu para ser consequente, dando testemunho da Verdade e do Amor, do Deus bom. Ora, há quem não está interessado no Deus bom, porque, se Deus é bom, eu também tenho de ser bom, se Deus não é vingativo, eu também não posso vingar-me, se Deus quer a paz e a dignidade de todos, não pode haver guerras em seu nome...

Mas, com o tempo, os cristãos foram acusados de ateus, porque não ofereciam sacrifícios. A partir daí, tudo foi mudando: a Eucaristia, o banquete festivo em sua memória, celebrado na casa de um cristão ou cristã com uma casa melhor e presidido pelo dono ou pela dona da casa, foi reinterpretado como sacrifício de expiação pelos pecados. E, contra Jesus, que era leigo, e os Apóstolos, que não ordenaram sacerdotes, começou a ordenação de sacerdotes e, assim, as mulheres foram excluídas, por causa da impureza ritual, o celibato obrigatório foi-se impondo... Sobretudo: esta reinterpretação supõe um Deus que enviou o seu Filho Jesus ao mundo para, pela morte na cruz, aplacar a Sua ira e reconciliar-se com a Humanidade. Pergunta-se: Que pai ou mãe pode querer a morte do seu filho? Esta conceção não contradiz a afirmação do Deus Amor incondicional?

Jesus sacrificou-se? Sofreu? Sofreu horrores, mas a sua morte não foi querida por Deus para aplacar a Sua ira; pelo contrário, a sua morte foi para dar testemunho da Verdade até ao fim: Deus é bom. Essa notícia felicitante do Deus bom não retira exigência à mensagem. Pelo contrário, ser bom e dar testemunho pode exigir extremo sacrifício.

A revolução a operar na Igreja tem, portanto, um pressuposto essencial. A Igreja é Povo sacerdotal e isso implica que ponha fim à ordenação de sacerdotes. Evidentemente, os ministérios na Igreja são fundamentais; não sou anarquista e a Igreja precisa de um ordenamento, mas isso faz-se com ministérios e serviços ordenados, que até podem ser temporários, não com a ordenação de sacerdotes, não com ordens sacras, o que é totalmente diferente. De facto, com a ordenação sacerdotal, que implica uma transformação ontológica do ordenado, um "alter Christus", "outro Cristo", com o poder de só ele presidir à celebração da Eucaristia e perdoar os pecados na confissão, a Igreja não terá reforma possível. Porquê? É na ordenação sacerdotal que radica automaticamente a divisão da Igreja em duas classes: clero e povo, de tal modo que, quando se fala da Igreja, normalmente é a menos de 1% que nos estamos a referir - a chamada hierarquia: Papa, cardeais, bispos, padres. Entretanto, os sacerdotes tornaram-se "senhores" de Deus, acabaram por infantilizar os outros cristãos, encerrados em dogmas petrificados, rituais antiquados... e, os casos de pedofilia, frequentemente, até foram ocultados, para não manchar "a dignidade sacerdotal".

A quem me acusar de heresia respondo que no Pontifical Romano felizmente já não se fala de sagração episcopal e de ordenação sacerdotal, mas simplesmente de ordenação episcopal e presbiteral. Na Igreja primitiva também havia bispos, presbíteros e diáconos, sem ordens sacras, mas com funções de serviço.

Cita Miguel de Unamuno: "Ai, que me roubam o meu eu!". Esta foi em si uma preocupação maior perante a pandemia?
Como humano que sou, na pandemia, tomei mais consciência da minha mortalidade. Mas a graça da fé dá-me a esperança fundada de que - ninguém sabe como - não ficarei no nada, pois, na morte, dá-se o encontro pleno com o Deus da Vida. O mundo e a existência são ambíguos - há bem e mal, justiça e injustiça, beleza e desgraça, generosidade sem fim e brutalidade aterradora, razão e sem razão - e é no próprio ato de confiar em Deus como Sentido último que se mostra a racionalidade do ato, pois então tudo se ilumina e adquire sentido, Sentido final.

"E não precisa de tirar as máscaras, para poder apresentar-se na verdade e na transparência? Não precisa de acabar com a desgraça da pedofilia e com o celibato obrigatório, acabar com os escândalos financeiros, reconhecer a igualdade real das mulheres, sem discriminação?"

Critica a afirmação: "Já não há valores" e dá-lhe substância através de uma opinião pública formada sobre o "achismo" perante, por exemplo, acontecimentos nacionais - corrupção, desmandos financeiros, mediocridade política - que alteram a razão e a verdade. É reversível ou o abismo é o que se segue?
Sinceramente, não estou otimista. As questões até se estão a agravar do ponto de vista sociopolítico e até educacional, inclusivamente com a falta de professores. Parece impossível: por mais milhões de milhões de euros que venham da União Europeia temos de ficar sempre na cauda? Cito António Horta Osório: "Porque é que Portugal cresce 1% ao ano nos últimos 20 anos enquanto a Irlanda cresce 5%? E porque é que o salário líquido médio em Portugal é 1000 euros e na Irlanda é o dobro?" E a Justiça funciona? E a saúde? A situação é grave, e pode tornar-se dramática. Não se tem pensado suficientemente na questão da natalidade, por exemplo. Já falta mão-de-obra. E quem vai pagar as reformas e sustentar a Segurança Social? Que políticas têm sido adotadas para a família?

Quando critico, é no sentido de faltar o essencial: lembro sempre que a palavra escola vem do grego scholê, que quer dizer ócio, não como preguiça, mas tempo livre para pensar e governar, não passar a vida a "dedar" em ecrãs ou acorrentado na droga das redes sociais, mas estudar, meditar, pensar a sério, palavra que vem do latim pensare, que significa pesar razões, donde deriva também o penso sanitário que cura. Pensar, que não é mero calcular, próprio da técnica e dos negócios, cura.

Tem um subtítulo em que convida a "Abandonar-se nas mãos de Deus". Como se pode fazê-lo quando durante o último ano e meio as portas das igrejas estiveram maioritariamente fechadas?
A religião verdadeira passa em primeiro lugar pela conversão interior. Jesus também disse: se queres falar com Deus, Pai/Mãe recolhe-te, recolhe-te no teu quarto, vai ao mais íntimo de ti. O que se passa hoje é que vivemos mais na extimidade (extrema exterioridade) do que na intimidade. A pandemia devia ter ajudado também nisto. E não percebo porque é que as famílias cristãs não haviam de poder celebrar nas suas casas a Eucaristia, memorial da Última Ceia, lembrando a vida, a morte, a ressurreição de Jesus. Não era assim na Igreja primitiva, com as "igrejas domésticas"? O que falta é cristãos.

O Papa foi visto em todo o mundo a dar a bênção urbi et orbi (27/03/2020) em extrema solidão na Praça de São Pedro. Esse foi um momento histórico para se responder à questão que dá título a este livro: O Mundo e a Igreja. Que Futuro?
Eu distingo entre a solidão do abandono e a solidão habitada. Aquele gesto do Papa fica para a História como um ícone desta pandemia. No meio daquela Praça vazia, Francisco parecia carregar com o calvário do mundo. Só, mas numa solidão habitada pelo Deus de Jesus. Sim, ele abençoou o mundo e ao mesmo tempo ouviu, mais clamorosa, a exigência da revolução da Igreja para ir ao seu encontro.

Voltando atrás, àquela exigência de uma Governança Global, a pergunta é: Que revolução se tem de operar na Igreja Católica para que ela possa dar por ela e em ligação com as outras Igrejas cristãs e em diálogo inter-religioso o seu contributo decisivo para esta e nesta Governança Global? Sim, o livro nasce desta exigência. Daí, o título: O Mundo e a Igreja. Que Futuro?

O padre Anselmo Borges© Global Imagens

Refere que "um sinal distintivo de que há Homem" é o ritual funerário, no entanto, apesar de toda a evolução acrescenta: "hoje a morte é tabu". O que nos preocupa: a morte ou a hipótese de um além?
Sim, os antropólogos coincidem em que, na história gigantesca da evolução, sabemos que há Homem, já não um animal qualquer, mas alguém, quando há rituais funerários. Eles são a prova de que temos alguém que não só sabe mas sabe que sabe, e tem a consciência de que é único, de que é mortal, e espera para lá da morte.

Sim, a morte hoje é tabu, as sociedades desenvolvidas, tecnourbanas, assentam inclusivamente a sua lógica do egoísmo, da produção-consumo, do hedonismo, do imediatismo, da pós-verdade, da amoralidade, nesse tabu: Disso não se fala. Mas isto é sinal de desumanização. De facto, é por causa da consciência da morte que se ergue todo o edifício das filosofias e das religiões.

Respondendo diretamente à pergunta, direi que a morte nos preocupa, porque deixamos de ser neste mundo para sempre. Também por causa de um possível Além, pois somos confrontados com o nada. Esse é o sobressalto, porque como disse Pascal, o ser humano habita algures "entre o nada e o infinito".

Entre as várias figuras que passam por este livro estão Eduardo Lourenço e Hans Küng. Sendo tão diferentes, porque ambos se pronunciam sobre o "Deus de Jesus"?
O crente é aquele, aquela que se entrega confiadamente ao Mistério, ao Sagrado, donde espera salvação. Esse Mistério está para lá de tudo quanto possamos pensar e dizer dele. Mas, na fé cristã, revelou-se em Jesus de Nazaré. Jesus é Deus que se manifesta em humanidade, Jesus é a humanidade de Deus. Tanto Eduardo Lourenço como Hans Küng eram cristãos, por isso, radicalmente humanistas. O próprio conceito de pessoa veio ao mundo pelo cristianismo e a Declaração Universal dos Direitos Humanos, apesar de o Vaticano não a ter ainda assinado, assenta nos valores proclamados por Jesus. São Paulo interpretou bem: "Já não há judeu nem grego, senhor nem escravo, homem nem mulher, pois todos são um só em Cristo".

Por outro lado, ambos punham, com razões, a sua confiança radical no Deus de Jesus. Por isso, acreditavam que, na morte, não iam para o nada; na morte, tomariam consciência plena de que foi em Deus, Realidade Última e Primeireiríssima, que sempre se moveram, existiram e são, como São Paulo foi dizer ao Areópago em Atenas.

Ao debruçar-se sobre João Paulo II, alerta para o facto de ter sido o primeiro Papa a colocar a palavra "ecologia" nas suas encíclicas; neste livro não faltam referências às alterações climáticas e às suas consequências. Esta deve ser uma preocupação da Igreja atual?
Se o cristianismo crê no Deus criador, tem de cuidar da Sua criação. Claro que, se a Igreja estiver atenta, tem necessariamente de se preocupar. Se se quiser que a Humanidade tenha futuro. Aliás tem sido uma preocupação fundamental do Papa Francisco, que, se não houvesse outros motivos, ficaria na História por causa da sua encíclica Laudato Sí, onde introduz um conceito fundamental: "ecologia integral", vinculando a dimensão ecológica e a dimensão social: "a Terra chora, os pobres choram". Tudo está interligado e impõe-se uma ecologia que integre de modo claro as dimensões humanas e sociais.

"Desconfinar e desmascarar a Igreja". Este jogo de palavras não é demasiado forte?
Penso sinceramente que em tempos de pandemia, com confinamento e com máscaras, pode ser um bom auxílio simbólico para ir ao essencial. Se a Igreja deve ser "Igreja em saída" para o mundo, para a Humanidade, não tem de desconfinar, em vez de se encerrar nela mesma? Já o famoso bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes, dizia: "Uma Igreja que vive para si morre por si". Não precisa de se atualizar na linguagem? Que quer dizer hoje o Credo, quando diz, referindo-se a Jesus: "Gerado, não criado, consubstancial ao Pai"? Pode continuar a pregar que as crianças são concebidas em pecado do qual só o batismo as liberta? É razoável continuar a querer a Missa em latim e de costas para o povo? A Igreja pode continuar encerrada em dogmas arcaicos e em rituais antiquados herdados das cortes imperiais?...

E não precisa de tirar as máscaras, para poder apresentar-se na verdade e na transparência? Não precisa de acabar com a desgraça da pedofilia e com o celibato obrigatório, acabar com os escândalos financeiros, reconhecer a igualdade real das mulheres, sem discriminação? É admissível que os cardeais da Cúria tenham um salário de 5 mil euros mensais e que, quando Francisco retirou 10%, tenha havido algum mal-estar...

No posfácio, Paulo Rangel define-o como mantendo de forma ostensiva na sua produção literária "a marca genética do académico, do filósofo, do antropólogo, do teólogo e já agora do "germanófilo"". No entanto, acrescenta: "desta vez não é assim". O que mudou?
Deveria perguntar-lhe a ele. Ele diz que este é o meu "cancioneiro". Julgo que, embora haja dois fios condutores, que ele próprio caracteriza como dois espaços ou dois tempos, apontando o primeiro para "a dimensão pessoal, que toca e interpela cada um e cada qual, que evoca o sentido da existência e da finitude irrepetível, em busca da ciência e do mistério das cosias últimas", e brilhando, no segundo, "o espaço-tempo da conversão comunitária, que há de ser repto para a política, a economia e a cultura", talvez este livro seja menos sistemático e com temáticas mais abrangentes. Gostei que invocasse o "germanófilo". De facto, penso que, sem o alemão e a filosofia e a teologia alemãs, será mais pobre o ensino da filosofia e da teologia.