Costa e a presidência da Comissão: "Chegou a altura de mudar"

O primeiro-ministro português, que lidera com Sánchez as negociações em nome dos socialistas, acredita que a mudança deve acontecer depois de 15 anos de presidências do PPE, referindo-se às presidências de José Manuel Durão Barroso e Jean-Claude Juncker, ambos do Partido Popular Europeu.

Os líderes europeus ainda não conseguiram pôr-se de acordo, na cimeira extraordinária de ontem, sobre o nome do futuro presidente da Comissão Europeia. Os "critérios" comuns à frente de governos liberais e socialistas excluem o candidato conservador, Manfred Weber, e Merkel não gostou da ideia. A 21 de junho decidem.

O discurso comum entre vários líderes que se sentaram à mesa de um almoço de trabalho, antes da cimeira, é que o futuro líder do executivo comunitário deve ser alguém que tenha "a experiência e a credibilidade" para "levar por diante a missão" de governar a Europa. Por essa razão, a experiência que se lhe requer é a "executiva", num governo e mais, que tenha sido exercida "a nível nacional e na Europa".

O primeiro-ministro António Costa, que partilha com Pedro Sánchez a liderança das negociações pelos socialistas, afirma que nesta fase, em que a discussão é ainda "preliminar", ninguém pretende "excluir nomes", mas reconhece que, "de facto", experiência governativa "é uma característica que Weber não tem".

Por outro lado, "Frans Timmermans preenche perfeitamente estes critérios", pois "tem uma grande experiência ao nível governativo na Holanda, tem uma grande experiência na Comissão Europeia - tem sido o primeiro vice-presidente ao longo destes anos, é uma pessoa que facilmente reúne consensos, consegue organizar uma boa equipa e unir todos, em torno de um programa comum, com base numa plataforma progressista", afirmou Costa, referindo-se ao candidato que apoia "do ponto de vista político".

Além disso, o primeiro-ministro português considera que depois de 15 anos consecutivos de presidentes do PPE, "creio que chegou a altura de mudar". António Costa referia-se às presidências de José Manuel Durão Barroso (2004-2014) e de Jean-Claude Juncker, ambos do Partido Popular Europeu (PPE).

Acabado de chegar de um almoço com António Costa, o presidente francês, Emmanuel Macron, traçou um perfil idêntico, para a escolha do Spitzenkandidat, acrescentando a "credibilidade", embora nunca tenha referido o nome de Manfred Weber, que mais de metade dos alemães não quer ver a liderar o executivo comunitário. De acordo com uma sondagem divulgada ontem pela imprensa alemã, 59,1% dos alemães são contra a presidência de Weber na Comissão Europeia.

Macron soube sempre que o seu ponto de vista chocaria de frente com a sensibilidade de Berlim, mas esperava que "as diferentes sensibilidades e filosofias políticas" permitissem encontrar nomes que fossem "elegíveis", que se identifiquem com o espírito europeu, mais "a experiência". Tratando-se de "uma responsabilidade extraordinária" ao nível europeu, supõe-se que o nomeado tenha "experiência quer no seu país quer ao nível da Europa, que lhe permita ter a credibilidade e o savoir-faire".

Dito assim, fica a ideia de que o ângulo começa a fechar-se em Frans Timmermans. Porém, António Costa reconhece que o candidato que ele apoia não é o único que cumpre os requisitos, "Margrethe Vestager, indiscutivelmente, também tem uma experiência executiva, no governo da Dinamarca, tem uma boa experiência executiva também na Comissão". "Não é a minha candidata, mas preenche estes critérios", reconheceu.

Porém, alguns governos, entre os quais o alemão de Angela Merkel (PPE), "não valorizaram especialmente a necessidade de haver a experiência" em governos e em Bruxelas. "Foi um bocado surpreendente, tendo em conta que, pelo menos, que eu me recorde, desde o presidente Jaques Delors não houve qualquer presidente da Comissão que não tivesse previamente experiência, no mínimo, governamental no seu Estado de origem", considerou António Costa.

"Pelo menos desde o presidente Jaques Delors não houve qualquer presidente da Comissão que não tivesse previamente experiência."

"Eu apoio Manfred Weber", declarou Angela Merkel, pouco agradada com o modelo sugerido por António Costa e Por Emmanuel Macron, chegando mesmo a desvalorizar a necessidade de uma experiência de governo para a liderança da Comissão.

Antes da cimeira, o presidente francês encontrou-se também com os representantes dos governos dos quatro de Visegrado, composto por República Checa, Hungria, Polónia e Eslováquia, que estarão determinados a apoiar um candidato regional para "os altos cargos".

Entretanto, o ministro eslovaco dos Negócios Estrangeiros, Miroslav Lajcak, confirmou que "há um acordo para que o candidato comum do nosso grupo para um dos altos cargos das instituições europeias seja Maros Sefcovic". Mas, ao que o DN apurou, a proposta não reúne consenso, nem entre os governos socialistas, a família política à qual pertence Sefcovic.

Os líderes pretendem fechar uma decisão até 21 de junho, a tempo de o Parlamento Europeu se poder pronunciar, na primeira reunião plenária, no início de julho, para que possa ser formado o colégio de comissários, de modo a entrar em funções a 1 de novembro. A decisão terá de ser enquadrada com os restantes cargos de poder.

Terão de ser decididas, em conjunto, a presidência do Conselho Europeu, a presidência da Comissão, bem como o cargo de alta representante para a Política Externa. Além dos equilíbrios políticos e regionais, o atual presidente do Conselho, Donald Tusk, faz questão de que o equilíbrio de género seja assegurado, com "dois homens e duas mulheres nos cargos de topo".

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