Neymar, condenado a ser Neymar Jr.

O Brasil iria melhor nesta Copa se Neymar se tivesse dedicado mais a treinar do que a experimentar cortes de cabelo e penteados

O mundo inteiro riu e zombou de Neymar durante a Copa do Mundo. O Brasil, não. O Brasil se revoltou. A cada grand-guignol que ele encenava ao ser derrubado, rolando pelo chão como se o tivessem esquartejado e, pouco depois, levantando-se lampeiro para jogar, 200 milhões de brasileiros urravam em uníssono contra aquilo - sabíamos que não sofrera nada, que era teatro, e mau teatro. Imagine agora o que são 200 milhões urrando em uníssono. Era para que o clamor chegasse à Rússia, e Neymar nos tivesse escutado. Mas isso não aconteceu, porque os ouvidos de Neymar não sintonizam mais o Brasil.

O Brasil iria melhor nesta Copa se Neymar se tivesse dedicado mais a treinar do que a experimentar cortes de cabelo e penteados. Os dois cabeleireiros que levou às suas expensas para a concentração trabalharam mais nele do que os preparadores físicos da seleção. E, antes que se acuse de moralista esta observação e se diga que Neymar tem direito a pentear-se ou despentear-se como quiser, é preciso observar que ele não é um cantor ou roqueiro, um artista de palco, capaz de, se lhe der na telha, tomar atitudes individuais, como destroçar sua guitarra em cena ou vomitar sobre as pessoas na primeira fila - o que alguns já fizeram.

Neymar é um atleta, e de um esporte coletivo. Por mais brilhante e criativo, só às vezes será um solista. É peça de um conjunto, ao qual deve satisfações atléticas, táticas e disciplinares. Não pode fazer o que lhe vier à cabeça - e, se fizer e não der certo, precisará de que lhe chamem a atenção. Pois talvez tenha sido este o seu problema nesta Copa. Colocou-se como o homem-time, maior que a seleção e maior que o Brasil - e deixaram que fosse.

No Brasil, em jovem, Neymar já se julgava maior do que o Santos, clube que o revelara. Comprado pelo Barcelona, enquadrou-se - acabara de chegar à Europa, tinha Messi acima dele e o Barcelona o tratava com rigor, como a um funcionário. Mas, vendido ao Paris Saint-Germain, retomou o poder - faz o que quer no novo clube, sob os olhares benignos de seus patrões árabes. E transferiu sua majestade para a seleção brasileira, da qual é, há anos, o principal jogador. Tem nela privilégios que craques do passado, maiores e melhores do que ele, como Zizinho, Pelé, Garrincha, Zico e Ronaldo, nunca tiveram.

Para desgosto de seus colegas, Neymar foi o único a ter o pai, a namorada (uma jovem estrela da TV Globo) e um bando de parasitas que leva para todo o lado - os "parças", ou parceiros, como os chama - hospedados no mesmo hotel da seleção, em Sochi. As críticas que seu individualismo, baixo rendimento e simulações lhe renderam durante a competição foram rebatidas pelo coordenador técnico da seleção, Edu Gaspar, e, incrivelmente, pelo próprio treinador Tite, até então um homem sério. Eles as consideraram injustas e passaram a mão em sua cabeça. Sem falar nos "parças", que até hoje disparam desaforos pelas redes sociais contra quem não o bajula. Com tanta gente a cercá-lo e protegê-lo, sabe quando Neymar, que já tem 26 anos, se tornará adulto?

Nunca, mesmo porque há alguém por trás dele para impedir que isso aconteça: seu já mencionado pai, não por acaso chamado, apenas e imperialmente, Neymar - e foi por isso que o craque, já famoso, teve de passar a chamar-se Neymar Jr.

Neymar pai, ex-jogador de clubes da 3.ª divisão do futebol brasileiro, realiza-se através do filho. É um homem truculento, ambicioso e não muito transparente nos negócios - todas as transações envolvendo Neymar Jr. têm sido difíceis de explicar para o fisco. Com ele no comando, pondo e dispondo sobre os destinos do craque, teme-se que, enquanto a figura pública e mundana de Neymar Jr. não pára de crescer, seu futebol se reduza a exatamente isto - um futebol junior.

Jornalista e escritor brasileiro, autor de, entre outros, Bilac Vê Estrelas (Tinta-da-China), escreve ao domingo no DN.

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