Grécia: luto e raiva num paraíso transformado em inferno

No terreno a cobrir os incêndios de Mati para os media internacionais, Tassos Morfis descreve como se chegou ao cenário de inferno que todos viram nas notícias, como se lidou (ou não) com ele e que consequências há a retirar de mais esta tragédia grega.

Foi uma semana trágica para a Grécia. Vários incêndios florestais na zona de Ática, a maior e principal região administrativa do país, alimentados por ventos fortes, destruíram tudo no seu caminho das montanhas até ao mar. Aldeias inteiras e urbanizações costeiras arderam totalmente em redor de Atenas. Vinte e seis pessoas foram encontradas mortas abraçadas umas às outras num terreno privado de uma casa de férias. Elas foram apanhadas na fuga às chamas devido ao fumo e à escuridão provocados pelo fogo. Não conseguiram encontrar o pequeno portão que dava acesso a uma praia privada.

Milhares de pessoas ficaram presas nas praias ao fugirem da frente de fogo para salvarem a vida e foram resgatadas por barcos particulares, da guarda costeira e militares. Centenas de outras pessoas saltaram para o mar e oito foram encontradas afogadas na tentativa de escaparem ao fogo. Uma menina de 13 anos, em chamas, saltou de um penhasco de 15 metros de altura para a água. O vizinho idoso assistiu a tudo.

Na segunda-feira à noite, dia 23, um paraíso costeiro transformou-se num inferno em menos de uma hora e meia.

Tudo começou com um incêndio em Kineta, uma zona a oeste de Atenas. Os bombeiros responderam imediatamente com aviões e bombeiros combatendo as chamas e o plano de evacuação mostrou-se eficaz. No centro de Atenas o céu estava cor-de-rosa e castanho devido ao fumo e toda a gente punha fotografias no Instagram enquanto ouvia rádio. Foi o primeiro grande incêndio em Ática no verão e ninguém temia que o pior pudesse acontecer devido à bem oleada máquina organizada pela direção do corpo de bombeiros.

Passaram algumas horas até que o fogo na parte oriental de Ática se descontrolou e incendiou tudo no seu caminho até ao mar. À noite, quando começámos a receber as primeiras informações sobre a tragédia, o número de mortos já chegava a 20. De manhã, acordei com os telefonemas dos meios de comunicação internacionais que me ligavam por causa das 40 a 50 pessoas queimadas e a enorme dimensão do fogo florestal. Fiquei em choque total.

Uma semana depois, e tendo passado os últimos dias no terreno a cobrir a situação para a imprensa estrangeira, ainda estou em estado de choque. Os incêndios florestais devastadores ceifaram a vida de 88 pessoas e causaram grandes danos no que parece ser um dos piores desastres sofridos pela Grécia em mais de três décadas. Mais de 150 pessoas continuam desaparecidas e mais de 1500 casas ficaram destruídas.

A principal questão que precisa de ser respondida é se o incêndio foi criminoso ou não. Na Grécia, os incêndios perto de áreas povoadas são frequentemente atribuídos a incendiários que se acredita terem como objetivo a urbanização de terrenos florestais. Na quinta-feira, numa conferência de imprensa realizada no Ministério da Proteção Civil, representantes do governo apresentaram provas e dados de que os incendiários agiram de forma muito organizada.

O primeiro-ministro Alexis Tsipras assumiu pessoalmente a responsabilidade política pela gestão da crise, num gesto ousado para combater a desilusão e a raiva populares, além das críticas ferozes da comunicação social. A última vez que a Grécia enfrentou uma tragédia como esta foi quando os incêndios causaram o caos em partes do Peloponeso em 2007, quando morreram cerca de 90 pessoas. Muitos gregos afirmam que, desde então, pouca coisa mudou e o inferno de Mati, uma pequena zona balnear repleta de residências de verão e apartamentos que são propriedade de reformados, pode ser o sinal de que alguma coisa precisa de mudar.

Condições perfeitas para um inferno

A zona de Mati, como todas as áreas costeiras da Ática Oriental, está cheia de pinheiros nas florestas, o que a torna particularmente inflamável. Naquele dia, as condições climáticas estavam extremamente favoráveis à disseminação do fogo; a temperatura ultrapassava os 36 °C, os ventos sopravam entre os 40 e os 60 km/h, em alguns locais a 120 km/h, e a humidade na atmosfera era muito baixa. Assim, é fácil imaginar a facilidade com que uma floresta pode ser incendiada.

Além disso, a configuração da área parece uma armadilha com o acesso ao mar dificultado por falésias e casas construídas em áreas arborizadas com pouca atenção à segurança contra incêndios. Mati tem estradas estreitas, inúmeros becos sem saída e é mal sinalizada. Apesar de termos estacionado o nosso carro numa rua "central", nunca teríamos encontrado o acesso à praia para filmar a zona se alguns habitantes não nos tivessem ajudado a descobrir um corredor escondido que conduz à praia. Mesmo que o carácter público das praias seja protegido pela Constituição grega, alguns proprietários "escondem" o acesso de modo a que a sua privacidade seja assegurada.

Sem planeamento urbano

Não ter acesso ao mar quando não sejam penhascos ou seja acessível a pé é ilegal. A Grécia ainda não tem um registo de terras completo e a maioria dessas povoações litorais foi urbanizada de forma totalmente ilegal, sem planeamento, sem licenciamento adequado, sem supervisão desde os anos 1970.

Mati foi autorizada a transformar-se numa área residencial com tão poucas vias de acesso/fuga devido à relação clientelista entre empreiteiros, moradores e o Estado. As casas foram construídas ao acaso com muitos becos sem saída e pequenas ruas, e poucas rotas de fuga. Algumas ruas nem sequer são asfaltadas, embora a maioria das casas sejam residências permanentes e não casas de férias.

As mortes teriam sido inevitáveis

"O fogo percorreu uma distância de três quilómetros num quarto de hora, mais rapidamente do que um carro pode avançar na nossa área. Os cidadãos não seguem os planos de evacuação a 100%, ficam para trás para proteger as suas residências. [...] O incêndio foi subestimado e, finalmente, todos os erros cometidos resultaram no nosso luto por tantas vidas humanas." Foi isto o que me disse Vangelis Bournous, o autarca de Rafina-Pikermi, o município a que Mati pertence administrativamente, durante esta semana.

E os moradores não solicitaram anteriormente planos de preparação para um grande incêndio. Eles contam com equipas voluntárias de combate a incêndios que trabalham em estreita colaboração com a Proteção Civil, mas esses planos são feitos para cenários de menor escala.

O sistema de alerta do 112 - a linha de ajuda de emergência nacional da Grécia - ainda não está em funcionamento. Também não houve tempo para quaisquer avisos enviados e comunicados. A maioria dos habitantes com quem conversei disse que, embora cada polícia ou bombeiro seja um herói, os polícias de trânsito, em particular, que tinham o papel de ajudar na evacuação, não sabiam para onde direcionar as pessoas por causa do pouco tempo disponível.

"Onde está o Estado?"

Na Grécia, quando as tragédias chegam e precisamos de um bode expiatório para culpar, pensamos sempre que o Estado é responsável. As pessoas estão a falar sobre a falta de bombeiros e equipamentos, mas não sobre a falta de competência ou bravura como um problema nos incêndios desta semana. Os aviões de combate a incêndios foram reparados nos EUA e, embora alguns deles não estejam a voar, a frota é capaz de lidar com todos os incidentes durante o verão. Os EUA forneceram drones de combate e aeronaves de vigilância da Marinha para ajudar a Grécia a recolher imagens das áreas devastadas pelo fogo.

O impacto da austeridade nos serviços de combate a incêndios na Grécia tem sido duro, com os bombeiros a protestarem várias vezes desde 2010 devido aos cortes nos serviços; o governo grego cortou 34 milhões de euros do orçamento dos bombeiros em 2017. Apesar dos cortes, o moral não baixou, com todos os bombeiros a darem o seu melhor e a cumprirem o seu dever.

Para aliviar as dificuldades dos atingidos, a coligação no poder (composta pelo Syriza de Alexis Tsipras e pelos Gregos Independentes) anunciou mais ajuda financeira para as vítimas dos incêndios em Atenas nesta semana, enquanto tenta responder à tragédia, mas há sinais de que a gravidade da situação está a afetar o governo.

O estigma do que aconteceu em Mati, e de como o governo reagiu desde o incêndio, será difícil de apagar. Ele lança uma luz diferente sobre o esforço da coligação para sair do resgate a 20 de agosto e sobre o discurso de Tsipras na Feira Internacional de Tessalónica, previsto para 8 de setembro, altura em que o primeiro-ministro deve anunciar reduções de impostos e outras medidas positivas.

Jornalista grego da agência @AthensLiveGr
Em Mati e Atenas

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Nuno Artur Silva

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