Dou-te um doce, em troca de um beijo salgado

Qualquer pessoa sabe que para uma negociação ter o mínimo de sucesso é preciso confiança entre as partes. Não é indispensável que a mesma tenha o mesmo nível de início ao fim, mas é imprescindível que ela nunca se perca. O senhor Trump pode tratar as vezes que quiser o senhor Juncker por Jean-Claude e este retribuir com a habitual sessão de beijos, mas a confiança entre a UE e esta administração americana nunca acontecerá. A razão é simples: por mais deslumbrado que subitamente Trump pareça com os méritos do comércio livre, ele não deixa de ser o mesmo presidente que passa meses a desvalorizar acordos e negociações, a desprezar aliados tratando-os como inimigos, e a rejeitar princípios só porque foram alcançados pela administração Obama.

Tudo aquilo que Trump veio glorificar como sendo a última maravilha do comércio transatlântico - anulação tarifária e melhores condições de exportação - não é mais do que a grelha que envolveu o Acordo de Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento (TTIP) e que o atual presidente resolveu excomungar apenas porque não tinha o seu carimbo. Neste sentido, quem cedeu a toda a linha não foi a UE, mas o próprio Trump. O mesmo raciocínio é aplicado à Parceria Transpacífico (TPP): foram precisas onze nações do Pacífico seguirem sem os EUA até à assinatura final, para que Trump passasse a reconsiderar uma entrada no tratado, alertado para o seu valor geoestratégico. Os aliados europeus e asiáticos sabem bem de uma coisa: não é possível confiar na atual administração americana.

Mesmo assim, é preciso sermos pragmáticos. Parto de um princípio endógeno à prosperidade ocidental e em particular à ultrapassagem dos anátemas mais sangrentos da história europeia: tem sido estrutural ao equilíbrio europeu que trabalhemos em cooperação estreita com os EUA. Em último caso, como ficou provado em vários momentos do último século, que os EUA se assumam também como uma "potência europeia". Tem sido globalmente positivo na segurança, na defesa, nos alinhamentos norte-sul e leste-oeste, no comércio, no investimento, na cultura, nas redes universitárias e científicas, na integração migratória, na estabilidade das democracias e no alastramento do constitucionalismo liberal.

Acredito muito nos méritos da relação transatlântica e penso que ela é ainda mais relevante numa era de transições geopolíticas indefinidas e com eixos desequilibradores que se pautam por atitudes e valores revisionistas e agressivos. Neste sentido, qualquer diminuição das tensões entre os EUA e a UE é bem-vinda, qualquer valorização conjunta dos princípios do livre-comércio regulado, da segurança coletiva, dos valores basilares das nossas democracias, deve ser bem acolhida. O que não deixam é de ser acompanhados de uma enorme desconfiança. É neste binómio pragmatismo/desconfiança que a UE vai ter de encontrar um modus operandi para lidar com a administração americana: percebendo os perigos de uma rutura sem, no entanto, esquecer os limites das cedências razoáveis. Mais importante que tudo, não pode deixar anular a sua estratégia de acordos comerciais globais porque Washington lhe consome toda a energia, paciência e recursos.

Já se percebeu que Trump tem, em várias facetas políticas, a idade de uma criança no jardim-de-infância. Não descansa enquanto não tem o que quer, amua se for preciso, esperneia, faz chantagem, berra, ameaça, e depois quando esgota a paciência de terceiros, faz o sorriso dos cínicos e deleita-se com o brinquedo. Quem tem filhos sabe bem como estas atitudes nos podem facilmente levar à loucura. Mas é preciso manter a cabeça fria e consistência num rumo. E se há caminho que a UE tem trilhado com paciência, coerência e sucesso é o do roteiro geopolítico associado à agenda comercial, reserva exclusiva da União.

Neste momento, congeladas sine die as negociações para o TTIP, a UE já fechou acordos com Canadá, Japão, Singapura e Vietname. Além disso, tem em cima da mesa rondas a diferentes velocidades para acordos de livre-comércio e/ou de investimento com Indonésia, Filipinas, Birmânia, Índia, Austrália, Nova Zelândia, Mercosul, México, Chile, Turquia, Marrocos, Tunísia e Quirguistão. Deste lote, vale a pena destacar as dezoito rondas negociais com a China, a última das quais no passado dia 13, com vista a um acordo de investimento recíproco com regras e padrões mais exigentes do que os atuais entendimentos bilaterais. Os tratados de livre-comércio e de investimento não são salvos condutos à arbitrariedade, pelo contrário, são por princípio uma grelha de regras, procedimentos, padrões de regulação e mecanismos de arbitragem, capazes de moldar o comércio internacional com melhores práticas, ao mesmo tempo que o desvincula de derivas protecionistas.

É importante que a UE mantenha este rumo por duas razões. Primeiro, porque afirma perentoriamente ser o polo inequívoco da liberdade comercial no sistema internacional, agregando nações e regiões em redor dos seus modelos negociais e dos seus roteiros legalistas. Este é um sinal fundamental na confirmação da personalidade global da UE perante o brexit, Trump e as demais pressões geopolíticas que a cercam. Segundo, dez anos após a grande crise financeira ocidental, é vital que cresça deste mesmo espaço político uma renovação das regras e padrões da ordem económica mundial, capaz de influenciar comportamentos de terceiros e organizar sob o carimbo e a vigilância europeia as relações económicas entre grandes e médias potências.

O principal problema da dimensão geopolítica desta agenda comercial da UE é ela não ser percebida como mereceria, nem sequer estar a ser "vendida" como tal. Falta, nesta como noutras áreas, músculo político à União. A senhora Malmström é uma excelente comissária, mas não tem o devido reconhecimento nem um peso político natural. À cabeça, o senhor Juncker não se recomenda para a tarefa que se exige à Europa no momento estratégico crucial que atravessamos. Dar mais protagonismo a Malmström e, por exemplo, ter Angela Merkel à frente da próxima Comissão, seria uma solução capaz de fazer da agenda comercial o grande desígnio geopolítico da Europa num mundo em tamanha transição. De certeza que se acabavam os beijos na Casa Branca.

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