Premium "As alterações climáticas são evidentes"

Ricardo Trigo lidera o grupo de climatologia do Instituto Dom Luiz da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.

O que o surpreende mais neste verão?

A duração da onda de calor na Europa, que já está a ocorrer praticamente há dois meses. Isso é surpreendente. E também é impressionante a extensão de semanas muito quentes que vão desde a Califórnia até ao Japão. Não é nada frequente. A Europa a grande escala está bastante quente e em grande parte da Ásia e da América acontece o mesmo. A esta escala não é usual.

Podemos falar em alterações climáticas?

As alterações climáticas são evidentes por todo o lado. E sabemos que o que se está a passar nas últimas décadas tem um enorme impacto dos humanos. Se não tivéssemos enviado os gases com efeito de estufa para a atmosfera não estaríamos a verificar uma série de situações. Em relação a este verão, não se pode olhar para os fenómenos individualmente. A questão é se as ondas de calor estão a aumentar e se, os modelos, com os gases com efeito de estufa, reproduzem o que observamos, e a resposta é sim. A probabilidade de as ondas de calor ocorrerem agora nas latitudes elevadas, Europa, Estados Unidos, Japão, Canadá, China, aumentou bastante nas últimas décadas, como os modelos previam.

Estão a gerar-se novos desequilíbrios atmosféricos?

É o que observamos. Há um mecanismo da circulação atmosférica chamado células de Hadley, em que o ar ascende no equador, fica lá em cima sobre os desertos, desce de novo, e temos os anticiclones situados a 30 graus norte e a 30 graus sul. Com o aquecimento do planeta, a amplitude dessas células está a aumentar cada vez mais para norte e para sul. Sabemos que isso aumenta a probabilidade das secas no norte de África, no sul do Mediterrâneo, na Califórnia e na África do Sul. As correntes de jato, com a diminuição da diferença entre as temperaturas no equador e nos polos, também estão a diminuir ligeiramente. São dois fenómenos com repercussões diretas na circulação da atmosfera e na probabilidade de mais fenómenos extremos. E isto decorre deste aquecimento global da atmosfera diferenciado.

Este verão vai exigir estudos?

Não tenho a mais pequena dúvida. É preciso perceber porque houve fenómenos tão extensos de calor, desde o Mediterrâneo, na Grécia, ao norte da Europa. É preciso perceber o que está exatamente a acontecer.

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