Assim em cada lago a lua toda / Brilha, porque alta vive.

Começamos hoje com Fernando Pessoa ou, melhor, Ricardo Reis: "Assim em cada lago a lua toda/ Brilha, porque alta vive."

Aproximam-se os 50 anos da ida à Lua e muitas histórias se irão contar sobre a missão Apollo e os seus astronautas. De Neil Armstrong, o comandante, o primeiro homem a pisar solo lunar, há tantas e tantas histórias, tão boas e comoventes, que não é possível lembrá-las todas, mas esta conta-se assim:

Muitos desconhecem que Armstrong teve uma filha. Até vários colegas seus da NASA nunca o souberam. Neil não falava dela, de Karen Anne, que nasceu a 13 de Abril de 1959 no Antelope Valley Hospital, em Lancaster, Califórnia. Foi chamada Karen pois esse era o nome de uma rapariguinha que ele conhecera na adolescência, a irmã de Fred Fisher, um dos seus maiores amigos de juventude. Pouco antes de abandonar a sua terra natal para ir estudar para a universidade, Neil confidenciou a Fred que, se um dia tivesse uma filha, iria chamar-lhe Karen. Não houve dúvidas quando ela nasceu. A irmã de Fred tinha um apelido carinhoso, "Cookie"; Armstrong tratava a filha por "Muffie", uma variante de "Muffin".

Num domingo, 4 de Junho de 1961, Muffie deu uma queda aparatosa quando brincava num parque público de Seattle, cidade onde a família Armstrong viveu uns tempos. Com umas arranhadelas na cara e um joelho esfolado, o nariz a sangrar, Muffie pareceu recuperar da queda, igual a todas as quedas de todas as crianças do mundo. À noite, porém, os seus olhos não paravam de mexer, num movimento estranho, imparável. A mãe, Janet, levou-a na manhã seguinte a um pediatra de Seattle, que lhe aconselhou que consultasse um oftalmologista. Este disse a Janet que a observasse com cuidado e que regressasse ao seu consultório dali a uma semana. Nessa semana, durante uma aula de natação, Muffie piorou dos olhos e perdeu a capacidade de falar, balbuciando apenas palavras incompreensíveis. Janet decidiu interná-la num hospital de Los Angeles e só depois falou com o marido. Neil estava fora em trabalho, como tantas vezes acontecia. Os exames, prolongados e dolorosos, trouxeram o diagnóstico: um tumor no cérebro, raro, dos piores. Com o afinco habitual, desde os tempos de criança em que construía aviõezinhos de brincar, Neil estudou todos os tratamentos possíveis, passando horas ao telefone com o seu cunhado médico. No início das sessões de radioterapia, Muffie perdeu o equilíbrio, nem sequer conseguia manter-se em pé. Ao fim de um mês, como tantas vezes sucede, registaram-se algumas melhoras. O casal Armstrong levou-a de volta para casa, uma cabana de montanha em Juniper Hills. A esperança durou pouco, não mais do que uns dias. O seu irmão Ricky, na altura com quatro anos, foi o primeiro a notar que os sintomas do cancro tinham regressado, galopantes. Só restava um tratamento, o cobalto, mas Muffie estava demasiado fraca para o suportar. Os médicos chamaram os Armstrong e disseram-lhes que não havia salvação possível, sendo melhor levar a criança para casa e deixá-la morrer em paz. Chegou o Natal, a quadra foi passada tranquilamente, como se a doença tivesse decidido dar uma trégua àquela família. Com o Ano Novo, voltou o tormento. Com pouco mais de dois anos de idade, Karen Anne Armstrong morreu de pneumonia em 28 de Janeiro de 1962, dia do sexto aniversário de casamento de Neil e Janet. No funeral, no dia 31, Janet estava devastada após seis meses de calvário. Neil, como sempre, escondeu as emoções e suportou estoicamente a dor. Pouco depois, a 5 de Fevereiro, regressou ao trabalho e, no dia seguinte, já estava a voar. Uma amiga do casal, entrevistada por James Hansen, o mais informado biógrafo do astronauta, disse que aquela atitude magoou bastante Janet, que se sentiu abandonada pelo marido quando mais precisava dele (Janet separar-se-ia de Neil em 1994, ao fim de 38 anos de casamento, cumprindo a sina das mulheres dos astronautas - dos 21 casamentos de homens envolvidos nas missões à Lua, 13 acabaram em divórcio).

Neil Armstrong nunca falou da doença e da morte da sua filha. Mas sempre que regressava à Califórnia, vindo da Florida ou de outros lugares, ia ao cemitério visitar-lhe a campa. Bruce Petterson, um piloto de testes da NASA que habitualmente lhe dava boleia de carro em Los Angeles, lembra-se que o astronauta pedia sempre para passar no Joshua Memorial Park; entrava sozinho, ficava ali um pouco, regressava silencioso, sem dizer palavra. Anos mais tarde, quando um incêndio devastou a casa dos Armstrong na Florida, episódio em que Neil mostrou uma vez mais a sua fibra, salvando os dois filhos das chamas, perderam-se várias recordações de família, entre as quais as fotografias de Muffie, quase todas.

Muitos afiançam que foi a morte da filha que levou Neil a candidatar-se, nesse mesmo ano de 1962, ao concurso para astronautas que a NASA abrira no âmbito do Projecto Gemini (a candidatura foi entregue uma semana depois do final do prazo, mas um técnico que o conhecia bem decidiu sagazmente colocar os papéis no meio da pilha das candidaturas sem que ninguém notasse). Não podemos dissociar o triunfo épico de Armstrong, o first man, o comandante da Apolo 11, da tragédia íntima que o abalara anos antes. É assombroso pensar que Neil Armstrong foi daqui até à Lua com uma faca no coração. E com essa ferida sangrante tudo foi feito: os treinos e os testes, a alunagem incrível, a pegada na poeira, o salto para a humanidade, a bandeira desfraldada com arames, caída ao chão logo que levantaram voo de regresso a casa. Em Outubro de 1969, na viagem triunfal a Londres, pouco antes de os três astronautas da Apolo 11 serem recebidos pela rainha em Buckingham, uma multidão cercou-os à porta da embaixada americana. Neil Alden Armstrong, o eterno escuteiro, o ser humano generoso e bom, exemplar, o piloto de caças abatido nos céus da Coreia, o herói relutante da viagem pelas estrelas, aproximou-se de uma menina de dois anos que por ali andava, Wendy Jane Smith, tomou-a nos braços e beijou-a no rosto, para delírio de todos. Mas só alguns, os mais próximos, perceberam o alcance daquele gesto, ainda hoje lembrado.

Vários astronautas evocaram os filhos quando estavam no espaço. Gene Cernan, da Apolo 17, desenhou as iniciais de Tracy, a sua menina de nove anos, na superfície lunar, onde Charlie Duke, na missão anterior, deixara uma fotografia da família, rapidamente desfeita pelo calor. Também Buzz Aldrin andou em órbita com fotografias dos filhos (e agora acusa-os em tribunal de lhe quererem ficar com a fortuna...). Nunca se soube, nem ele o disse, se Neil Armstrong transportou para os céus alguma recordação da filha. Did he take something of Karen with him to the Moon? - questionou a sua irmã, retoricamente - Oh, I dearly hope so. Nunca o saberemos. Poucos meses antes de Armstrong morrer, o amigo e biógrafo Jay Barbree perguntou-lhe se tinha deixado lá em cima, onde alta vive, uma lembrança de Muffie. Em resposta, o astronauta limitou-se a sorrir. Ao certo sabemos apenas que aquele homem daria tudo, até a Lua, só para a ter de volta.

António Araújo

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