Premium Diaby fugiu da guerra e nunca parou de remar

O marfinense fugiu da guerra no país e chegou à Europa num pequeno barco que partiu de Marrocos, assombrado pelo temor de ser atirado no deserto ou ao mar. O refugiado, mais um lisboeta vindo de fora, hoje dedica-se a ajudar outras almas em fuga, em busca de segurança, paz e um trabalho em Lisboa.

A certa altura, o capitão desligou o motor e a pequena embarcação foi engolida pelo silêncio da noite. Diaby e os outros sete ou oito "passageiros" ouviram o experiente marujo, num sussurro, mencionar os remos que pendiam do barco insuflável. Teriam de vencer a correnteza com os músculos para não serem notados. A travessia era tramada. As histórias contavam sobre almas relegadas ao deserto ou ao mar. Fugir da guerra era enfrentar uma outra guerra, exigia coragem e medo em doses ainda maiores do que a imensidão do Sara e do Atlântico.

Sentado na esplanada de um café no Oriente, o marfinense Abdou Eahamane Diaby recorda-se de um dia de agosto soalheiro e quente como aquele, em 2007, quando a travessia terminou em outra estação de comboios, Santa Apolónia. A primeira noite em Lisboa foi igual à do bote, cheia de incertezas, as estrelas como teto. Enquanto tentava dormir, ao relento, à porta de Santa Apolónia, Diaby fechou os olhos e voltou a ouvir a voz sem rosto do capitão, a murmurar baixinho, como numa oração, "remem, remem".

Ler mais

Mais Notícias

Outros conteúdos GMG