Premium Veneza está aí e é Orson Welles quem agita as águas

O certame italiano arranca hoje termina a 8 de setembro. O Primeiro Homem na Lua, de Damien Chazelle, faz a abertura

O mais curioso deste 75.º Festival de Veneza não está na sua seleção oficial. A aquisição de The Other Side of the Wind, filme inacabado de Orson Welles, que é um dos títulos mais esperados do ano, acaba por representar o emblema de uma edição pró-Netflix. Isto porque - vale a pena recordar - depois do polémico divórcio entre Cannes e essa plataforma digital, detentora dos direitos, a obra em questão tinha sido uma das sacrificadas pelo certame francês. E assim, o grande acontecimento fica destinado ao Lido, que dará a conhecer este projeto escrito por Welles com a companheira Oja Kodar (e protagonizado por John Huston), cujo restauro foi supervisionado pelo produtor Frank Marshall, que trabalhou com o cineasta no decorrer das filmagens, nos anos 1970. Em complemento ao evento especial surge ainda o documentário They'll Love Me When I'm Dead, de Morgan Neville, que segue essa aventura do final da carreira do realizador de Citizen Kane.

Mas há mais títulos Netflix por estas bandas. Em competição, encontramos o western dos irmãos Coen, The Ballad of Buster Scruggs; o novo filme (a preto e branco) do mexicano Alfonso Cuarón, Roma; e de Paul Greengrass, 22 July, sobre o atentado do terrorista norueguês Anders Breivik. Ainda na seleção oficial, também o francês Jacques Audiard sai do seu elemento para se meter por terras do western, com The Sisters Brothers, que junta Joaquin Phoenix, Jake Gyllenhaal e John C. Reilly. Já o italiano Luca Guadagnino corre todos os riscos com a nova versão do clássico de terror Suspiria, um dos grandes gialli de Dario Argento. Entre outros, não faltam aqui os mais recentes trabalhos de Olivier Assayas (Doubles Vies), Mike Leigh (Peterloo) e László Nemes (Sunset) - este último, recorde-se, a maior revelação de Cannes 2015, com um filme para pensar o Holocausto, O Filho de Saul. Levanta igualmente curiosidade At Eternity's Gate, do artista Julian Schnabel, que lança um olhar sobre outro artista: Vincent van Gogh interpretado por Willem Dafoe.

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A América foi fundada também por angolanos

Faz hoje, 25 de agosto, exatos 400 anos que desembarcaram na América os primeiros negros. Eram angolanos os primeiros 20 africanos a chegar à América - a Jamestown, colónia inglesa acabada se ser fundada no que viria a ser o estado da Virgínia. O jornal The New York Times tem vindo a publicar uma série de peças jornalísticas, inseridas no Project 1619, dedicadas ao legado da escravatura nos Estados Unidos. Os 20 angolanos de Jamestown vinham num navio negreiro espanhol, a caminho das minas de prata do México; o barco foi apresado por piratas ingleses e levados para a nova Jamestown. O destino dos angolanos acabou por ser igual ao de muitos colonos ingleses: primeiro obrigados a trabalhar como contratados e, ao fim de alguns anos, livres e, por vezes, donos de plantações. Passados sete anos, em 1626, chegaram os primeiros 11 negros a Nova Iorque (então, Nova Amesterdão) - também eram angolanos. O Jornal de Angola publicou ontem um longo dossiê sobre estes acontecimentos que, a partir de uma das maiores tragédias da História moderna, a escravatura, acabaram por juntar o destino de dois países, Angola e Estados Unidos, de dois continentes distantes.