Premium Encolher os dias

Não há dia em que não o ouça, muitas vezes são duas senhoras que se encontram, por vezes dois senhores.

- Então, dona Aida (ou São, ou Elsa, ou senhor António), como vai andando?

- Olhe, cá vou, devagarinho...

Eu sei que o advérbio vai muito para além das pernas, tenho idade para desconfiar do óbvio. Recordo-me de fazer a mesma pergunta ao meu avô nos últimos tempos de vida e de ficar intrigado com a resposta: "Olha, cá vou encolhendo os dias."

A velhice é cheia de contradições, as horas são cada vez mais lentas e os dias cada vez mais curtos. Vem-me à memória o paradoxo de Zenão e a metade da metade do caminho. Afinal, ninguém quer chegar à meta e só nos resta enganar o tempo, devagar, devagarinho.

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João Gobern

País com poetas

Há muito para elogiar nos que, sem perspectivas de lucro imediato, de retorno garantido, de negócio fácil, sabem aproveitar - e reciclar - o património acumulado noutras eras. Ora, numa fase em que a Poesia se reergue, muitas vezes por vias "alternativas", de esquecimentos e atropelos, merece inteiro destaque a iniciativa da editora Valentim de Carvalho, que decidiu regressar, em edições "revistas e aumentadas", ao seu magnífico espólio de gravações de poetas. Originalmente, na colecção publicada entre 1959 e 1975, o desafio era grande - cabia aos autores a responsabilidade de dizerem as suas próprias criações, acabando por personalizá-las ainda mais, injectando sangue próprio às palavras que já antes tinham posto ao nosso dispor.