Premium Encolher os dias

Não há dia em que não o ouça, muitas vezes são duas senhoras que se encontram, por vezes dois senhores.

- Então, dona Aida (ou São, ou Elsa, ou senhor António), como vai andando?

- Olhe, cá vou, devagarinho...

Eu sei que o advérbio vai muito para além das pernas, tenho idade para desconfiar do óbvio. Recordo-me de fazer a mesma pergunta ao meu avô nos últimos tempos de vida e de ficar intrigado com a resposta: "Olha, cá vou encolhendo os dias."

A velhice é cheia de contradições, as horas são cada vez mais lentas e os dias cada vez mais curtos. Vem-me à memória o paradoxo de Zenão e a metade da metade do caminho. Afinal, ninguém quer chegar à meta e só nos resta enganar o tempo, devagar, devagarinho.

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Anselmo Borges

"Likai-vos" uns aos outros

Quem nunca assistiu, num restaurante, por exemplo, a esta cena de estátuas: o pai a dedar num smartphone, a mãe a dedar noutro smartphone e cada um dos filhos pequenos a fazer o mesmo, eventualmente até a mandar mensagens uns aos outros? É nisto que estamos... Por isso, fiquei muito contente quando, há dias, num jantar em casa de um casal amigo, reparei que, à mesa, está proibido o dedar, porque aí não há telemóvel; às refeições, os miúdos adolescentes falam e contam histórias e estórias, e desabafam, e os pais riem-se com eles, e vão dizendo o que pode ser sumamente útil para a vida de todos... Se há visitas de outros miúdos, são avisados... de que ali os telemóveis ficam à distância...