Dominica. O papagaio que me cantou Jazz

Mala de viagem (52). Um retrato muito pessoal de Dominica.

O destino foi a costa noroeste da Dominica. Esta costa inclui características naturais e excecionais, sendo uma zona protegida. Estivemos lá em maio, para assistirmos ao Jazz"n Creole Festival, que acontece anualmente desde 2010 e cuja música se envolve da vista soberba e das pessoas que a procuram. Ambas conferem aos visitantes uma ilha em paz com o mundo, ou não fora este um dos paraísos da Terra. O Jazz"n Creole Festival é uma fusão de música, gastronomia e cultura. Naquela edição, a sétima, no Cabrits National Park (Portsmouth), entre os artistas, esteve o guitarrista Cameron Pierre, que se apresentou pela segunda vez no evento. Ele nasceu em Londres, mas cresceu nesta ilha caribenha; musicalmente, começou no Reggae, depois fundou, sucessivamente, o projeto Creole, numa mistura multicultural de músicos de África e das Caraíbas, e o Cameron Pierre Band. Nesta edição, também estiveram os Cadence All Stars, da Dominica, que fecharam o dia. Vieram ainda de fora os Soft, de Guadalupe, Élan Parlé, de Trinidad, e Andy Narell Quartet, dos Estados Unidos da América. Durante as atuações, todas as pessoas permaneciam irmanadas. Estávamos ali quase dois mil espectadores. A ideia deste evento é sensibilizar e consciencializar os locais para a importância do Jazz, como um género musical adequado a esta atmosfera, bem como desenvolver uma marca de produto musical e turístico, estimular a atividade económica pelo aumento da ocupação hoteleira, trazer nomes consagrados, como já acontecera com Angélica Kidjo e Marlo Rosado, e, finalmente, encorajar a população desta ilha a apropriar-se do evento. Para pernoitar, o grupo já levava uma reserva para o novíssimo Cabrits Resort & Spa Kempinski Dominica, que fica a 35,5 quilómetros do Aeroporto Internacional Douglas-Charles e a 42,8 quilómetros do Aeroporto Internacional de Canefield, já que os visitantes tanto usam um como o outro, consoante as suas origens. O tempo de viagem do táxi particular do hotel foi de 55 minutos, entre o aeroporto e as instalações. Num dos 151 quartos, com vista panorâmica de tirar o fôlego para o mar das Caraíbas, acordei, diariamente, ao som de um simpático visitante. Era um papagaio que me cantava. Depois do evento musical, parecia ser algo do que eu ouvira lá, ou seja, uma espécie de acordes jazzísticos, que variavam consoante o apetite musical do papagaio em cada despertar, não por cordas vocais, mas por uma membrana (seringe) localizada entre os brônquios e a traqueia, segundo os especialistas. Há papagaios endémicos da Dominica; eles são uma ave rara e protegida, embora os da floresta estejam ameaçados, até pelos furacões recorrentes. A partir da terceira manhã, pedi o pequeno-almoço na varanda do quarto, onde ficava em boa companhia. E assim fizemos um ensemble: um papagaio, um turista, um pequeno-almoço, enfim, um recatado Jazz"n Creole Festival, com acordes musicais e gastronomia, mais o azul a perder de vista, tal como é próprio de uma ilha que precisa do mar. Analogamente, também um ser humano não se completa a si próprio. Aquele papagaio completou-me naqueles dias, foi o meu companheiro, embora inusitado.

Jorge Mangorrinha, professor universitário e pós-doutorado em turismo, faz um ensaio de memória através de fragmentos de viagem realizadas por ar, mar e terra e por olhares, leituras e conversas, entre o sonho que se fez realidade e a realidade que se fez sonho. Viagens fascinantes que são descritas pelo único português que até à data colocou em palavras imaginativas o que sente por todos os países do mundo. Uma série para ler aqui, na edição digital do DN.

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