"Fez cá muita falta. Quando aqui esteve a Figueira era badalada"

Sem maioria, Pedro Santana Lopes vai precisar de entendimentos com o PS ou com o PSD para governar a Câmara da Figueira, onde regressa 24 anos depois. Qual filho pródigo, é por ele que a cidade espera para voltar à ribalta. A dívida? Já era.

Paula Sofia Luz

A Figueira está de novo nas bocas do mundo. E isso parece bastar aos figueirenses (por ora) para se encherem de esperança em dias melhores, ou à procura de um regresso ao passado: entre 1997 e 2001, Santana Lopes prometeu e cumpriu, colocando a Figueira no mapa. E mesmo que seja ele mesmo a advertir que os tempos são outros, como outra é a cidade ou o concelho, como até ele parece ser outro - afinal passaram 24 anos - desde a noite de domingo que por ali se vive um certo sentimento de regresso do filho pródigo.

Tal como na capital do país, também naquela que Santana quer transformar em "capital do mar" as sondagens falharam. As últimas apontavam mesmo uma maioria absoluta para o líder do Movimento independente Figueira A Primeira (FAP), mas foi preciso contar até aos últimos votos para se ter a certeza: Pedro Santana Lopes ganhou a Câmara por 619 votos, derrotando o candidato do PS, Carlos Monteiro, 58 anos, um professor de biologia que substituiu no cargo João Ataíde (falecido em fevereiro 2020, vítima de doença súbita), quando este foi chamado a desempenhar funções de Secretário de Estado do Ambiente, em 2019. O movimento FAP e o PS elegeram cada um quatro vereadores. O último dos nove lugares que compõem o executivo vai ser ocupado por Pedro Machado, eleito pelo PSD. O atual presidente do Turismo do Turismo foi a escolha do partido em detrimento de Santana - que, como não se cansa de dizer, "perdoa mas não esquece", e por isso entende que esta vitória é "uma bofetada de luva branca" em Rui Rio, decisivo na hora da escolha. Porém, o tempo agora é de encontrar consensos, já que o presidente eleito não tem maioria (nem na Câmara nem na Assembleia Municipal, além de ter conquistado apenas duas das 14 juntas de freguesia) e por isso vai precisar de aliados. Foi por isso que logo no seu primeiro discurso fez uma entrada "à Santana", abrindo a porta "a quem quiser trabalhar conosco, a um ou outro vereador da oposição que queira ter algum pelouro..."

A Figueira não é a mesma

As tricas políticas que agora andam a tricotar-se para tornar governável a autarquia da Figueira da Foz passam ao lado da maioria da população. A cidade acordou sem resquícios de festa na manhã de segunda-feira, com a calmia que o fim de setembro sempre traz, e que ali é sinónimo de descanso para quem trabalhou afincadamente nos últimos meses de verão. Mesmo que o ditado lhe chame outra coisa: "temos um mês de inverno e 11 de inferno", brinca o pintor Marcos Girão, sentado à mesa de uma esplanada da rua dos Pescadores, em Buarcos, uma das duas freguesias que Santana conquistou. Por ali comenta-se o regresso com entusiasmo, entre pratos do dia e dois dedos de conversa. "Isto pode ser muito bom para a Figueira. A candidatura, passados estes anos todos, é que foi uma surpresa. Agora, a partir do momento em que ele ele a anunciou, começou-se a perceber que vinha para ganhar", diz ao DN Marcos Girão, mesmo advertindo para todo um contexto que mudou, volvido quase um quarto de século: "os tempos não são os mesmos. Ele não é o mesmo Santana de há 20 anos...e a própria Figueira também já não é a mesma".

Maria Gonçalves já há 24 anos tinha apoiado Santana Lopes.© Fernando Fontes/Global Imagens

Todos parecem saber disso, mas sem lhe atribuírem grande importância. Lúcia Silva, a proprietária do restaurante, nem sequer tem grande memória desses anos dourados em que o então dirigente social-democrata chegou à Figueira disposto a colocá-la no mapa e na moda. "Era muito nova, nessa altura não ligava à política nem a nada destas coisas". Tem agora 42 anos, continua a não ligar muito à política, mas mostra-se satisfeita com a vitória de Pedro Santana Lopes. Porquê? "Porque bastou ele anunciar que se ia candidatar para a Figueira voltar a ser falada em todo lado. As televisões e os jornais vêm aqui todos os dias. E isso é muito bom para nós".

Dívida ou investimento?

Mas o editor José Cardoso vai mais além. Ele, que conheceu Santana na sua primeira vida ao leme da autarquia figueirense, tem memória de como aquele tempo rasgou com o passado e moldou o futuro. E então vem à baila o tema que os adversários sempre invocaram para não querer um regresso do lisboeta à Figueira: a dívida, a famosa dívida do município que chegou a ultrapassar os 92 milhões de euros, sendo boa parte atribuída ao tempo de Santana Lopes.

"Ele tinha começado uma obra, um trabalho que depois foi interrompido quando deixou a Figueira. Ora, se um investimento não é rentabilizado, é normal que dê prejuízo, numa câmara como num negócio qualquer. Na minha opinião o que ele fez foi investimento, não foi dívida", sublinha José Cardoso. A família é proprietária do conhecido Bolina, um dos restaurante onde Santana Lopes almoçava por vezes. Não tantas como no de Celeste Russa, a amiga que enalteceu na hora da vitória, madrugada dentro. "As pessoas gostam dele. Porque até ele aqui chegar, eu não me lembro de um presidente da Câmara ter essa preocupação de ir aos estabelecimentos comerciais - numa terra que vive do comércio - perguntar como é que estava a correr o negócio. E preocupar-se em ajudar para que corresse bem", acrescenta José Cardoso. Depois há o resto, que os figueirenses entusiastas deste regresso conseguem elencar: o dinamismo cultural, a ciclovia, o apoio às coletividades. A construção do CAE - Centro de Artes e Espetáculos da Figueira da Foz, que hoje faz parte da agenda de espetáculos nacionais. Neste remake do santanismo à moda da Figueira, José acredita que que haverá diferenças, pelo que lhe é dado observar: "julgo que ele agora está mais voltado para o lado humano, para a a parte social. Ouvi-o falar muito na necessidade de haver transporte para as pessoas de idade, entre as freguesias e a sede de concelho. Até talvez pela idade que ele também já tem", conclui José Cardoso.

Maria Gonçalves, Mariazinha das flores, leva mais de meio século naquela banca do mercado municipal. Ela nas flores, o filho na fruta, a família inteira está envolta num dia de esperança com a vitória de Santana Lopes. "Ele fez cá muita falta. Quando ele aqui esteve foi muito badalada, a Figueira. E foi por isso que ele ganhou outra vez", considera a florista, que agora espera uma nova onda de progresso como aquela que se levantou em 1997. Sabe que os tempos são outros, que nem ela nem ele já têm a mesma idade. "O que eu dancei com ele naquela altura, nos bailes do São João!", recorda ao DN, num indisfarçável saudosismo.

Nem seria preciso uma canção deixar vincado que "o que foi não volta a ser". Na Figueira da Foz sabem-no bem. Notam-lhe a debilidade física, a voz por vezes rouca quando o cansaço se manifesta, mas crêem na mesma determinação de sempre, aquela que fez Pedro Santana Lopes arriscar a volta, enfrentar a recusa do PSD, as batalhas nos tribunais (quando o partido tentou impugnar-lhe a candidatura), a maioria absoluta do PS, e ganhar. Não é para meninos. Só se forem guerreiros, como ele.

"Vencer nestas circunstâncias foi uma proeza sem igual. É uma emoção muito especial, 24 anos anos depois. Já caí e levantei-me inúmeras vezes. Há quanto tempo eu não tinha uma vitória eleitoral?", disse o vencedor, no seu primeiro discurso enquanto presidente eleito, que entende esta sua vitória como "um estímulo para muitas pessoas que passam momentos difíceis, seja num partido grande ou num pequeno partido". Falava do PSD e do Aliança, o partido que fundou em 2017 quando falhou a liderança do maior partido da oposição.

Aos 64 anos, mesmo quando se diz pronto para "enterrar os machados de guerra", parte para uma nova batalha. "Por quatro anos? Por 12 anos? Sabe-se lá".