Como aprender com o obituário de um ente querido

Conhecem-se as saudades dos velhos soldados que fizeram as guerras. Como se raramente saíssem delas conscientes e amargos sobre os homens. Ou, se calhar, eles só têm saudades de terem sido jovens... No avançar da idade, também vou ficando com esse sentimento de perda atual, quando comparo com a memória. Ah, as personalidades de antanho! E quando uma me ressurge, geralmente para mal dela, em anúncio de óbito, lá me reaparecem as saudades. Na política internacional, é fácil. Esta semana morreu Jacques Chirac e saiu engrandecido. Pudera, se acordo com tweets de Donald Trump, com a cara de quem não percebeu de Jair Bolsononaro e com a brutalidade de Boris Johnson, como não ter saudades de Jacques Chirac?!

Acresce que Chirac foi mesmo grande, não precisava de comparações ranhosas. Entre os líderes franceses, ele foi o maior dos gaullistas, sendo a fonte destes o general De Gaulle, que foi muito grande. Esta semana, um jornal francês chamou a Jacques Chirac "um oximoro com pernas", contraditório à quinta casa. Falava assim: "A grandeza da França não se constrói com água morna e clorofórmio." Os seus affaires, negócios como lhes chamam os franceses, para nos iludir da corrupção real e forte, conviveram com política tratada com grandeza.

Chirac foi longamente, 17 anos!, maire (presidente da câmara) de Paris. Se "Paris vale bem uma missa", como disse um Bourbon, que voltou a ser católico para chegar a rei de França, Jacques Chirac fez da câmara de Paris a segunda capital para que ele pudesse atingir, em 1995, a primeira: o Palácio do Eliseu. Antes tinha sido ministro e líder de partido (da direita), com posições de vanguarda. De convicções europeístas, pela abolição da pena de morte e apoiando a ministra Simone Veil na lei do aborto. Presidente, não embarcou na falsidade das "armas de destruição em massa" - o que fez dele um dos raros líderes ocidentais que não colaborou na destruição, essa real, do Iraque (e quase tudo à volta).

Oxímoro sobre pernas, porém, abria as portas do seu gabinete na câmara de Paris e sopesava as malas de dinheiro idas de África, trazidas por Robert Bourgi, o homem da ligação do partido gaullista com os líderes africanos francófonos. Bourgi contou-o em entrevistas, sem que os diversos affaires e aberturas de processos tenham chegado a condenações. O segundo mandato presidencial foi ganho na segunda volta contra Jean-Marie Le Pen. Chirac fez o pleno da direita e esquerda contra a extrema-direita.

As saudades que se podem sentir de Jacques Chirac não bebem tanto nesses grandes pormenores políticos - já varridos por espantos bem mais importantes neste milénio. A memória e a lenda fincam-se mais no que pinta um líder político. Caloroso, culto e popular, Chirac envolvia com classe. Inventem um Alberto João Jardim que encantava as mulheres, era sinólogo e discutia as máscaras da arte do Benim. Tinha voz de locutor de rádio, com pose excessiva, que nele não nos parecia excessiva, e era capaz de dizer de passagem "abracadabrantesque" em entrevista televisiva.

Mas também leio no Le Monde, o testemunho de Chirac dizer num comício, em 1991, depois de visitar o bairro parisiense Goutte d"Or, pobre e de imigrantes: "O que querem vocês que pense o trabalhador francês que vê no patamar do seu prédio um vizinho, com três ou quatro mulheres e uma vintena de miúdos e que vive dos subsídios sociais, sem trabalhar! E se juntarem a isso o barulho e o cheiro..." Leio e penso que o presente também tem salvação. Em charme e patine os nossos políticos passados talvez ganhem, mas a maioria dos do presente aprendeu a não falar assim ou prestou tributo à decência e calou. Quer dizer, evoluímos nesse aspeto.

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