Padilla: o adeus do Pirata que esteve "sempre nas mãos de Deus"

Por três vezes, o matador espanhol saiu em ombros pela porta grande do Campo Pequeno. Nesta quinta-feira, despediu-se do público português na mesma praça que o distinguiu com o prémio de triunfador na temporada de 2016. Até ao fim do ano, ainda pisará as arenas espanholas e sul-americanas, antes de se retirar, conforme anunciou. Uma coisa é certa: o mundo terá saudades dele.

No momento em que se preparava para cravar um par de bandarilhas, na corrida de 7 de julho de 2018, Padilla escorregou e foi colhido. Fazia a sua despedida de Arévalo quando o toiro, em pontas, lhe apanhou o couro cabeludo, mesmo junto à orelha, e lhe arrancou uma fatia de quatro dedos de largura do escalpe. A descrição é de arrepiar, a realidade foi bem pior de ver, mas o ferimento, impressionante que era, não tinha de todo a gravidade de outros antes.

Uma semana mais tarde, suíças meticulosamente aparadas em honra de Paquiro (conhecido matador espanhol do século XIX), Juan José Padilla brilhava em Pamplona, com um lenço preto a esconder a cicatriz grossa e fresca, mais uma no mapa de pontos, remendos e retalhos que tem desenhado no corpo, juntando mais argumentos à imagem que o público lhe colou - e ele assumiu, deixando de ser o Ciclone de Jerez, como era conhecido desde que tomou a alternativa, em 1994, para se tornar o Pirata - quando perdeu o olho e passou a tourear com uma pala negra.

Nada demais para o matador espanhol que foi colhido por 40 vezes nas mais de 500 corridas que cumpriu nos seus 25 anos em praça. Muitas vezes com risco de morte. A mais grave colhida da sua vida, sofreu-a em Saragoça, a 7 de outubro de 2011. Uma cornada que entrou pelo pescoço, subiu pelo maxilar e empurrou o olho para fora do globo ocular, desfazendo-lhe o canal auditivo. Roubou-lhe também parte dos movimentos da cara - Padilla sentiu-o logo que se levantou do chão, entre urros de dor e com uma ainda pouco realista perspetiva da gravidade do ferimento. Por milagre, o cérebro escapou intacto.

"Tenho umas ganas tremendas de voltar a essa praça, estou muito motivado. Tudo vai correr bem", diria no regresso, cinco meses depois do "percalço" (é assim que se refere sempre ao que viveu naquele dia). Com a mesma coragem, o matador espanhol voltou a ajoelhar a centímetros da cara do toiro, a bailar à sua volta, a cair e a levantar-se para mais um desplante.

Um mapa desenhado a cicatrizes no corpo

Fê-lo por mais seis anos. Fê-lo ainda neste mês em Valladolid, quando um toiro quase lhe rasgava a perna - trocou os farrapos que sobraram do traje de luces pelas calças de ganga e voltou a saltar para a arena para enfrentar o toiro de joelhos, terminando a corrida com uma saída em ombros. E fê-lo de novo no dia 20, quinta-feira, na sua última corrida no Campo Pequeno, quando um passo mal calculado o atirou ao chão e o toiro não perdoou - levantou-se e seguiu a lide com a destreza e a valentia de sempre.

"Recordo e agradeço a entrega do prémio de triunfador na temporada de 2016 e o facto de, no dia da entrega, num jantar no Campo Pequeno, ter sido levado em ombros pelos aficionados presentes, encontrando-me vestido à paisana", diria antes de entrar na praça lisboeta para se despedir dos aficionados portugueses. Os mesmos que o haviam de aplaudir de pé e obrigar a três voltas à praça, carregado em ombros, em reconhecimento de uma carreira brilhante e sobretudo de imenso valor.

Quando 2018 chegar ao fim, Juan José Padilla deixará as arenas, conforme anunciou no início do ano. Mas antes de arrumar o estoque ainda andará por Espanha e pelas Américas (México e Peru). Na última quinta-feira em Lisboa, colheu mais uma história para guardar junto ao capote e à espada: o segundo toiro custava a animar, o matador espanhol esforçava-se por acordá-lo, e eis que se levanta do nada um homem na assistência, eleva a voz numa quadra cantada a cappella em honra do valor de Padilla. O toureiro parou a escutar, o toiro ouviu e respeitou, e quando a praça rebentou em aplausos, homem e animal olharam-se em sinal de respeito e completaram a sua dança num espetáculo notável.

Antes de deixar a arena, o toureiro fez questão de beijar o chão onde foi uma vez mais feliz.

A saída que deixará saudades

Quando nenhuma das mais graves colhidas pôde afastá-lo das arenas, o que levou Padilla, 45 anos, a decidir que chegara a hora de se despedir? A vontade de não sair por imposição "médica ou perda de interesse do público", assume ao La Razón. Uma decisão difícil, que tomou sozinho e deixou muitos de boca aberta, muitos a protestar pela sua permanência.

"No ano passado, após a Feira del Pilar, disse à minha família e aos meus pais que em 2018 faria 25 temporadas em ativo e no final me despediria das arenas. Porque recebi do toureio mais do que alguma vez sonhei", explicou ao Farpas . E Lisboa tinha de estar entre as praças eleitas. "Criei laços muito profundos aqui, depois dos triunfos que obtive no Campo Pequeno. A forma como o público e a empresa me têm tratado tem sido espetacular", sublinha, agradecendo a oportunidade de cumprir um "desejo especial, pela categoria da praça e da sua afición, uma afición tão exigente quanto sensível, que me emociona e me apaixona pela sua entrega".

Parece injusto ou redutor que sejam as cornadas - os seus momentos de maior vulnerabilidade, os azares, os seus "percalços" - que o definem. Ou antes, que não se possa falar de Padilla sem as recordar, ao menos as mais graves. Mas são de facto esses os traços que mais se lhe colam à pele: não os incidentes em si mas a bravura com que depois de cada um deles continuou sempre a levantar-se e a enfrentar o toiro. Sem vacilar. De joelhos ou de pés vincados na areia. Dando as costas ao animal. Encostando a sua à cara do toiro, olhos nos olhos. Um respeito mútuo que se torna evidente na sua forma de o saudar, de o lidar - e nas reações do animal que lhe vai cedendo. Por vezes ganha o toiro; na maioria delas é de Padilla a vitória.

Para ele, a questão é simples: "glória e sofrimento estão lado a lado", disse em entrevista ao DN. "O medo sente-se antes, durante e depois [das lides], é teu companheiro. Mas são circunstâncias que não podes controlar. Não vais para uma praça a pensar que vai acontecer uma desgraça. Logicamente que vais sempre dar o máximo pela tua profissão."

Uma questão de família

Para os pais, a mulher ou os filhos talvez não seja tão simples assim. "Eles estão muito conscientes da minha profissão. Evidentemente que sofrem, mas sentem-se orgulhosos e são felizes por verem como desfruto da profissão." Padilla não tem dúvidas de que Lidia - por quem se apaixonou ainda crianças, levando-lhe pão e bolos a casa todos os dias (o pai tinha uma padaria), e com quem está casado há 23 anos - é a sua maior força. "Foi um apoio fundamental, incentivou-me sempre a continuar", disse ao Diez Minutos . "Nos momentos mais difíceis, ela soube manter o sangue-frio, da mesma forma como soube lidar com os êxitos. É uma mulher de uma força incrível."

Teve também apoio dos pais, mas houve evidentemente momentos em que vacilaram. Assume que várias vezes lhe pediram que deixasse de tourear - um dos irmãos fê-lo, quando Padilla sofreu a colhida grave em que perdeu o olho. Mas a sua vontade de superação, de dever para com o público e a profissão, foi sempre maior. Por pouco, o pai não assistia à sua saída pela Porta do Príncipe, em Sevilha, há dois anos. "Não queria ir ver-me nesse dia", conta ao La Razón.

Quanto aos filhos, sempre foram aficionados, Paloma, de 15 anos, ainda mais do que Martín, de 13 (e mais adepto de futebol do que de touradas), tendo desde pequena seguido o pai em muitas corridas. "Ela não queria que eu me despedisse", conta Padilla, que teve algum trabalho para convencer a filha de que chegara a hora de sair.

Ainda que reconheça a dor, o sacrifício e os "percalços" como parte da sua profissão, naturais, complementares dos momentos de glória, o lado de pai fala mais forte quando a pergunta é como reagiria se tivesse um filho toureiro, como ele. "Prefiro que sejam aficionados, não profissionais."

Depois do fim? "Sabe Deus"

Quanto a ele, ainda que não vacile na decisão que tomou, ainda sofre com ela. "Sinto-o quando termina uma corrida, um vazio e uma nostalgia por saber que não voltarei a tourear naquela praça."

Nascido em Jerez de la Frontera, a 23 de maio de 1973, Juan José Padilla nunca duvidou daquilo que era a sua vocação. "Desde pequeno que gosto do ambiente taurino, acompanhava sempre o meu pai e sempre soube que o toureiro tem dificuldades mas também tem glória. Percebi que a profissão não era fácil, mas tem essa grande compensação e eu fui recompensado pelo esforço, pela superação, pelo sacrifício." E se não fosse toureiro? "Seria padeiro, como o meu pai", respondeu ao La Razón .

Ao aproximar-se da hora da despedida, o matador que diz ter "o medo por companheiro" reconhece-se feliz e orgulhoso. "Nunca imaginei que poderia merecer tanto respeito e admiração da parte dos meus companheiros e de toda a sociedade", confidenciou ao Farpas, "e essa é a maior satisfação que podemos ter no momento da retirada". No quarto de século que viveu como matador, teve de todos os momentos que se imagina numa carreira longa e de muito risco, mas recheada de emoções. "Tive muitas bênçãos de Deus e digo-o porque estou convencido de que o sofrimento é parte da glória. Se é verdade que paguei com graves cornadas esse tributo, como aconteceu em Huesca, em Pamplona, em Valência e em Saragoça, também tive imensas bênçãos divinas como as saídas em ombros pela Porta do Príncipe (Sevilha), o indulto de um toiro na Praça México ou ser triunfador nas Sanfermines."

Assumidamente religioso, "e nada supersticioso", fala muitas vezes em Deus e procura-o antes de entrar na arena. Mas é com a mulher e os filhos a última conversa antes de uma lide, na videochamada que cumpre como ritual. Reza, traz ao peito as cruzes que o protegem, no pulso outras imagens (incluindo a Virgem de Rocío), escapulários, rosários. Tem fé de que está a cumprir o seu papel - e por isso faz sempre o melhor que sabe. "Um homem de fé não culpa Deus pelos percalços", afirma.

O que lhe está reservado a partir de 2019? Não sabe, mas isso não o inquieta. "Estarei sempre nas mãos de Deus. Agora estou concentrado naquilo que me compete, que é deixar a melhor das recordações em cada uma das arenas que piso. Deixo o futuro nas mãos de Deus. E sinto-me tranquilo com isso."

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