Da PGA à especulação imobiliária, uma vida com muito ativismo

Vereador do Bloco de Esquerda quis vender imóvel em Alfama. Não o fez, mas não evitou as críticas de ajudar à especulação imobiliária em Lisboa, exatamente um dos temas que mais critica.

Carlos Ferro
Ricardo Robles foi candidato à presidência da Câmara Municipal de Lisboa.

"Faz o que digo, mas não faças o que eu faço." Este ditado popular deve ter sido recordado por muita gente no Bloco de Esquerda, e talvez não só, durante esta sexta-feira quando se soube e começou a discutir a intenção do vereador da Câmara de Lisboa Ricardo Robles e da sua irmã de vender um edifício em Alfama.

O representante do BE na autarquia está no centro desta polémica por poder fazer uma mais-valia de 4,7 milhões entre a compra (e recuperação) e a venda do imóvel, num exemplo de um negócio que o Robles da campanha para as autárquicas de 2017 consideraria como pura especulação imobiliária.

Nesta sexta-feira, explicou durante o dia que o edifício já não está à venda, mas não disse quando foi tomada essa decisão. Apenas disse que o fez devido a questões familiares. Já ao final do dia, numa conferência de imprensa na sede do Bloco de Esquerda, anunciou que vai fazer uma compra em "propriedade horizontal". "Não venderei a minha parte do imóvel e colocarei as minhas frações no mercado de arrendamento", garantiu.

Foi a forma encontrada por este engenheiro civil nascido em Almada em 1977, e que no final do ano passado viabilizou o executivo do socialista Fernando Medina na Câmara Municipal de Lisboa, para tentar sair de um dia muito complicado em que foi alvo de pedidos de demissão e de acusações, principalmente nas redes sociais, de ter uma prática diferente do que defende como dirigente do Bloco e Esquerda.

E Robles não é um elemento qualquer do partido. É a vereador que possibilitou a continuação da liderança socialista na Câmara de Lisboa depois de uma negociação com o presidente da autarquia, Fernando Medina. Uma decisão que lhe tem garantido grande destaque mediático devido à suas intervenções nas áreas negociadas: a Educação e os Direitos Sociais. Saíram do seu gabinete propostas como o investimento de 5,3 milhões de euros na construção de creches na cidade - para criar 380 vagas -, os manuais escolares gratuitos, acabar com o uso de plástico descartável nas escolas ou a preocupação com a população de sem-abrigo existente na cidade.

Ricardo Robles não cometeu nenhuma ilegalidade ao querer vender um imóvel, mas durante esta sexta-feira não faltou quem recordasse posts nas redes sociais criticando a especulação imobiliária em Lisboa, recorrendo até a uma entrevista que deu ao Diário de Notícias em março deste ano em que frisou que "o problema da habitação tem-se vindo a agravar em Lisboa". "Os preços continuam a aumentar brutalmente e isto está a criar uma crise social. Encontrar casa, seja para arrendar seja para compra, apesar de o crédito para habitação estar mais acessível, continua proibitivo."

Entre as críticas publicadas durante o dia surgiu a recordação de um post publicado na rede social Twitter nesta quinta-feira (26 de julho). Nele, Ricardo Robles chamava a atenção para uma notícia do site Esquerda.net, do Bloco de Esquerda, onde se denunciava que os moradores do prédio Santos Lima estavam a ser alvo de "bullying e especulação imobiliária. Estamos do lado dos moradores". A notícia dizia que o edifício tinha sido comprado por dois milhões de euros e vendido 20 dias após a compra por sete milhões.

Esta questão da especulação imobiliária que se vive em Lisboa motivou mesmo ao longo dos meses várias tomadas de posição e apelos para se acabar com os despejos de inquilinos na cidade. Também por essa preocupação, Ricardo Robles explicou tanto no Facebook como no Twitter que quando comprou o imóvel situado na Rua Terreiro do Trigo existiam cinco contratos de arrendamento - um escritório, uma habitação e três lojas -, duas destas fações não estavam habitadas, dois inquilinos negociaram uma indemnização (um deles após ação em tribunal) e o quinto (um casal) quis ficar ali a viver e foi negociada uma renda de 170 euros mensais e um contrato válido por oito anos.

Um processo explicado e que o vereador lisboeta diz que nada tem de contraditório com as suas ideias e declarações públicas contra a forma como em Lisboa se tem gerido a questão da venda de edifícios e/ou a não renovação de contratos com inquilinos que moram em zonas históricas para que as suas casas sejam transformadas, por exemplo, em alojamento local.

Esta situação foi aproveitada pelo PSD de Lisboa para pedir a demissão de Ricardo Robles, alegando que existe uma manifesta "falta de ética, de seriedade e de credibilidade política para permanecer no cargo de vereador na cidade de Lisboa. Bem prega frei Tomás, faz o que diz e não o que ele faz". Os sociais-democratas aproveitam para dizer que o BE "manipula os eleitores e se proclama publicamente contra a especulação imobiliária, quando um dos seus principais eleitos faz negócios milionários à sua custa".

Ricardo Robles está assim no palco mediático e no meio de uma polémica que foi ganhando força durante o dia e que não parou com as suas explicações. Nem mesmo as que terá dado na autarquia ao garantir que não houve nenhum processo ilegal. O que é verdade.

Estar no centro de uma polémica ou contestação não é novidade para este engenheiro civil especialista em reabilitação e eficiência energética, curso que tirou no Instituto Superior Técnico entre 1995 e 2000. Do seu currículo académico consta ainda uma passagem pela Universidade Técnica na Dinamarca, em 2000, onde estudou Desenvolvimento Sustentável, um mestrado em Engenharia Civil (IST, 2007). Inscrito na Ordem dos Engenheiros, designa-se no seu currículo como perito qualificado reconhecido pela Agência para a Energia.

Tal como o presidente da Câmara de Lisboa, Ricardo Robles também não nasceu nesta cidade. Foi em Almada que Ricardo Amaral Robles nasceu, a 20 de maio de 1977, e viveu os primeiros seis anos de vida. Depois foi para a ilha de Santa Maria, nos Açores, onde o pai, que era militar, foi colocado. Aí viveu até aos 10 anos, altura em que regressou ao continente e foi viver novamente para a Margem Sul - no Seixal.

Nesta cidade viveu e estudou até ingressar no ensino superior e no Instituto Superior Técnico. E é nesta cidade também que surge uma das suas primeiras ações de contestação: os protestos contra a então chamada prova geral de acesso à universidade, então conhecida como PGA.

No IST foi dirigente da Associação de Estudantes (1999-2000), altura em que foi decidido acabar com as praxes académicas nesse instituto.

Já estava no IST quando participou numa candidatura autárquica - foi em 1997 e representou as Esquerdas Unidas (junção do PSR e do partido Política XXI).

Dois anos depois fez parte dos fundadores do Bloco de Esquerda (junto o Partido Socialista Revolucionário, Política XXI e a União Democrática Popular), sendo dirigente da organização concelhia de Lisboa desde 2005, tendo sido eleito deputado municipal em Lisboa em 2009, em regime de rotatividade.

Em 2013 foi eleito diretamente para a Assembleia Municipal de Lisboa e no final do ano passado conseguiu ser eleito pelo Bloco de Esquerda para a vereação da capital - numa campanha em que fez várias críticas à forma como o então, e atual, presidente liderava a autarquia. Após as eleições, um acordo com o BE permitiu que o PS continuasse a liderar a câmara, entregando a Ricardo Robles - o ativista que em 2001 esteve na contracimeira G8 em Génova (Itália), nos fóruns sociais europeus de Florença (2002) e de Istambul (2010) e no Fórum Social Mundial de Porto Alegre (2003) - os pelouros da Educação e dos Direitos Sociais.

Uma convivência que se mantinha tranquila até esta sexta-feira, o dia em que um imóvel e uma eventual mais-valia financeira de 4,7 milhões colocaram Ricardo Robles no centro de uma discussão sobre ética e moral.