Notícias de roubos no Ultramar

Além do costumeiro anúncio de que "suas Majestades e altezas assam sem novidade em suas importantes saúdes", a abrir o jornal, o DN deste dia dava conta de "nova afronta e nova espoliação" de territórios portugueses do Ultramar pelos ingleses

"Continuam a ser más as notícias da Guiné portuguesa", escrevia o DN neste dia 28 de agosto, do ano de 1868. Em causa estavam as afrontas e espoliações" cometidas por agentes da Grã Bretanha aos territórios ultramarinos.

"Depois da minha última correspondência, em que relatei o atentado cometido pelas autoridades inglesas na nossa colónia do Rio Grande, chegou já a notícia de nova espoliação praticada para connosco pelos representantes da Grã Bretanha", relatava o correspondente, que prosseguia descrevendo os eventos de 7 de julho, quando na Ponta de Cacheu esses invasores ergueram a bandeira britânica, deixando de guarda alguns militares.

"Esta espoliação é tanto mais revoltante que o português Barreto tinha comprado à sua custa aos gentios os terrenos da sua feitoria", conta o repórter, explicando que esse era o local de onde se exportava a maior quantidade de produtos. "O delegado do governo inglês trata de fazer concessões de terrenos pertencentes à feitoria portuguesa a súbditos britânicos, dizendo-lhes que podem ali estabelecer-se livremente 'porque o governo inglês não conhece portugueses no Rio Grande'."

A notícia destacava-se das demais com um tom de alarme, já que não era facto único - na verdade vinham sendo repetidos atos semelhantes, conforme concluía o repórter, que dava conta de mais um episódio na "invasão estrangeira do território da coroa portuguesa", da "espoliação do nossos domínios de além-mar" e da forma como era "vilipendiada e abatida a nossa bandeira".

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