Premium Rumo ao interior

Há já uns anos, a parte boa do destino distribuiu-me um novo rumo, cumprido sazonalmente, com muito mais prazer do que dever: Trás-os-Montes ou, se quiser aplicar maior rigor, Chaves e as suas "redondezas". Hoje, essa (pequena) fatia do tempo, livre e informal, tornou-se um desejo que só razões de força maior - e são tantas e tão inesperadas - conseguem impedir. Por motivos particulares que, para não se escorregar aqui para um desinteressante tom confessional e porventura egocêntrico, se podem resumir num ambiente familiar singular, no reencontro de pessoas e conversas acolhedoras e estimulantes, na redescoberta desse bem, muito precioso e igualmente escasso, que é o tempo "desorganizado", mais à mercê do impulso do que da contingência. Há, claro, as noites de esplanada, os apaziguadores banhos de rio (o Tuela, vizinho de Vinhais, ou o Rabaçal, próximo de Valpaços), sem multidões de formigueiro nem ruídos invasores, o petisco local (o arroz de fumeiro do Carvalho, o rim do Canjirão, os ossos da suã do Aprígio, a partir de agora também os milhos do Terra Quente, em Valpaços), as receitas caseiras, os passeios sem premeditação e com verdadeiros "descobrimentos", o recurso à cultura local (do Museu Nadir Afonso ao Parque Biológico de Vinhais). Aí, cada um terá as suas escalas e as suas escolhas.

Estes encontros transmontanos, praticados em regime de clã "aberto" a não iniciados, viabilizaram-me, de uma forma mais inteira e mais "inteligível", Miguel Torga. Durante anos, talvez demasiados, era autor de "exclusividade" paterna. Agora, já não: fez-me falta o contacto com o seu cenário, natural e humano, para lhe perceber a gravitas, para entender a densidade das personagens, até para poder acompanhar a sua inconfundível morfologia poética. Este mergulho geográfico ajudou a trazer-me de volta um outro escritor, aflorado em fase de juventude (quando tudo parecia mais urgente e mais definitivo) e depois desaparecido - com toda a injustiça - sob a poeira do esquecimento: António Modesto Navarro, doravante mais cercano nas escolhas.

Há, ainda assim, muito mais: estes contactos, mesmo que fugidios, trazem-me de volta a certeza do "país real", por contraste com as "ilusões" multiplicadas no Litoral, particularmente em Lisboa e no Porto. Às vezes, muitas vezes, a distância fornece, sem juros, novas perspectivas, outros parâmetros, diferentes critérios. E ajuda a construir uma verdade distinta daquela que deixamos que nos imponha o ritmo que, afinal, está longe de ser "estruturante" (para recorrer a uma expressão muito em voga) e acaba por confundir ou diluir a essência das coisas. Sem pretender renegar qualquer urbanidade, sem aspirar a tornar-me um "nativo" (nada corresponderia mais exactamente à hipocrisia, porque não "vivo", apenas "visito"), acabo quase sempre a debater-me com as linhas programáticas que tantos políticos apregoam como "indispensáveis" para que se consiga repovoar, dinamizar, reequilibrar o interior de um país inclinado para o mar. Tão depressa as enumeram como as esquecem, o que nos remete para a escoliose dramática de Portugal, que parece agravar-se a cada ano, até porque as segundas, terceiras e quartas gerações de emigrantes vão perdendo as ligações às terras que, na origem, lhes deram corpo e garantiram alma. E, se a demografia é um problema geral, torna-se quase trágica em zonas mais distantes da costa. Leva a pensar se, depois de tomarmos como regra a ideia de "o resto é paisagem", não estaremos a permitir que o "resto" se torne, e em breve, uma "natureza morta".

Ler mais

Exclusivos

Premium

Nuno Artur Silva

Notícias da frente da guerra

Passaram cem anos do fim da Primeira Guerra Mundial. Foi a data do Armistício assinado entre os Aliados e o Império Alemão e do cessar-fogo na Frente Ocidental. As hostilidades continuaram ainda em outras regiões. Duas décadas depois, começava a Segunda Guerra Mundial, "um conflito militar global (...) Marcado por um número significativo de ataques contra civis, incluindo o Holocausto e a única vez em que armas nucleares foram utilizadas em combate, foi o conflito mais letal da história da humanidade, resultando entre 50 e mais de 70 milhões de mortes" (Wikipédia).

Premium

nuno camarneiro

Uma aldeia no centro da cidade

Os vizinhos conhecem-se pelos nomes, cultivam hortas e jardins comunitários, trocam móveis a que já não dão uso, organizam almoços, jogos de futebol e até magustos, como aconteceu no sábado passado. Não estou a descrever uma aldeia do Minho ou da Beira Baixa, tampouco uma comunidade hippie perdida na serra da Lousã, tudo isto acontece em plena Lisboa, numa rua com escadinhas que pertence ao Bairro dos Anjos.

Premium

Rui Pedro Tendinha

O João. Outra vez, o João Salaviza...

Foi neste fim de semana. Um fim de semana em que o cinema português foi notícia e ninguém reparou. Entre ex-presidentes de futebol a serem presos e desmentidos de fake news, parece que a vitória de Chuva É Cantoria na Aldeia dos Mortos, de Renée Nader Messora e João Salaviza, no Festival do Rio, e o anúncio da nomeação de Diamantino, de Daniel Schmidt e Gabriel Abrantes, nos European Film Awards, não deixou o espaço mediático curioso.