Djibuti. Um livro que me deu a conhecer o "khat"

Mala de viagem (51). Um retrato muito pessoal do Djibuti.

O Djibuti localiza-se no nordeste de África, rodeado por alguns dos países mais instáveis deste território, como a Somália, a Etiópia e a Eritreia. Porém, o Djibuti é considerado um país seguro. Tem a maior base militar do exército dos Estados Unidos da América, em África, e serviços da Legião Estrangeira do exército francês. Acontece que o Djibuti é um daqueles países pequenos, mas com filhos que o engrandecem. O contacto permitiu-me conhecer melhor a obra de Abdourahman Waberi, que pertence à geração de autores africanos após a descolonização. Romancista, contista, ensaísta, poeta e professor de literatura francesa e francófona nos Estados Unidos, a sua escrita renovou a literatura africana. Um dos seus títulos, "Cahier nomade" (1996), consolidou a sua reputação literária, porque, composto por treze pequenos textos, é uma obra escrita a partir das lembranças do autor sobre a sua origem e a sua inquietude perante um "país inacabado": a nostalgia da pátria, a deriva social e política e, finalmente, o nomadismo. Abdourahman Waberi "caminha" pela paisagem do Djibuti, mas o escritor estava exilado em Caen (França), há cerca de dez anos, quando escreveu o livro, onde conta a história do pai, falecido em 1994 e a quem o livro é dedicado. A história é pungente. Evoca o falecido cantor e vendedor oficial de "khat". Mistura imagens de luto, de desespero e de nostalgia, em relação a uma felicidade perdida. O pai tornou-se num abastado comerciante desse arbusto, que é um estimulante se for consumido, embora seja uma substância controlada ou ilegal na maioria dos países, mas livre no Djibuti. As suas folhas frescas são mascadas ou, mais raramente, secas e consumidas em chá. O hábito de mascar "khat" é mais antigo do que o hábito de beber café, nesta parte de África. O consumo de "khat" no Djibuti afeta todos os grupos populacionais; é socialmente aceite, sendo os homens a maioria dos consumidores, embora o uso esteja a aumentar entre as mulheres e os jovens, talvez como uma busca pela emancipação ou para esquecer frustrações. O problema do consumo enquadra-se nas carências de um povo que tem de se socorrer deste excitante. O que o levará a fazer desta planta a principal transação nos mercados livres? As pequenas folhas verdes coriáceas começam a perder o seu efeito 24 horas após a colheita, por isso é grande o corrupio nas primeiras horas de mercado. Sem a renda do negócio de "khat", muitas famílias não conseguiriam sobreviver. Trata-se de uma dupla dependência para o povo do Djibuti. Este caso mostra quão necessária é a diversificação das economias dos países africanos mais pobres e, ao mesmo tempo, a aposta na educação. Nenhum povo deve ficar dependente economicamente de um só produto, mesmo que, momentaneamente, se sinta feliz. A criação de bovinos, ovinos, caprinos e camelinos e, no litoral, uma pequena atividade pesqueira fazem parte da economia do Djibuti. Porém, a principal atividade é a reexportação dos produtos de países africanos sem acesso ao mar, podendo tornar-se num "hub" regional logístico. Os produtos que transitam pelo Djibuti são o café, o sal, as peles, os legumes e os cereais. O país importa a maior parte dos bens de consumo e de produção: máquinas, veículos, alimentos, produtos têxteis e derivados de petróleo. Porém, o Djibuti tem paisagens naturais deslumbrantes, com extensos recursos geológicos e marinhos. A sua costa tem 324 quilómetros de extensão e saída para o mar Vermelho, atraindo amantes do mergulho. As ilhas de Mouska e Maskali têm praias paradisíacas e oferecem condições para a canoagem. Culturalmente, é um país etnicamente diversificado, devido à sua localização estratégica, que confere um estatuto de encruzilhada cultural, "um país de mistura e uma hospitalidade lendária, altamente tolerante, orgulhosa dos seus bravos ancestrais nómadas e confiante no seu destino", tal como é oficialmente promovido. Enfim, toda a criação autêntica é um dom para o futuro, digo eu. É que um povo que saiba salvaguardar e promover a sua cultura torna-se mais rico e feliz, sem que necessite de estupefacientes. A leitura da obra de Abdourahman Waberi será um bom começo.

Jorge Mangorrinha, professor universitário e pós-doutorado em turismo, faz um ensaio de memória através de fragmentos de viagem realizadas por ar, mar e terra e por olhares, leituras e conversas, entre o sonho que se fez realidade e a realidade que se fez sonho. Viagens fascinantes que são descritas pelo único português que até à data colocou em palavras imaginativas o que sente por todos os países do mundo. Uma série para ler aqui, na edição digital do DN.

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG