Costa Silva isolado no governo e no seu próprio ministério

Ex-ministra Alexandra Leitão, atual deputada do PS, assume "perplexidade" com o facto "bastante estranho" de o ministro da Economia ser desautorizado por seus secretários de Estado.

João Pedro Henriques

O ministro da Economia, António Costa Silva, voltou ontem a ser recordado que quem manda no Governo é o primeiro-ministro (PM), não lhe valendo de nada exprimir publicamente opiniões próprias. E o aviso veio do interior do próprio ministério da Economia. Rita Marques, secretária de Estado do Turismo, disse, numa entrevista à Lusa, que "estas matérias são discutidas de forma coletiva, em sede própria, no Conselho de Ministros". Ou seja: "O senhor primeiro-ministro há de ter a última palavra, aliás, tem a primeira, a última, sempre. E, portanto, cá estaremos para trabalhar em função das orientações que recebermos do senhor primeiro-ministro."

O que está em causa é o facto de o ministro ter defendido há cerca de uma semana, numa entrevista TSF/Jornal de Notícias, uma "redução transversal" do IRC. "Hoje, face à crise que temos, penso que seria extremamente benéfico termos essa redução transversal e, a partir daí, ver qual é o impacto que pode ter no futuro", disse o ministro.

"Dois dos três secretários de Estado do ministério da Economia terem vindo a público dizer o oposto do que disse o ministro, isto a mim faz-me muita confusão."

Desde então, foi desautorizado de várias formas e feitios. Rita Marques recordou-lhe ontem que a última palavra pertence mas um outro seu secretário de Estado, João Neves, secretário de Estado da Economia, já lhe tinha criticado a própria ideia de baixar o IRC: "Dizer que vamos agir em IRC para resolver um problema de curtíssimo prazo é um erro."

A desautorização ao ministro feita pelos seus próprios secretários de Estado - tendo ambos sido herdados por Costa Silva do seu antecessor, Pedro Siza Vieira - causou estranheza em algumas pessoas do PS.

"Não me parece adequado nesta fase em que decorrem negociações com os parceiros sociais estar a antecipar esta ou aquela posição sobre esta ou aquela matéria concreta."

A ex-ministra Alexandra Leitão, agora deputada, verbalizou essa estranheza este fim de semana no programa de debate que tem todas as semanas com José Pacheco Pereira e António Lobo Xavier, "Princípio da incerteza", na TVI.

"Dois dos três secretários de Estado do ministério da Economia terem vindo a público dizer o oposto do que disse o ministro, isto a mim faz-me muita confusão", afirmou, falando mesmo em "perplexidade". Isto - acrescentou - "não é uma coisa que seja bem tolerada" (secretários de Estado a desautorizarem os seus ministros). É portanto algo "francamente estranho", ou seja, não se inscreve dentro do que é "normal", ainda para mais em vésperas de apresentação do Orçamento do Estado, que é existirem "diferentes opiniões em função do setor que cada ministro tutela".

Medina abriu a porta

O primeiro governante a tirar o tapete ao ministro da Economia foi o ministro das Finanças, Fernando Medina. Falando na semana passada à margem de um congresso de contabilistas, Medina remeteu para negociações que estão a decorrer na Concertação Social. "Não me parece adequado nesta fase em que decorrem negociações com os parceiros sociais estar a antecipar esta ou aquela posição sobre esta ou aquela matéria concreta", afirmou - mas não sem antes recordar que "o Governo tem uma voz" que é "definida coletivamente" e que "a voz que é o primeiro-ministro".

joao.p.henriques@dn.pt