Kavanaugh entre mulheres: as acusadoras, as senadoras e a interrogadora

Candidato de Donald Trump ao Supremo Tribunal vai enfrentar nesta quinta-feira, na Comissão Judicial do Senado, uma das três mulheres que o acusam de abusos sexuais. Acusações que ele nega, esperando que se repita a história de 1991.

Há três mulheres que o acusam de abuso sexual, quatro na comissão que tem o seu futuro como juiz do Supremo Tribunal dos EUA nas mãos e será uma mulher que o irá interrogar, assim como confrontar aquela que foi a sua primeira acusadora. Mas apesar de parecer que são as mulheres que têm o futuro de Brett Kavanaugh nas mãos, a decisão final caberá a um Senado em que elas são só 23 em cem senadores.

O candidato de Donald Trump ao cargo de juiz do Supremo Tribunal vai enfrentar hoje as acusações na Comissão Judicial do Senado, que ouve uma das suas acusadoras: Christine Blasey Ford. Mas já são três as mulheres que o acusam. Ele nega todas as acusações e o próprio Trump saiu em sua defesa.

Hoje, Kavanaugh deverá admitir (segundo um testemunho escrito entregue nesta quarta-feira à comissão judicial) que "não era perfeito" na escola secundária, dizendo que por vezes bebia demasiada cerveja com os amigos - "eu disse e fiz coisas no secundário que agora me deixam embaraçado" -, mas negará veementemente as acusações. Segundo o juiz, estas são, "pura e simplesmente", tentativas de última hora de manchar a sua reputação.

Numa entrevista à Fox News, na segunda-feira, Kavanaugh negou alguma vez ter agredido sexualmente alguém e foi mais longe dizendo que era virgem. "Nunca tive relações sexuais ou algo parecido a relações sexuais no secundário e durante muitos anos depois", afirmou, levando os críticos a lembrar que podia fazer aquilo de que é acusado sem perder a virgindade.

Já Trump escreveu no Twitter que os democratas estão fazer um jogo sujo num "esforço perverso" para destruir uma "excelente pessoa". O presidente norte-americano fala numa "política de destruição", dizendo que nos bastidores os democratas estão a rir-se. "Rezem pelo Brett Kavanaugh e pela sua família", acrescentou.

A comissão deverá votar sobre que parecer dar em relação à confirmação de Kavanaugh logo na sexta-feira, seguindo-se depois, numa data a confirmar, a votação no Senado: onde os republicanos têm uma frágil maioria de 51 para 49. Trump e os republicanos quiseram que este processo fosse acelerado, para garantir que acontece antes das eleições intercalares de 5 de novembro, onde os republicanos arriscam perder a maioria.

Christine Blasey Ford, a primeira a denunciar

A professora de Psicologia da Universidade de Palo Alto (Califórnia) foi a primeira a denunciar Kavanaugh, numa carta que enviou a uma senadora (pedindo para ficar no anonimato) e mais tarde, dando a cara, num artigo no The Washington Post . Será o seu testemunho que os senadores da comissão judicial vão ouvir nesta quinta-feira. Isto depois de ter feito tudo para tentar manter o anonimato.

Ford, de 51 anos, vai contar como Kavanaugh alegadamente a empurrou para um quarto no primeiro andar de uma casa em Montgomery County durante uma festa, em 1982, quando ambos estavam no secundário (em escolas privadas diferentes). Segundo Ford, o agora juiz - que estava "trôpego de bêbado" - empurrou-a para a cama, apalpou-a e tentou retirar-lhe a roupa. Quanto ela tentou gritar, ele tapou-lhe a boca com a mão.

"Pensei que poderia sem querer matar-me. Estava a tentar atacar-me e retirar-me a roupa", disse ao The Washington Post, contando que escapou porque um amigo de Kavanaugh - Mark Judge, que estava no quarto a rir - saltou para cima deles, atirando todos para o chão.

Ford apresentou quatro testemunhos que corroboram a sua denúncia, de pessoas a quem contou a história só a partir de 2012 - revelando o nome de Kavanaugh, ainda antes de este ser nomeado por Trump para o Supremo Tribunal. O caso surgiu, por exemplo, durante terapia de casal que fez com o marido, Russell Ford, naquele ano - já lhe tinha contado, no início da relação, que tinha sido vítima de abuso.

O The Washington Post teve acesso às notas da terapeuta, que não menciona o nome do atacante, mas refere que ele era um "membro muito respeitado da sociedade em Washington". O marido diz que ela referiu o nome e temia que Kavanaugh, então um juiz federal, pudesse um dia ser nomeado para o Supremo.

Para os republicanos que defendem Kavanaugh, a história é vaga e não ajuda o facto de Ford ser democrata e ter contratado uma advogada e ativista democrata para a ajudar, questionando a veracidade das acusações. Ford já recebeu ameaças de morte.

Deborah Ramírez, a colega de Yale

A segunda acusação a vir a público, num artigo na revista The New Yorker do passado domingo , foi a de Deborah Ramírez, que estudou Sociologia e Psicologia na Universidade de Yale ao mesmo tempo que Kavanaugh estudava Direito. O incidente terá ocorrido quando ele era caloiro, no ano letivo de 1983-1984.

Ramírez, de 53 anos, mostrou-se inicialmente relutante em falar - indicando que havia falhas na sua memória e que tinha bebido na altura do incidente. Mas depois confirmou que se lembrava de Kavanaugh, durante uma festa no dormitório, ter exposto e encostado o pénis no rosto dela, obrigando-a a tocar nele sem consentimento quando o empurrou.

À revista, diz que ficou abalada com o caso, já que tinha sido educada como católica. "Não ia tocar num pénis até estar casada", afirmou. "Estava embaraçada, envergonhada e humilhada", referiu, dizendo que estava embriagada na altura do incidente. Disse lembrar-se de ver Kavanaugh, que tinha então 18 anos, a puxar para cima as calças e de alguém ter gritado o que ele tinha feito, usando o nome dele.

Ramírez, que entretanto pediu para o FBI investigar o caso, mostrou-se disponível para testemunhar também perante a Comissão Judicial do Senado.

Julie Swetnick, a terceira acusação

Numa declaração de honra tornada ontem pública pelo seu advogado, Julie Swetnick acusa Kavanaugh de ter pertencido a um grupo de rapazes que tentavam embriagar ou drogar raparigas para abusar delas. E diz ter sido ela própria vítima de uma violação coletiva, numa festa em que o atual candidato ao Supremo Tribunal estava "presente", por volta de 1982.

Swetnick diz que participou em cerca de uma dezena de festas na região de Washington entre 1981 e 1982 onde estava também Kavanaugh e um dos amigos, Mark Judge (já referido por Ford e que publicou um livro sobre os seus problemas de alcoolismo na adolescência e na juventude). "Por várias vezes, nessas festas, vi Mark Judge e Brett Kavanaugh a beber de maneira excessiva e a ter um comportamento totalmente inapropriado, nomeadamente tornando-se agressivos com as raparigas", acusando-os de "acariciar e apalpá-las sem consentimento".

"Tenho memória dos rapazes alinhados no lado de fora dos quartos nessa noite, à espera da sua vez com a rapariga no interior", referiu, alegando que eles procuravam que elas ficassem bêbedas para as poderem violar. E admitiu que foi vítima de uma dessas violações coletivas em 1982, numa festa em que tanto Kavanaugh como Judge estavam. A declaração foi entregue à comissão.

Quatro mulheres (democratas) na comissão

A Comissão Judicial do Senado tem 21 membros, 11 deles republicanos e só quatro mulheres (todas democratas): a californiana Dianne Feinstein (líder da minoria na comissão, por ser a que está lá há mais tempo), Amy Klobuchar (Minnesota), Mazie Hirono (Havai) e Kamala Harris (Califórnia).

Foi a Dianne Feinstein que Ford enviou uma carta a denunciar os abusos que alegadamente sofreu da parte de Kavanaugh, pedindo-lhe para ficar no anonimato - algo que esta cumpriu, tendo, contudo, passado a informação ao FBI.

Mas quem se tem destacado entre as quatro é Mazie Hirono, de 70 anos, que está no primeiro mandato mas todos acreditam conseguirá a reeleição em novembro. Apesar de até agora não ter uma presença a nível nacional, é conhecida em Washington pelos comentários fortes. Não só apelidou Trump de "misógino", "predador sexual" e "mentiroso" num vídeo na CNN, como exortou os homens a "calar a boca e passarem à ação" após as denúncias contra o juiz.

"Eu acredito nela", indicou sobre Ford numa entrevista ao The New York Times , com a The New Yorker a apelidá-la de "âncora moral" das audiências a Kavanaugh (alterando depois o título do artigo).

A senadora, que nasceu no Japão (é a única imigrante no Senado, vivendo desde os 4 anos no Havai, terra natal da mãe, que era filha de japoneses), é defensora do movimento #MeeToo, que surgiu há menos de um ano após o caso do produtor de Hollywood Harvey Weinstein. Hirono defende que este não pode ser esquecido e que é por isso que, desde janeiro, tem feito sempre duas perguntas a todos os nomeados para juiz federal que passaram pela comissão, sobre se alguma vez, enquanto adultos, estiveram envolvidos em agressões sexuais ou se pediram favores sexuais.

Antes de começarem a vir a público as denúncias contra Kavanaugh, ela fez-lhe precisamente essas perguntas, na primeira parte da sua audiência de confirmação: "Desde que é adulto, alguma vez fez pedidos indesejados de favores sexuais ou cometeu assédio verbal ou físico ou agressão de natureza sexual?" e "Você já alguma vez entrou em qualquer acordo relacionado com este tipo de conduta?" O juiz respondeu, sob juramento, que não a ambas as perguntas - se, por acaso, se vierem a comprovar as acusações de Ramírez, terá cometido perjúrio na primeira.

Na entrevista ao The New York Times, disse que irá perguntar a Kavanaugh sobre o seu comportamento durante a escola secundária, lembrando que a audiência não é um procedimento criminal, mas uma entrevista de emprego, para alguém que terá um emprego para a vida e o poder de tomar decisões que vão ter um impacto na vida das pessoas durante décadas.

Anita Hill, a história que se repete?

Em 1991, Anita Hill também denunciou outro candidato nomeado por um republicano (George H. W. Bush) para o Supremo Tribunal por assédio sexual no local de trabalho (quando trabalhou para o Departamento de Educação) e testemunhou diante da Comissão Judicial do Senado (todos homens, três dos quais ainda estão na comissão atual). Hill já disse que a audiência "não pode ser justa".

Clarence Thomas, o homem que acusou em 1991, é um dos atuais juízes do Supremo, tendo sido confirmado com 52 votos contra 48.

No dia em que foi testemunhar, Hill (professora de Direito) foi recebida com protestos, com os manifestantes a acusá-la de mentir. Thomas, nas suas declarações iniciais, negou todas as acusações, dizendo sob juramento que não conseguia imaginar que alguma coisa que tivesse dito a Hill pudesse alguma vez ser confundida com abuso sexual.

Quando foi chamada a testemunhar, Hill relatou uma série de episódios em que Thomas a convidou para encontros, se gabou das suas proezas sexuais e, apesar do seu desconforto óbvio e de ter dito que não queria que ele continuasse a falar desses temas, lhe falou sobre filmes pornográficos nos quais as mulheres se envolviam em atos sexuais com animais. "Senti que implícita na discussão sobre atos sexuais estava a oferta para ter sexo com ele", disse, segundo o artigo original publicado então pela agência Associated Press.

Questionado sobre porque é que não tinha denunciado o caso na altura (tinha acontecido há uma década), Hill disse que temia pela sua carreira caso o tivesse feito.

Na altura, outras mulheres vieram a público falar do comportamento pouco profissional de Thomas (que ele lhes tinha perguntado o tamanho do soutienou aparecido no seu apartamento sem ser convidado), que não consideraram não assédio sexual mas simplesmente um comportamento desagradável.

Thomas foi depois chamado a falar e rejeitou as acusações, dizendo que não iria continuar a ser humilhado pelo comité nem iria tornar pública a sua vida privada. "Não vou dar a corda para o meu próprio linchamento ou para mais humilhações", afirmou. "Confirmem-me se quiserem. Não me confirmem se acharem que é melhor. Mas deixem este processo acabar."

Quatro dias depois, e tendo o comité optado por não recomendar nem um voto a favor nem um voto contra Thomas, este foi confirmado no Senado. E tomaria posse a 23 de outubro de 1991.

A audiência em que Hill testemunhou foi transmitida em direito pela televisão e seguida com grande interesse, havendo quem alegue que este levou a que, no ano seguinte, muitas mulheres liberais tivessem sido eleitas para o Congresso - na altura, nem havia uma casa de banho feminina próxima do Senado. 1992 ficou conhecido como "ano da mulher", quando seis foram eleitas para o Senado. Entre elas, Dianne Feinstein, agora uma das mulheres no comité. Outras 24 foram eleitas para a Câmara dos Representantes e, hoje, há 23 no Senado norte-americano (em cem) e 107 entre os 535 membros da câmara.

Uma mulher à frente do interrogatório

Em 1991, o interrogatório a Anita Hill foi considerado agressivo e, para não repetir o erro, os republicanos no comité (todos homens) decidiram que não farão questões diretamente a Ford, sendo esta interrogada pela procuradora Rachel Mitchell, do Arizona, especialista em crimes sexuais. Será também ela a interrogar Kavanaugh.

"Contratámos uma mulher para fazer as perguntas de forma respeitosa e profissional", disse o líder da maioria do Senado, Mitch McConnell. A procuradora está atualmente de licença do cargo de responsável pela Divisão Especial de Vítimas, que processa crimes de violência sexual e doméstica.

Numa entrevista de 2012, Mitchell disse que as jovens vítimas muitas vezes não denunciam o que lhes aconteceu (o que vai contra aquilo que o próprio Trump alegou, de que se o ataque tivesse sido assim tão mau, então Ford teria apresentado queixa de imediato). "As pessoas acham que as crianças diriam logo e que diriam tudo o que lhes aconteceu. Na realidade, as crianças mantêm muitas vezes o segredo durante anos", afirmou.

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