Por 20 centavos

Fernando Haddad, se ganhar a eleição, será o último ator a juntar-se a um dos períodos mais ricos da história da Brasil, que vem merecendo teses, livros, documentários, filmes e séries e que já conta, aconteça o que acontecer nos dias 7 e 28 de outubro, com Jair Bolsonaro no elenco. Antes deles, Dilma Rousseff, Aécio Neves, Michel Temer, Eduardo Cunha, Lula da Silva e Sergio Moro foram protagonistas.

Se hoje o Brasil se vê entre um de dois caminhos, a chegada ao Planalto da extrema-direita ou o regresso a Brasília do partido que viu uma presidente ser derrubada há dois anos e o seu líder histórico preso há seis meses, é tempo de nos perguntarmos como e quando afinal tudo isto começou.

Em períodos férteis da história, os acontecimentos sucedem-se uns aos outros, aparentemente sem se conseguir definir o que é causa e o que é efeito. O que é princípio, meio e fim. Quando é que afinal, como na teoria do caos, a borboleta bateu as asas.

Será que foi no dia em que o até então deputado de segunda linha Bolsonaro acordou e sentiu que era chegada a hora de levar a votação o seu ideário extremista?

Terá sido quando, ao assinar o mandado de prisão de Lula da Silva, o juiz Sergio Moro transformou um ex-político à beira da reforma num mártir à escala mundial, capaz de eleger quem bem entender?

Foi quando Michel Temer, despeitado por Dilma Rousseff o tratar, segundo o próprio, como "figura decorativa", se uniu ao presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha, despeitado, entretanto, por ela ter demitido boys seus de uma estatal, e cozinhou um impeachment traumático?

Ou foi, quando algures na passagem do primeiro para o segundo governos de Dilma, uma tempestade económica perfeita se abateu sobre o país?

E teríamos, porventura, chegado a este ponto caso o intermediário vigarista Alberto Yousseff e o burocrata corrupto Paulo Roberto Costa, os delatores originais, não tivessem contado o que contaram aos procuradores da Lava-Jato, atingindo centenas de políticos de primeiro escalão?

Se, por outro lado, Aécio Neves não tivesse sucumbido à amargura de perder a eleição presidencial para Dilma e aceitado arrastar o PSDB para a lama do governo Temer, será que o seu partido, moderado e republicano por tradição, não estaria agora a voltar, serenamente, ao poder?

Ou será que a origem de tudo está lá, ainda mais atrás, naqueles protestos extraordinários em 483 cidades, durante a Taça das Confederações de futebol de 2013, que tomaram os noticiários de todo o mundo?

Foi nessa ocasião que os brasileiros reaprenderam a manifestar-se. E foi nessa ocasião que se politizaram como não se via desde, pelo menos, o movimento Diretas Já, a meio dos anos 1980.

O povo saiu à rua com uma agenda tão difusa de reivindicações que ninguém percebia muito bem, nem os próprios manifestantes, qual era. Mas estavam lá cartazes contra a corrupção, que em última análise teria resposta no ano seguinte com o início da Lava-Jato; pelo fim do governo PT, que deu origem às manifestações pró-impeachment de dois anos depois; e até a favor do regresso da ditadura militar, talvez a semente do que se veio a revelar o bolsonarismo.

E esses protestos de 2013 nasceram, convém lembrar, de um banal, tão banal como o bater das asas de uma borboleta, aumento de 20 centavos de real (uns quatro cêntimos em euros) da tarifa de autocarro na cidade de São Paulo. Um aumento instituído pelo então recém-eleito prefeito, um tal de Fernando Haddad, que, afinal, pode não ser o último a juntar-se ao elenco mas ter sido o primeiro protagonista deste período tão rico da história do Brasil.

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