A guerra das máscaras: Biden reaparece a usar uma e Trump critica-o

O candidato democrata, que não era visto em público desde março, usou uma máscara preta numa homenagem aos veteranos durante o Memorial Day. Trump continua a rejeitar ser visto com uma em público.

"Isto pode ajudar a explicar porque é que Trump não gosta de usar uma máscara em público. Biden hoje." A mensagem foi escrita no Twitter pelo jornalista da Fox News Brit Hume e a acompanhá-la aparecia uma foto do ex-vice-presidente e quase certo candidato democrata às presidenciais de novembro a usar uma máscara preta junto com uns óculos escuros de estilo aviador. Resultado: quase que não se reconhece Joe Biden. A mensagem foi partilhada depois pelo presidente Donald Trump cuja aversão ao uso de máscara por causa do novo coronavírus é conhecida.

Depois de inicialmente ter alegado que o uso de máscaras não era necessário nem protegia do covid-19, o Centro para a Prevenção e Controlo de Doenças (CDC, na sigla em inglês) decidiu no início de abril recomendar que todas as pessoas usem uma em público para ajudar a travar a propagação da doença. Mas, desde logo, o presidente norte-americano deixou claro o que pensava: "Acho que não vou usar. Usar uma máscara facial quando recebo presidentes, primeiros-ministros, ditadores, reis, rainha... não vejo isso."

Na semana passada, Trump foi finalmente fotografado a usar uma máscara, durante uma visita à fábrica da Ford, mas usou-a apenas nos bastidores, retirando-a antes de enfrentar as câmaras e os jornalistas.

O presidente alega que como é testado várias vezes, tendo dado sempre negativo, não precisa usar a máscara. Esta é vista não como uma proteção para o próprio, mas para evitar que quem tem a doença mas não apresenta sintomas possa contagiar mais alguém. Usamos a máscara para proteger os outros, não propriamente para nos protegermos a nós.

"Passar a mensagem errada"

Mas, segundo a agência AP, Trump alega que usar máscara em público iria "passar a mensagem errada", mostrando que estaria mais preocupado com a saúde em vez de estar focado em reabria a economia dos EUA - algo que é considerado chave para a sua reeleição em novembro. Além disso, Trump receia parecer ridículo a usar uma máscara e que a imagem possa aparecer depois em anúncios de campanha de teor negativo.

Como o que está a fazer a Joe Biden. O ex-vice-presidente, junto com a mulher Jill Biden, usaram a máscara preta no Memorial Day - assim como os seus seguranças e outros funcionários que o acompanharam. Foi a primeira vez que o candidato democrata à Casa Branca foi visto em público desde 15 de março, do último debate contra o antigo rival Bernie Sanders. Desde então, o político de 77 anos só saía de casa em Wilmington, no Delaware, para fazer caminhadas ou andar de bicicleta.

Toda a campanha tem sido feita de dentro de casa, participando em encontros por videoconferência ou em entrevistas, com Biden a dizer que mesmo aí usa máscara. "Não a tenho usado para ir ao supermercado nem a lado nenhum, mas há membros dos Serviços Secretos pela casa e quando vou falar com eles eu ponha-a, fui aconselhado a fazer isso por uma questão precaução por excesso. E se saísse de casa ia usá-la", disse à NBC News, no princípio de abril, dizendo "ouvir a ciência, porque a ciência importa".

"Tantas destas coisas podiam ter sido prevenidas se tivéssemos um presidente que ouvisse alguém que não ele", escreveu Joe Biden no Twitter esta terça-feira (26 de maio).

67% dizem que Trump devia usar

Uma sondagem da Universidade de Quinnipiac, de 20 de maio, revelou que 67% dos eleitores acreditam que Trump devia usar uma máscara quando está em público, contra 27% que acham que não devia usar. Sem surpresa, são os democratas e os independentes que defendem mais que ele a devia usar, ao contrário dos republicanos. Questionados sobre se toda a gente devia usar uma máscara, 64% dizem que sim e 33% dizem que não. Na mesma sondagem, Biden surge 11 pontos percentuais à frente de Trump em relação às eleições de novembro.

"Usar uma máscara é para os liberais presunçosos. Recusar é para os republicanos imprudentes", escreveu o site Politico no início de maio. "Para os progressistas, as máscaras tornaram-se um símbolo de que levam a pandemia a sério e estão dispostos a fazer um sacrifício pessoal para salvar vidas. Pessoas proeminentes que não as usam são humilhadas e alvo das contas de esquerda no Twitter. À direita, onde as máscaras são muitas vezes vistas como um símbolo de uma suposta reação exagerada ao coronavírus, a promoção das máscaras é alvo de ridículo, um sinal de que numa América profundamente polarizada, quase tudo pode ser politizado e transformado num símbolo de afiliação tribal", lê-se no texto.

Um artigo que saiu antes de haver um surto de covid-19 na própria Casa Branca, que envolveu uma assessora do vice-presidente Mike Pence (que já foi visto sem e com máscara) e de terem sido emitidas normas para os funcionários de que deviam usar máscara, exceto se estivessem à secretária e com a devida distância de qualquer colega.

Na revista conservadora The Federalist, não é de estranhar que a tese é a de que o presidente não deve usar máscara: "Uma imagem de Donald Trump a usar uma máscara facial enquanto está a desempenhar a sua função, atrás da mesa Resolute ou na sala de briefings da Casa Branca seria uma imagem abrasadora de fraqueza. Seria um sinal de que os EUA são tão impotentes contra este inimigo invisível que veio da China que até o seu presidente se tem que esconder atrás de uma máscara. Isso não pode simplesmente acontecer."

Biden e a outra pandemia

Mas Trump não atacou apenas Biden por causa da máscara. No Twitter, o presidente alegou que "a forma como o Joe Biden lidou com a H1N1 foi um desastre total e completo. Até as sondagens sobre o tema foram terríveis".

Durante a pandemia de 2009 de H1N1, que matou 12 469 pessoas, Biden era vice-presidente de Barack Obama. O ex-presidente indicou que Biden o ajudou a gerir o surto, mas como o Politico escreveu, nem tudo correu bem e só foi controlada por sorte. Começando logo pelo momento em que Biden disse que não aconselhava a família a viajar de avião ou andar de metro, quando Obama procurava acalmar a situação.

"É pura sorte que este não seja um dos eventos de mortes em massa da história da América", disse o ex-chefe de gabinete de Biden, em 2019, sobre a pandemia do H1N1. "Não teve nada a ver com termos feito algo certo. Foi apenas sorte", referiu.

A pandemia de coronavírus já infetou mais de 1,7 milhões de norte-americanos e matou quase cem mil pessoas.

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