"As casas da Bauhaus em Telavive eram modestas, agora são para ricos"

Yigal Gawze. Arquiteto e fotógrafo israelita, natural de Telavive, começou em 1993 a registar a brancura dos edifícios da sua cidade que pertencem ao movimento arquitetónico centenário. Estão expostas no MAAT.

Quente e banhada pelo Mediterrâneo, Telavive, é, fora da Alemanha, a cidade que reúne o maior número de exemplares da arquitetura da Bauhaus - a escola de arquitetura e design que celebra neste ano o seu centenário. À velocidade das complicações políticas que nos anos 30 se começaram a viver na Alemanha, imigrantes europeus chegam à cidade, nascida em 1909.

Com os novos habitantes, cresce a procura de edifícios residenciais e entram em cena os arquitetos que aqui encontram o local perfeito para testar as suas ideias. Levam-nas um passo mais à frente, adaptando as regras de Walter Gropius, o fundador da escola de Dessau.

Foi essa cidade que, movido pela surpresa, o israelita Yigal Gawze, um arquiteto que se tornou fotógrafo, começou a descobrir no início dos anos 90, após o restauro. Em busca do seu lado poético, começou a captar as fachadas dos edifícios concebidos por arquitetos como Emanuel Halbrecht, Abraham Markusfeld, Salomon Gepstein, Josef e Ze"ev Berlin ou Ben-Ami Shulman.

A série chamou-se Fragments of Style (fragmentos de estilo) e é também uma exposição - Form and Light - que se pode ver até 2 de setembro no MAAT - Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia. Nas 28 fotografias selecionadas, o artista procurou captar os traços que mostram a adaptação única ao lugar que hoje os novos arquitetos começam a querer recuperar.

Quando nasceu o seu interesse pela arquitetura da Bauhaus em Telavive, a sua cidade natal?
Eu vivia em Paris em 1993, estudava Fotografia. Fazia reportagem sobre design, arquitetura e lifestyle. Comecei nessa altura, como fotógrafo, a descobrir esta arquitetura, que originalmente é dos anos 30 e que, com o passar dos anos, foi sendo negligenciada. Nos anos 90 começaram a restaurar estes edifícios e foi quando iniciei este projeto, porque, de repente, começámos a ver as fachadas brancas a sobressaírem. Tudo o resto era cinzento e estava a desfazer-se, mas havia, aqui e ali, uma fachada branca. Claro que o que é interessante na cidade de Telavive é como a Bauhaus - o funcionalismo, o minimalismo - foi adaptada às condições locais.

Como foi a adaptação a essas condições locais de Telavive?
A Bauhaus foi importada da Europa e, em Telavive, num clima completamente diferente, a maior preocupação da arquitetura era proteger o espaço residencial do calor, da luz direta do Sol. É por isso que temos este tipo de varandas muito estreitas em que vemos o Sol bater na fachada, mas que ficam na sombra. Abrem-se para a sala de estar e este elemento funcional criou uma estética muito especial. Elas existem por uma razão funcional, mas também existe uma linguagem estética - por causa do volume e da interação entre as partes iluminadas e as partes na sombra. Ficou muito mais vívido e tridimensional. Há uma plasticidade do lado de fora, nos detalhes das escadas. Por exemplo, na balaustrada das escadas do prédio dos Jacobson usa-se a letra "J". A arquitetura da Bauhaus é sempre funcional, mas, indo para lá desse aspeto, cria algo belo. Outro exemplo, a forma arredondada é muito popular em Telavive.

Todos os edifícios são do início do século XX?
Os edifícios fotografados são de 1931 a 1947 - é este o período mais forte. Quando, por causa da situação política, os arquitetos se mudaram para Telavive, houve imigração e necessidade de construir habitação. A maioria dos edifícios Bauhaus em Telavive são arquitetura residencial. A maioria dos edifícios foram encomendados e construídos por imigrantes que vieram da Europa. É iniciativa privada, sob o mandato britânico. Não era uma grande organização a fazer edifícios para as pessoas, eram as pessoas a construírem para si mesmas. A maioria dos arquitetos veio da Europa e trouxe uma cultura europeia, mas adaptada ao lugar.

Que aspetos ressaltam desta arquitetura?
Falamos sobretudo da curva, o cubo e a articulação cúbica. Muito frequentemente, a varanda que sobressai. Por vezes é cúbica, frequentemente é curva. Também ressalta tipicamente o elemento vertical unificador - as escadas, por exemplo. Mas também janelas das escadas ao longo da fachada, por vezes de forma mais escultural. É um elemento que também faz uma sombra. As linhas direitas também são muito comuns. Como a simplicidade. Também acontece misturarem varandas cúbicas numa rua e outras curvas na outra rua.

O título da exposição é autoexplicativo: Form and Light (Forma e Luz). São as mais importantes características desta arquitetura. Mas nunca tinha reparado nestes edifícios?
Tinha, tinha. Nasci em Telavive e vivia rodeado deles, mas a verdade é que a maioria não eram reconhecíveis. Só para especialistas. Mas, depois, em 1984, houve uma exposição no Museu de Telavive sobre a arquitetura da Bauhaus e mostraram fotografias destes edifícios no seu estado original, dos anos 30. E muita gente, eu incluído, olhámos para as fotografias e dissemos: "Não os temos em Telavive!" Percebemos que existiam, que era algo excelente e algum tempo depois comecei a interessar-me mais por eles.

O seu interesse era como fotógrafo?
Nessa altura, era um interesse profissional porque eu estudava Arquitetura em Toronto. Voltei para Israel e trabalhei como arquiteto durante vários anos e depois fui para Paris estudar Fotografia.

Sabe, portanto, o que deve captar.
Sei, mas estou a tentar fazê-lo de uma forma mais poética e menos documental. Este não é um trabalho documental, porque num projeto desse género é preciso mostrar todo o edifício. Algumas imagens aproximam-se da fotografia de arquitetura, porque vemos o contexto e todo o edifício, que muitas pessoas gostam de ver inteiro, mas estou mais interessado no fragmento - como Fragments of Style [o nome desta série de fotografias].

As suas fotografias são de 1993. Dez anos depois, a Unesco colocou a cidade na lista de Património Mundial.
Em 2004, já estavam a usar estas imagens para promover a cidade, mas a primeira exposição das fotografias aconteceu apenas em 2005 quando celebravam a designação da UNESCO. Esta é a décima vez que a mostro. 2009 foi um ano agitado. Foi o ano em que a cidade, nascida em 1909, fez cem anos.

Como é que receber a distinção da UNESCO mudou a relação das pessoas de Telavive com a cidade?
Acho que, lentamente, as pessoas aprenderam a apreciar esta arquitetura. É uma questão cultural e algumas pessoas sempre souberam da sua existência, mas agora há mais apreço. E há a história do mercado imobiliário - o valor destas casas. Elas tornaram-se muito populares entre algumas pessoas, gente da arte. Eram casas modestas, agora são para os ricos.

São edifícios muito modernos, que sobreviveram muito bem à passagem do tempo. Fazem parte do interesse que gera a cidade de Telavive?
Os edifícios são dos anos 30. Telavive é como Lisboa, que está a ficar um destino desejado. A cidade tornou-se um destino forte para os jovens que vêm passar o fim de semana, em voos baratos. Adoram a praia, a comida, os clubes. Os últimos anos têm sido incríveis. É uma combinação de cultura, localização e cena musical.

Se voltasse a estes locais, as casas estariam diferentes?
A maioria das fotografias foram tiradas depois do restauro, quando retiravam os andaimes. Neste momento, começamos a ver nas paredes as marcas do uso.

Como é que os outros edifícios de Telavive são influenciados por esta arquitetura?
Houve um período de estranha arquitetura, mas agora muitos arquitetos estão a voltar à essência da simplicidade. Têm uma interpretação da Bauhaus, mas há uma reapreciação desta corrente. Estão a voltar a algo mais simples e elegância.

Vive num destes edifícios?
Não, não. Mas nasci num hospital que era da Bauhaus. Um dos melhores! E uma exceção entre os edifícios, por ser público. Também foi restaurado recentemente.

É um trabalho sentimental, da sua parte?
Desde o início, foi mais do que uma curiosidade. É emocional. Estes edifícios falaram comigo sobre simplicidade e elegância. Também por serem muito diferentes do que existe hoje. O resultado é alguma nostalgia, que me leva de volta à infância. Depois, em criança eu não entendia de arquitetura, mas conhecia as pessoas e agora faço as ligações e é mais emocional. Fico impressionado 26 anos depois [risos].

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG