Armas e mamas e livre-arbítrio

É possível uma série de TV fazer aquilo que os livros e filmes faziam mas melhor? Ou já chegámos ao ponto em que as opiniões sobre séries são agora consistentemente melhores do que o material do qual são adaptadas: as próprias séries?

O trailer promocional da terceira temporada de Westworld (HBO) estreou-se nesta semana, porque essa é uma das coisas que agora acontecem aos trailers de terceiras temporadas de uma série de televisão: estreiam-se. A estreia não implicou o aluguer de uma sala, passadeiras vermelhas ou estrelas a posar para fotógrafos; apenas um vídeo de três minutos posto a circular na internet, para que esta se divertisse. O trailer é perfeitamente satisfatório: é provável que sejam os três minutos mais satisfatórios da série inteira. Poucas horas depois, a satisfação atingiu um volume suficiente para permitir ao site da Esquire publicar uma notícia com o título "O trailer da terceira temporada de Westworld já deu origem a algumas teorias mirabolantes dos fãs". O artigo resumia as teorias e, pela experiência das duas temporadas anteriores, é possível arriscar com alguma confiança que algumas delas adivinham exactamente aquilo que vai acontecer, enquanto outras são apenas muito mais interessantes do que aquilo que vai acontecer.

Não é só na forma como incentiva a manufactura de "teorias mirabolantes" e fica sistematicamente aquém delas que Westworld é um produto paradigmático da era de ouro da televisão (que cada vez mais se assemelha a uma era de ouro do espectador); é também na convicção de que a "inteligência" e a "sofisticação" de uma série são demonstradas pela capacidade de apelar ao espírito do adepto de palavras cruzadas, em que cada adereço é uma pista, e cada deixa é um enigma, e é preciso um estado de alerta constante para adivinhar quem é quem, e onde estamos, e quando estamos, e qual é o significado metafórico desta pianola, ou desta citação, ou desta escolha musical.

Westworld é mais uma das possíveis consequências de que Lost foi causa. Se Lost era a "série-mistério" aos 17 anos - enérgica, entusiasmada, ainda sem saber muito bem o que era nem o que queria -, Westworld é Lost aos 18 e meio: depois de passar o primeiro semestre na universidade, onde descobriu sexo, ganza e versos de Shakespeare, e de onde regressou vestido de preto, com uma tatuagem simbólica no pulso e com opiniões sobre a humanidade, para se sentar à mesa durante o almoço de Natal e explicar aos pais que agora é agnóstico.

Claro que Westworld não acredita que seja apenas isto, e a espaços comporta-se como se acreditasse ser o tipo de ficção que oferece recompensas muito mais profundas à intensidade de escrutínio e dedicação. Noutras alturas comporta-se de outras maneiras. Tanto finge ser uma história, como um enigma, como um jogo. "História", "enigma" e "jogo" são os três termos alternadamente usados por uma das personagens para se referir ao que vai acontecendo.

O Homem de Negro acha que o parque temático onde a acção decorre está prestes a esgotar as suas possibilidades narrativas. "Todo este mundo é uma história. Já li todas as páginas menos a última. Preciso de saber como acaba. Quero saber o que tudo significa." É um apelo quase tão estridente para o lermos enquanto metacomentário como quando outro dos visitantes do parque diz ao seu companheiro: "Achas que só vais encontrar aqui armas e mamas e toda a merda de que eu costumo gostar, mas não fazes ideia."

A ideia de uma série de televisão consciente dos seus próprios mecanismos e capaz de os explorar e subverter é uma ideia tão apelativa que não é minimamente surpreendente que tanta gente tenha preferido acreditar nessa ideia em vez daquilo que estavam a ver: um crucigrama com bom aspecto que custou 200 milhões de dólares a fazer.

Desde o início, Westworld atraiu interpretações generosas: de que era uma metáfora para a escravatura, ou para a guerra de classes, ou para a maneira como interagimos com jogos de computador, ou para a importância do trauma na formação da identidade, ou - a mais apelativa de todas - para o próprio processo de ver séries de televisão: aquilo que queremos delas, e aquilo que julgamos querer.

Críticos profissionais (como Emily Nussbaum na The New Yorker) e amadores (em centenas de sub-reddits e milhares de tweets) insistiram em ver nesta série de televisão importante uma metáfora deliberada para a "série de televisão importante": o género recente que se especializou no acto de equilibrismo entre titilar os apetites primários do espectador (com a promessa de violência, sexo e enigmas), ao mesmo tempo que os convence de que estão perante algo muito mais sofisticado do que armas e mamas, e que, se estiverem dispostos a perder 23 horas, vão perdê-las da forma mais prestigiante possível.

Nenhuma das teorias sobre West world é desinteressante. Todas são, aliás, mais interessantes do que aquilo que Westworld faz com elas. A sua única característica verdadeiramente original é ter criado um universo fictício estruturado por álibis permanentes para qualquer delinquência narrativa, seja ela voluntária ou acidental. Nada pode afectar substancialmente coisa nenhuma, porque tudo o que acontece é vulnerável a revisão posterior.

Esta situação que julgamos ter acontecido agora? Na verdade aconteceu antes (ou será que aconteceu?). Esta pessoa que julgamos ter morrido? Na verdade não morreu; na verdade nem sequer é pessoa (ou será que é?). Este diálogo que parece estúpido? Na verdade foi programado para ser estúpido (ou será que foi?). Estas duas pessoas? Na verdade são uma. Este motivo de interesse? Na verdade é zero.

No meio do caos, vamos ouvindo discursos portentosos sobre a importância da memória ou a natureza do livre-arbítrio: manuais de instruções temáticos entregues à benevolente literacia de quem vê. A série, para todos os efeitos, limita-se a depositar os elementos aos nossos pés, dizendo "está aqui o material, agora façam o que sabem". E honra nos seja feita, somos todos muito bons a fazer o que nos pedem.

Durante muito tempo, a conversa-padrão sobre adaptações para formatos distintos (uma conversa raramente interessante depois da primeira vez que se ouve) interrogava se era possível um filme ser "melhor" do que o livro que lhe deu origem. Uma conversa análoga surgiu nos últimos anos, cuja pergunta tácita será qualquer coisa como "é possível uma série de televisão fazer aquilo que os filmes e livros faziam, mas melhor do que eles faziam?" (e cujo interesse é ainda menor). Uma pergunta alternativa é se chegámos ao ponto em que as opiniões sobre séries são agora consistentemente melhores do que o material do qual são adaptadas: as próprias séries.

O crowdsourcing de análise, à escala a que é feito, transformou-se numa insólita delegação de competências. Os espectadores de Westworld são muito mais espertos do que Westworld, cuja esperteza se resume a reconhecer que não tem incentivos (artísticos ou económicos) para arriscar a exploração sólida e coerente de um punhado de ideias, quando um gesto vago na direcção de dez ou quinze ideias é suficiente. A série não é "complexa"; mas sabe que é feita para alguns milhões de pessoas já mais do que treinadas para reconhecer os semáforos de complexidade e a fazer o resto do trabalho - nomeadamente declarar tudo aquilo que não tem qualquer interesse ou não faz qualquer sentido como um "tema", apenas porque coincide com algumas frases soltas de personagens ao puro nível vocabular.

A partir daí a criatividade fica por nossa conta, e é uma área na qual produzimos resultados cada vez mais meritórios: tábulas rasas febrilmente anotadas com as nossas projecções mais magnânimas, inventando artefactos culturais cuja qualidade só se manifesta quando não estamos a olhar para eles. Estamos todos de parabéns.

Escreve de acordo com a antiga ortografia

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