A Vénus do Parnaso

O reinado de Kiki terminara, e com ele morrera a Paris das loucuras e dos artistas boémios. A crise de 1929 dera-lhes o golpe final.

Hoje árido e pedregoso, o monte Parnaso já foi terra de muita festança. Diz a mitologia grega que, em épocas muito antigas, servia de local de encontros furtivos entre as gentis musas, as ninfas das águas e certas divindades menores, mas atrevidas. Talvez seja lei do destino ou mera coincidência histórica, mas na Paris do nosso tempo também houve, e há, um monte Parnaso, pois é dele que deriva o nome do bairro de Montparnasse, onde durante décadas desaguaram igualmente ninfas belas e musas gentis, para gáudio e inspiração de afortunados deuses.

Uma delas, a maior de todas, chamava-se Kiki. De baptismo, se é que o teve, levava o nome mais prosaico de Alice, Alice Ernestine Prin. Vira a luz na bela Borgonha, em Châtillon-sur-Seine, ao virar do século. "Nasci em 2 de Outubro de 1901 na Borgonha... éramos seis pequenos filhos do amor: os nossos senhores pais esqueceram-se de se conhecer", dirá nas suas memórias, escritas na flor da idade. Filha ilegítima, Alice foi criada pela avó em condições deploráveis. Aos 12 anos, foi para Paris ter com a mãe, que aí trabalhava aos comandos de um linótipo, numa tipografia esconsa. A Sra. Prin, porém, não tardou muito em tirar a filha da escola e em pô-la como aprendiza de um ofício: em menos de um ano, a moça fez de tudo, desde vender flores na rua a lavar garrafas para os armazenistas Félix Potin, passando por um mester misterioso, aparafusadora de asas de aeroplanos. Em 1917, deu entrada como criada para todo o serviço numa padaria da Place Saint-Georges, ao 8.º bairro, mas consta que aí foi maltratada pela patroa, que lhe pagava mal e a insultava com nomes muito feios pelo simples facto de Alice, já então bela e vaidosa, ter o hábito de realçar as sobrancelhas com pedaços de carvão tirados do forno. Por um acaso do destino, tropeçou num escultor idoso e lúbrico que lhe pediu que posasse para ele. Alice, ainda pudica, resistiu um pouco, mas acabou por tornar-se modelo, para fúria de sua mãe. Ao saber que a filha posava nua para os homens, a Sra. Prin irrompeu um dia no estúdio de um deles, em plena sessão artística, e fez um escândalo dos grandes, declarando aos gritos que ela não era mais sua filha, que não passava de uma reles puta, e outras coisas assim do piorio que Alice relata sem pudor nas suas cruas memórias. A ruptura materna, contudo, seria sentida como uma libertação, e então começou a fulgurante e meteórica carreira de Kiki de Montparnasse.

Para o gosto da época, que não o nosso, Alice era senhora de uma beleza e de umas formas tidas por deslumbrantes: olhos negros e fundos, um sorriso trocista, o corpo carnudo e roliço, branco como a cal. No auge da glória, usava franjinha e cabelo à garçonne, os lábios pintados de vermelho-vivo, os olhos maquilhados com kohl, uma mistela cosmética oriunda dos antigos egípcios e dos povos da Pérsia. Mas, acima de tudo, o que lhe deu bastante fama e algum proveito foi a sua atitude confiante e desinibida, com laivos de exibicionismo, hoje vista como precursora do feminismo e da liberdade sexual das mulheres. Kiki andava desenvolta pelas ruas de Paris com um agasalho e sem nada por baixo, nua da cabeça aos pés. Sem ter residência fixa nem profissão estabelecida, proclamava aos sete ventos que nunca iria ter problemas na vida. "Tudo o que preciso é de uma cebola, de um bocado de pão e de uma garrafa de tinto, e terei sempre quem mos ofereça", dizia, numa jactância que derivava da sua juventude e da sua beleza, sem dúvida, mas que correspondia igualmente ao esprit du temps da Paris boémia dos anos 1920, que através da festa e do excesso procurava esquecer os traumas de uma guerra horrível, terminada há pouco.

Foi aí, em Paris, nas faldas do Parnaso, que se construiu a lenda de Kiki, maior do que a dos mitos gregos. Chamavam-lhe "rainha de Montparnasse", tantas foram as histórias tecidas em seu redor, muitas delas escabrosas. Kiki gostava de escandalizar e o seu alvo predilecto eram os turistas e os curiosos que já então invadiam o bairro em busca de novidades picantes. Sempre que via uma excursão de burgueses pacatos, acercava-se do grupo, perguntava "posso fazer alguma coisa por estes senhores?", e levantava as saias, exibindo as nádegas. Mas também há histórias algo diferentes, até comoventes. Conta-se que um dia entrou no café La Rotonde uma jovem rapariga aos prantos. Era pobre, miserável, o filhinho morrera, não tinha sequer como pagar o funeral. Sem dizer palavra, Kiki dirigiu-se ao restaurante adjacente, onde só podiam entrar senhoras de chapéu, e percorreu as mesas em peditório erótico: levantava as saias, exibia o sexo, solicitava "dois ou três francos pelo espectáculo". Quando regressou, tinha uma mão-cheia de moedas, deu-as à rapariga para pagar o enterro do filho e disse-lhe para comprar um vestido com o que sobrasse.

Kiki foi modelo, musa e amante de vários pintores de fama - Soutine, Mendjizki, Modigliani, Foujita, Moïse Kisling - e teve uma relação prolongada com Man Ray, que a conheceu não muito depois de chegar a Paris, em Julho de 1921. Kiki foi ao seu estúdio para uma sessão fotográfica, tornaram-se amantes nessa mesma tarde, ele deslumbrado pelo corpo da musa ("da cabeça aos pés, irrepreensível"), ela divertida pelo sotaque do americano e pelo seu ar misterioso. Ray ficava incomodado com o modo como ela o olhava, dizia-lhe no seu mau francês "Kiki, ne me regarde pas comme ça. Vous me trouble", mas fê-la modelo de algumas das suas fotografias mais célebres. A mais famosa, Le Violon d'Ingres, foi publicada na revista Littérature em Junho de 1924. Ela está sentada, de turbante na cabeça, tal como as personagens de dois quadros de Ingres, La Baigneuse Valpinçon e Le Bain Turc. As costas nuas exibem os ouvidos de um violino, pintados a tinta-da-china, numa alusão à expressão francesa que chama "violino de Ingres" ao passatempo favorito de alguém. Segundo afirmam os especialistas, Man Ray procurou dizer-nos que a fotografia era o seu passatempo predilecto ou, num registo mais misógino, que as mulheres - e aquela mulher, em particular - eram a sua distracção de eleição. Talvez Kiki tenha sido um joguete nas mãos de Man Ray (e de outros homens), mas o certo é que foi graças a ele que conheceu e conviveu de perto com nomes cimeiros do dadaísmo, como Tristan Tzara e Francis Picabia, e do surrealismo, como Louis Aragon, André Breton, Paul Éluard ou Philippe Soupault. Curiosamente, não aceitou de imediato ser retratada por Ray, por desdém ao excessivo realismo da arte fotográfica, em contaste com a imaginação e a inventividade da pintura. Foi necessário Man Ray dizer-lhe que fotografava sempre como um pintor, transformando profundamente os sujeitos retratados, para a convencer a posar para ele. Havia, além disso, uma razão menos confessável, mas poderosa: por um acaso da natureza, Kiki tinha poucos ou nenhuns pêlos púbicos, e envergonhava-se disso; na pintura, podia disfarçar-se a lacuna, na fotografia não. Vencido este obstáculo, a modelo acedeu então a posar para Man Ray, que a retratou diversas vezes, como em Noire et Blanche, saída em 1926 nas páginas da Vogue, em que o rosto oval de Kiki repousa serenamente ao lado de uma máscara africana. Ray estava subjugado pela sua beleza ("a oval perfeita do rosto, os olhos bem separados, o longo pescoço, o peito alto e firme, a figura delicada") e, ao contrário do que por vezes se diz, não foi ele que a trocou pela modelo e fotógrafa Lee Miller; foi Kiki que o abandonou, deixando-o devastado.

Depois de Man Ray, outros se seguiram. Em 1929, tornou-se amante do jornalista Henri Broca, fundador da revista Paris-Montparnasse, onde foram publicados os primeiros capítulos das suas escandalosas memórias, que Kiki escreveu antes sequer de completar 30 anos. O livro saiu em 1929, com prefácios de Tsugouharu Foujita, seu pintor, amante e amigo de sempre, e de Ernest Hemingway, que provavelmente também foi seu amante e que exaltou "o seu corpo esplendidamente belo", dizendo que "Kiki dominou a época de Montparnasse muito mais do que a rainha Vitória dominara a época dita vitoriana". Contudo, e como observava Hemingway, o reinado de Kiki terminara, e com ele morrera a Paris das loucuras e dos artistas boémios. A crise de 1929 dera-lhes o golpe final.

Entretanto, além de posar para pintores e escultores (Alexander Calder, por exemplo), Kiki fez uma incursão pelo cinema, onde participou em oito filmes, alguns dos quais assinados por Man Ray ou por René Clair. Mais tarde, chega a tentar a sorte na América, desloca-se aos estúdios da Paramount em Nova Iorque, mas não a contratam para qualquer papel. Tendo começado a desenhar por graça os soldados ingleses e americanos que frequentavam o La Rotonde, tornou-se pintora de algum sucesso e expôs em galerias prestigiadas, mas foi como artista de variedades e nos espectáculos de cabaré que Kiki de Montparnasse se destacou, dando voz a cançonetas marotas, como Les Trois Orfèvres ou Les Filles de Camaret, que abre com as palavras "Les filles de Camaret se disent toutes vierges...", sendo o resto da letra um desmentido impiedoso da virgindade das meninas de Camaret.

Como é frequente, o final foi triste. A Sra. Prin e Henri Broca adoecem, são internados, Kiki tem de trabalhar mais e mais para os sustentar, pagando as despesas hospitalares da mãe, que a desprezara na juventude. Afunda-se no álcool, não come, emagrece a olhos vistos, mas a imprensa continua a tratá-la jocosamente, como nos velhos tempos, dizendo que fizera uma dieta e que conseguira passar dos 80 para os 50 quilos. Em busca do êxito que lhe fugia em Paris, faz tournées pela província; numa delas, é detida pela polícia, sob suspeita de prostituição, e, quando diz aos agentes que era famosa na capital e que tinha lá conhecimentos poderosos, estes riem-se na sua cara. O seu novo amante, o pianista e acordeonista de cabaré André Laroque, tentou salvá-la do vício da droga, sem êxito, e registou por escrito as suas novas memórias, que só verão a luz do dia muitos anos depois, em 2005. Durante a guerra e a ocupação, Kiki de Montparnasse mostra de novo a sua garra: colabora com a Resistência, distribui propaganda clandestina, tem de fugir da Gestapo, refugia-se na Borgonha natal. Será detida em 1945, não por razões políticas ou sob suspeita de colaboracionismo, mas por tráfico de estupefacientes.

Aos 50 anos, a antiga rainha de Montparnasse era uma sombra do passado. Obesa, com o ventre enorme, adoecia com frequência, acabou internada no Hospital Laënnec de Paris. Após uma breve agonia, morreu de hemorragia interna em 23 de Março de 1953, sendo sepultada no cemitério de Thiais. Nas ruas por onde passou o cortejo fúnebre, e num misto de homenagem sincera e de publicidade oportunista, foram colocados anúncios dos locais onde reinara: La Coupole, Le Dôme, Le Jockey, La Jungle, muitos mais. Nas exéquias fúnebres, apenas um nome conhecido, o pintor Foujita. Um dos seus locais de eleição, o cabaré L"Oasis, seria efemeramente rebaptizado Chez Kiki, e Kiki de Montparnasse é hoje o nome de uma marca de roupas, mas tudo isso pertence a um tempo que já não é o seu. Agora, como diz a canção, les lilas sont morts.
Há quem diga, talvez por machismo, talvez por inveja, que para certas mulheres a beleza é uma tragédia. Possivelmente, foi esse o caso de Alice Prin, a fugaz rainha de Montparnasse que nasceu e morreu na miséria. Mas, sem a beleza, Alice não seria Kiki nem o Parnaso seria o Parnaso, e até Paris não seria Paris, tal como a conhecemos e amamos tanto. E toda a vida, a nossa e a dela, seria menos bela e, portanto, mais infeliz ainda. Merci, Kiki.

Historiador. Escreve de acordo com a antiga ortografia.

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