Premium Que efeito tem a exposição contínua a imagens de tragédia?

Os incêndios e a destruição na Grécia, o colapso da barragem no Laos, o resgate dos 12 jovens presos numa gruta na Tailândia, a violência do Médio Oriente. Todos os dias, durante horas a fio, somos bombardeados com imagens de tragédia. De que forma esta sobrexposição afeta as nossas emoções? Corremos o risco de nos tornar indiferentes à guerra e à destruição? Os especialistas respondem.

Seja através da televisão, do telemóvel ou dos jornais, as imagens de guerra, devastação e terror surgem diariamente. Do Médio Oriente, a morte, a violência, a guerra interminável.

Quase em direto, durante 17 dias, o mundo acompanhou um grupo de jovens e um adulto presos numa gruta na Tailândia. Do Laos, chegam imagens de casas submersas enquanto os media relatam informam, vezes sem conta, das centenas de desaparecidos, após o colapso de uma barragem.

Na Europa, casas destruídas, terrenos e carros ardidos e uma escalada do número de mortes (que ao fecho desta edição chegava às 85 vítimas) dos incêndios que afetaram a região grega de Ática, perto de Atenas.

As tragédias passaram a ter voz, som, imagens e comentários. De que forma é que estes episódios nos perturbam e qual a melhor forma de lidar com eles? A frequência deste tipo de situações torna-nos mais indiferentes?

O psicólogo clínico e psicoterapeuta António Norton considera que há uma clara distinção entre «pessoas que já viveram situações semelhantes, a que chamamos de testemunhas ativas» e as restantes, que não têm qualquer experiência traumatizante.

Caso já tenha vivido um episódio parecido, como por exemplo uma vítima do incêndio de Pedrógão visualizar agora as imagens da devastação dos incêndios na Grécia, há «um elevado risco de retraumatização», tendo em conta que esta «é uma população delicada».

«Estas imagens, que são também acompanhadas de informação auditiva, tornam tudo muito real. E a vivência direta desta experiência pode possibilitar o risco de pensamentos relativos a tudo o que aconteceu». Daí, explica o psicólogo clínico, podem surgir «flashbacks, momentos de ansiedade, novos receios, entre outros».

No caso das pessoas que não tiveram qualquer experiência direta com as imagens que veem, António Norton afirma que há um género de filtro interno que distancia e protege a pessoa em causa.

«Todos os dias somos inundados com imagens violentas e chocantes. Todos estes cenários são vistos com um filtro que acaba por nos proteger. Para uma pessoa que não tem qualquer trauma, é mais fácil porque não vê o seu presente ameaçado».

O psicólogo Vítor Rodrigues também não tem dúvidas que as imagens que surgem de tragédia, guerra ou de catástrofe provocam reações nas pessoas. «O nosso sistema emocional funciona através de sons e sensações, portanto é muito normal que essas imagens provoquem reações».

Em relação à semelhança com aquilo que se viveu em Portugal no verão de 2017, o especialista lembra que há a possibilidade de quem viveu de perto a tragédia de Pedrógão, bem como os incêndios de outubro, «reviver os traumas e sentir-se inseguro e instável».

Questionado sobre se o contacto regular com este género de imagens nos torna indiferentes aos acontecimentos, Vítor Rodrigues esclarece que pode haver duas situações distintas. «Por um lado, pode tornar-nos indiferente», porque já assistimos a estes conteúdos demasiadas vezes, «mas, por outro, ficamos também muito mais ansiosos, com medo dos atentados ou das explosões» que nos habituámos a ver.

«Os órgãos de comunicação social têm também muita culpa», na medida em que repetem as imagens e as notícias até à exaustão, «e esquecem-se de que há muitas coisas boas a acontecer todos os dias no mundo e que não são notícia», sublinha o psicólogo.

«As crianças não podem ver esse tipo de imagens»

Em relação à visualização destas imagens por parte das crianças, António Norton alerta para o facto de estas serem, por vezes, traumatizantes e de os mais novos não conseguirem distinguir o certo do errado.

«As crianças têm ainda um pensamento mágico e ganham medo de algumas coisas - como do ladrão ou do escuro - sem visualizarem nada. Imagine se vissem imagens de violência» como as que surgem na televisão. «Podem surgir terrores noturnos ou dificuldade em adormecer nestas situações», acrescenta o especialista da Oficina da Psicologia.

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João Gobern

País com poetas

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