Premium Emmanuel Macron e as faíscas

Há eletricidade no ar no que diz respeito a Emmanuel Macron. O presidente da República Francesa estará hoje durante todo o dia em Lisboa, a convite de António Costa, chefe do governo português. Trata-se de uma cimeira sobre interconexões energéticas e para a qual foi também convidado Pedro Sánchez, o novo primeiro-ministro espanhol. Uma reunião muito importante, uma vez que os representantes da Comissão Europeia e do Banco Europeu de Investimento também marcarão presença.

O assunto é de facto importante: trata-se de fazer circular a eletricidade entre o sul da Europa e o norte, permitindo que importadores e exportadores de energia beneficiem das trocas. Embora o sistema de interligação seja considerado bastante satisfatório entre Portugal e Espanha, está longe de ser 100% operacional entre a Espanha e a França.

A capacidade de interconexão elétrica (INELFE) entre os dois países atualmente é limitada a 2,8 gigawatts, com a França até agora a beneficiar da conectividade com o Reino Unido, a Alemanha e a Suíça. Mas Macron fez da questão da transição energética - a aceleração das energias renováveis ​​e o declínio da energia nuclear - uma das prioridades do seu mandato. Tendo sido aliás uma promessa eleitoral.

Ao receber Pedro Sánchez em Paris, em junho passado, Emmanuel Macron enfatizou a necessidade de relançar o diálogo sobre essas questões, a única maneira de atingir a meta de 50% de renováveis ​​em 2020, como quer a União Europeia. Depois de ter sido interrompido, o diálogo França-Espanha (e consequentemente Portugal) recomeçou e no final de 2017 um novo projeto para uma linha de energia subterrânea entre a Aquitânia e o norte da Espanha nasceu.

Satisfeita, a União Europeia decidiu desbloquear 578 milhões de euros para ajudar a financiar o ambicioso projeto. Um impulso que vem pôr a crepitar novamente as relações franco-espanholas. O esfriamento dessas relações estava, em parte, ligado à questão da interconexão do gás, o projeto MIDCAT, no qual o comissário europeu espanhol Miguel Arias Cañete, que tinha um grande aliado em Mariano Rajoy, estava muito empenhado.

Mas a saída precipitada deste último de chefe do governo espanhol mudou o panorama. O seu sucessor, Pedro Sánchez, tem uma sensibilidade mais "verde", fazendo dele um aliado interessante para Emmanuel Macron. O presidente francês também tem que fazer esquecer o "desprezo" (a bofetada?) recebido de Donald Trump, que decidiu tirar os EUA do Acordo de Paris sobre o Clima.

Será a cimeira de Lisboa uma oportunidade para Emmanuel Macron dar um novo ímpeto à sua estratégia energética, quando a espinhosa questão da desintegração nuclear está longe de estar resolvida? Portugal, um dos poucos países que não possuem centrais nucleares, aposta no desenvolvimento das energias renováveis ​​e é considerado um dos bons alunos da Europa neste campo. A França está no canto oposto, no grupo de maus alunos.

A chegada a Lisboa do presidente da República Francesa ocorre enquanto o chefe do Estado francês está sob o crepitar das máquinas fotográficas por causa do caso Benalla. Guarda-costas do presidente, Benalla é acusado de ter beneficiado da proteção presidencial após ter cometido atos de violência contra manifestantes e usurpado a função de policial. Um caso que se transformou num enorme escândalo em França e sobre o qual o presidente Macron demorou vários dias a reagir.

Só na terça-feira, dia 24, afirmou perante os deputados do seu partido que assumia a responsabilidade pelas ações do seu ex-segurança. "Não se pode ser líder quando tudo corre bem e subtrair-se quando o tempo está difícil", disse o presidente francês com algum brio. Mas será isso suficiente para acalmar a oposição furiosa, para tranquilizar a maioria presidencial desorientada e sossegar a opinião pública que está atordoada?

Macron, que deve participar num encontro de cidadãos com António Costa na sexta-feira de manhã e num debate para pensar a União Europeia, terá de tentar restabelecer algumas conexões. A atmosfera adivinha-se eletrizante.

Artigo publicado numa parceria com a Associação da Imprensa Estrangeira em Portugal

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João Gobern

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