Ciro Gomes: "Bolsonaro é um presidente incompetente, despreparado e corrupto"

Pré-candidato às eleições presidenciais do Brasil, em 2022, acredita que à quarta tentativa vencerá. Defende um processo de impeachment contra Jair Bolsonaro, "por ele já ter cometido quase todos os crimes de responsabilidade previstos na lei".

João Almeida Moreira

Ciro Gomes classifica de "incompetente, despreparado e reconhecidamente corrupto" Jair Bolsonaro, a quem visa suceder em 2022 na presidência da República do Brasil. Assumidamente pré-candidato, como reafirma em entrevista por e-mail ao DN, dribla a hipótese de participar numa "frente ampla de esquerda", e diz preferir liderar "uma candidatura viável" que inclua "o centro democrático".

É pelo centro que Ciro, 63 anos, terceiro classificado nos sufrágios de 1998 e 2018 e quarto no de 2002, acredita poder chegar ao Palácio do Planalto à quarta tentativa. Os indícios são auspiciosos: está entre os seis políticos de maior popularidade digital do Brasil, segundo a consultoria Quaest, e só foi menos citado do que Jair Bolsonaro e o ex-ministro Sérgio Moro em sondagem da XP/Ipespe a propósito das eleições de 2022.

Defende um impeachment do presidente Bolsonaro ou acha que, depois do de Dilma Rousseff, há cinco anos, seria demasiado traumático para a democracia brasileira repetir todo o processo?
Sim, defendo o impeachment de Bolsonaro. Explico as razões: Bolsonaro é um presidente incompetente, despreparado e reconhecidamente corrupto. São inúmeras as ligações dele e da sua família com desvio de recursos públicos e com as milícias do Rio de Janeiro. Mas só isso, segundo a Constituição brasileira, não bastaria para ele sofrer o processo de impeachment. Ele teria que ter cometido crimes de responsabilidade durante o seu mandato. E ele já cometeu quase todos os previstos na lei, como obstrução da justiça; aparelhamento da Polícia Federal; interferência no COAF [Conselho de Controle de Atividades Financeiras]; uso da Abin [Agência Brasileira de Inteligência] para interesses de seus filhos; confraternização com grupos que pedem o fecho das instituições da democracia; além de expor a comunidade brasileira ao genocídio em função de como administra a pandemia. Infelizmente a democracia no Brasil tem sido violentada em toda a sua história. O impeachment contra a ex-presidente Dilma foi um golpe, uma vez que, apesar de seu governo ter sido desastroso para o país, ela não tinha cometido crimes de responsabilidade.

Como avalia a condução do governo na pandemia?
Seguramente uma das piores do mundo. Bolsonaro cercou-se de generais traidores da pátria e conduziu a pandemia de forma negacionista e incentivando o povo a aglomerar-se, a não usar máscaras e prescrevendo remédios sem comprovação científica. O resultado: mais de 210 mil mortos, o maior número de profissionais da saúde mortos com covid por falta de equipamentos de proteção. Atuou contra a vacina, e, para piorar, o seu preconceito criminoso contra a China, por exemplo, dificulta ao Brasil adquirir vacinas para imunizar o povo.

Bolsonaro gabou-se, nos últimos dias, de o governo dele não ter casos de corrupção. Acha, pelo trajeto dele (e da família), que ele pode carregar essa bandeira anticorrupção?
É mais uma das mentiras propagadas por Bolsonaro. Interferir na Polícia Federal para proteger familiares e amigos de investigação é corrupção, como ele fez de forma despudorada e pública. Como parte da roubalheira descarada, o Banco do Brasil vendeu a preços muito baixos uma carteira de crédito para um banco privado fundado por Paulo Guedes, ministro da Economia; o BNDES [banco estatal de desenvolvimento] vendeu os seus ativos a preços baixíssimos; o governo fatiou a Petrobras com a venda da BR Distribuidora; além de ter anunciado a criação de um banco digital na Caixa Económica Federal já com prévio anúncio de venda. Para completar, Bolsonaro ainda mandou o exército comprar cloroquina superfaturada em seis vezes o preço, para produção de um remédio sem comprovação científica para combater a covid. O seu secretário de Comunicação possui uma empresa que prestava serviço para emissoras que recebem verbas do governo que ele mesmo autoriza; o ex-ministro do Turismo é acusado de desvio de verbas eleitorais com candidaturas laranjas [de fachada]; o ministro da Cidadania confessou ter recebido dinheiro de caixa dois [saco azul]; o ministro do Meio Ambiente é condenado por fraude em uma área de proteção ambiental; entre outros casos.

É candidato a 2022 ou, no mínimo, dado como "presidenciável", depois da ótima votação obtida em 2018. Caso seja eleito, o que seria prioritário no Brasil?
Sim, sou pré-candidato. Tenho rodado todo o país apresentando um Projeto Nacional de Desenvolvimento com começo, meio e fim que recupere a capacidade industrial do Brasil, garanta desenvolvimento com justiça social e devolva ao Brasil as rédeas do seu futuro. Inclusivamente, lancei em meados de 2020 o meu mais recente livro que detalha que o Brasil tem todas as ferramentas necessárias para voltar a crescer e quais os caminhos para que isso aconteça. Para minha alegria, o livro figurou entre os mais vendidos no Brasil, com encomendas também do estrangeiro, o que mostra que a minha mensagem tem chegado a cada vez mais pessoas.

Já foi candidato três vezes: o que lhe trouxe essa experiência e que erros não repetiria?
Toda a eleição é uma aprendizagem. Naturalmente, estou mais experiente, os meus poucos cabelos brancos já demonstram isso... Assim, tenho a tenacidade, mas também a firmeza necessária para ajudar o Brasil a sair desse imenso buraco em que fomos jogados.

Parte da esquerda ainda o critica por não ter dado apoio explícito a Fernando Haddad em 2018. Sente responsabilidade na eleição de Bolsonaro?
Temos que ser claros: quem deu passagem para a eleição de Bolsonaro foi o PT [Partido dos Trabalhadores] e Lula. Eles insistiram numa candidatura fraudulenta de Lula até à véspera da eleição (ele estava impedido pela Lei da Ficha Limpa), enganando o povo. Mais que isso, usaram de toda a sorte de fake news para me atacar e a outros adversários - na primeira volta, Fernando Haddad não criticava Bolsonaro. Mais que isso, o plano de governo do candidato deles prometia coisas como a independência do Banco Central, algo que tem potencial destruidor para o que resta de possibilidades de recuperação do Brasil. Mesmo assim, eu declarei que não votaria em Bolsonaro, o meu partido [PDT] declarou apoio crítico a Haddad e eu votei no candidato do PT na segunda volta.

Portugal é um país onde, contra as expectativas, as esquerdas se uniram para governar. Os eleitores da esquerda brasileira sonham com o mesmo, uma "frente ampla", incluindo o PT. É possível ou impossível?
O Brasil não cabe apenas na esquerda. É preciso que fique claro que aqui temos que compor com o centro democrático para apresentar ao Brasil uma candidatura viável. Mais que isso, o PT é um partido que ainda guarda uma rejeição enorme da população. Nas eleições municipais de 2020 isso ficou claro com a derrota deles em todas as capitais e elegendo pouquíssimos prefeitos em cidades menores. Ou nós pensamos e apresentamos um projeto verdadeiro para o Brasil, ou poderemos ter Bolsonaro mais uma vez eleito, ou alguém que pensa como ele na economia, mas mais moderado nos costumes.

Lula, de quem foi ministro, hoje em dia atrapalha mais do que ajuda a esquerda brasileira?
Sempre ressalto que Lula foi merecidamente um grande presidente, que ganhou a aprovação, a seu tempo, da maioria da população. Mas, infelizmente, caiu nas tentações caudilhas da América Latina. Quis perpetuar-se no poder, não mexendo na estrutura económica de um país com uma das maiores desigualdades do planeta, e impondo a candidatura de Dilma Rousseff, uma pessoa honrada, porém inexperiente, que desastrou o país e deu passagem para Bolsonaro. Hoje Lula atrapalha o Brasil ao, mais uma vez, manter acesa a ideia de que será candidato a presidente.

Como vê a relação entre o Brasil e Portugal, acha-a mais próxima ou mais distante do que a que existe entre EUA e Reino Unido ou a entre Espanha e Argentina (ou México)?
Tenho profundo carinho e admiração por Portugal, além de uma relação de parentesco, já que o meu avô era português. A nossa pátria mãe ensina-nos hoje também a achar um bom termo nas relações políticas, sociais e económicas para desenvolver distribuindo renda. Mas, infelizmente, o Brasil não tem dado o devido valor a essa relação histórica. Certamente é uma relação muito menos aproveitada do que as entre outros países. Portugal, por sua história, exemplo e tradição, e Brasil, por seu potencial, tamanho e força, juntos, poderiam apresentar ao mundo uma visão humanista e de desenvolvimento sustentável.

Perfil

Nasceu em Pindamonhangaba, a cidade da sua mãe, no interior do estado de São Paulo, mas cresceu em Sobral, cidade do seu pai, no estado nordestino do Ceará. Membro da influente e politizada família Ferreira Gomes, é irmão de Cid Gomes, senador, e de Ivo Gomes, prefeito de Sobral. É casado com a produtora teatral Giselle Bezerra. Antes foi casado com a política Patrícia Saboya e a atriz Patrícia Pillar. Licenciado em Direito, foi prefeito de Fortaleza, governador de Ceará, deputado estadual e deputado federal eleito pelo estado de adoção.

Foi ministro da Fazenda de Itamar Franco e da Integração Nacional de Lula da Silva. Concorreu pela primeira vez à presidência em 1998, ficando em terceiro lugar, com 7,5 milhões de votos, atrás do reeleito Fernando Henrique Cardoso e de Lula. Em 2002, teve mais de dez milhões de votos, mas foi apenas o quarto mais votado, atrás de Lula, o vencedor, de José Serra e de Anthony Garotinho. Em 2018, já no seu atual partido, o PDT (centro-esquerda), voltou a crescer em número de votos - quase 13,5 milhões -, mas também a falhar a segunda volta, ao ser menos votado do que o eleito Jair Bolsonaro e o segundo classificado, Fernando Haddad. Nas três eleições presidenciais foi sempre o mais votado no Ceará.

Correspondente em São Paulo

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