Novo aeroporto? Para já o Montijo vai ser parque para dez mil carros da Autoeuropa

Por causa das novas regras de emissões, fábrica de Palmela vê-se obrigada a pôr automóveis na Base 6 da Força Aérea à espera de certificação alemã para serem postos à venda. Novas normas entram em vigor a 1 de setembro.

A nova norma de emissões nos automóveis que vai entrar em vigor em 1 de setembro está a levar as marcas de automóveis a tomar medidas inéditas. O Grupo Volkswagen, por exemplo, tem alugado espaços de estacionamento em vários aeroportos na Alemanha para parquear milhares de veículos que só podem ser postos à venda quando forem homologados os novos motores pela entidade alemã responsável. E o mesmo se passa em Portugal, com a Autoeuropa: sem espaço no parque interno, a fábrica de Palmela escolheu a Base Aérea do Montijo (BA6) para estacionar cerca de dez mil automóveis nas próximas semanas, apurou o DN/Dinheiro Vivo.

A Força Aérea confirma esta informação, através do porta-voz, tenente-coronel Manuel Costa. A empresa diz que assinou um protocolo que soluciona a situação. "A Força Aérea dispõe de um espaço, que será disponibilizado para esse efeito, na Base Aérea n.º 6, no Montijo. A utilização desse espaço não afetará, em circunstância alguma, a operação e a segurança da base. Os termos de utilização foram formalizados na assinatura do protocolo entre ambas as entidades", refere fonte oficial da fábrica de Palmela.

Espaço, segurança e proximidade da fábrica - a Base Aérea fica apenas a 25 quilómetros da Autoeuropa - foram os fatores determinantes para a escolha deste local, que será transformado, nos próximos anos, no futuro aeroporto do Montijo.

As duas entidades escusaram-se a revelar, no entanto, qual a contrapartida financeira envolvida neste protocolo - uma vez que a Autoeuropa vai pagar pela utilização do espaço. Depois de saírem da linha de montagem, os carros produzidos na fábrica ficam parados no parque interno e no porto de Setúbal, que também já não tem mais espaço para acomodar mais carros.

Os automóveis fabricados em Palmela vão começar a chegar ao Montijo nos próximos dias, numa altura em que a Autoeuropa está a reforçar a produção. Desde quinta-feira, a fábrica conta com 19 turnos de laboração: três turnos diários de segunda a sexta e dois turnos diários ao sábado e ao domingo. Além dos novos turnos, também aumentou a laboração diária do veículo utilitário desportivo T-Roc, de 30 para 32 unidades por hora. Os 5700 operários deverão garantir a montagem de 240 mil automóveis neste ano e responder à procura europeia por este SUV.

Só que a nova norma de emissões está a colocar vários desafios à produção, com os grupos construtores a terem de fechar as fábricas mais dias do que inicialmente previsto para alterar as linhas de montagem. O Grupo Volkswagen é o mais afetado pela nova norma.

Na fábrica portuguesa, por exemplo, a pausa de verão prolongou-se por mais uma semana do que o habitual: a produção esteve parada entre 1 e 22 de agosto. Agora "está tudo a funcionar normalmente desde que regressámos de férias", assegurou Fausto Dionísio, coordenador da comissão de trabalhadores.

A situação é mais grave em Espanha. Por falta de motores homologados, a Seat, do Grupo Volkswagen, admitiu a suspensão dos turnos de fim de semana em setembro para reduzir a produção na fábrica de Barcelona; a marca-mãe travou a produção na fábrica de Navarra por oito dias para conter a falta de material.

O gigante automóvel alemão anunciou, em julho, a suspensão da montagem de 250 mil veículos entre agosto e setembro nas suas fábricas europeias. Herbert Diess, presidente do Grupo VW, admitiu, na altura, que estava a trabalhar "sob muita pressão para que as novas medidas afetem o menos possível" a produção. Em menor escala, as alemãs BMW e Mercedes reduziram a montagem de alguns modelos das respetivas marcas. Nos últimos meses, Renault e Hyundai também assumiram que tiveram de limitar a produção automóvel.

A norma europeia Worldwide Harmonized Light Vehicles Test Procedure (WLTP) vai conferir aos automóveis valores de consumos e de emissões poluentes mais realistas, o que poderá ter como resultado um agravamento dos preços atendendo à tabela fiscal de imposto sobre veículos (ISV), com incidência nas componentes de cilindrada e emissões de CO2. As marcas de automóveis estão a fazer todos os esforços para que os novos veículos consigam obter os mesmos valores de emissões e assim evitar o agravamento dos preços de venda, consoante os mercados.

Os consumidores portugueses não deverão sentir qualquer impacto na compra de carros novos, porque a Autoridade Tributária deverá assegurar a neutralidade fiscal da adoção dos novos protocolos de medição de emissões, segundo um despacho interno assinado pelo secretário de Estado dos Assuntos Fiscais, António Mendonça Mendes, no início deste mês.

As medidas inéditas das marcas, no entanto, poderão levar os clientes a esperar mais tempo do que é habitual para receber o carro novo devido ao atraso na certificação dos veículos à norma WLTP.

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