Premium No verão dos "Incredibles", "Mamma Mia" e Tom Cruise foram outros dos campeões

Já se pode fazer balanço do verão nas bilheteiras portugueses. O público escolheu Incredibles 2 - Os Super-Heróis como filme campeão, mas o novo Mamma Mia e Missão Impossíbel: Fallout foram igualmente consideráveis sucessos. Linhas de Sangue, o pretendente português, não resultou.

O que tiramos do gosto dos portugueses neste verão? Mais do mesmo: blockbusters a varrerem tudo o resto, em especial filmes de animação e a contínua debandada dos espectadores para o cinema de autor.

Neste verão nas bilheteiras nacionais houve, contudo, algumas surpresas. A maior delas talvez os números vistosos do ciclo de clássicos franceses da Leopardo Filmes, de Paulo Branco. "Os Grandes Mestres" teve casas cheias em Lisboa e alguns desses clássicos conseguiram ultrapassar mais de um milhar de espectadores em poucas sessões. A memória cinéfila tem um público mais velho bastante disponível e há razões para otimismo para a operação Ingmar Bergman que será programada a seguir.

Mas a grande faturação esteve ligada aos grandes estúdios de Hollywood. Nesse domínio, foi um verão robusto. Que o diga a Disney, que conseguiu mais de 600 mil espectadores para Incredibles 2 - Os Super-Heróis, de Brad Bird, sequela inferior ao original mas que se tornou um fenómeno de popularidade, tal como Hotel Transylvania 3 - Umas Férias Monstruosas, comédia de animação com a chancela da Sony que ultrapassou calmamente os 10 mil bilhetes vendidos. A máxima de que é preciso levar as crianças ao cinema está longe de deixar de pegar, tal como a máxima "levar a avó ao cinema", em especial através do musical com o dedo de Richard Curtis, Mamma Mia - Here We Go Again, desta vez com pouco de Meryl Streep mas um prazer de culpa irresistível. Este divertimento ao som dos ABBA conseguiu 350 mil entradas mas está longe de terminar a carreira (aconteça o que acontecer, nunca chegará aos 800 mil do primeiro filme...).

Outro dos campeões de bilheteiras é Missão Impossível - Fallout, em rota para os 250 mil espectadores, provando assim o estatuto forte de Tom Cruise em Portugal. Claro que a crítica para um filme de ação como este não faz diferença nenhuma, mas o filme de Christopher McQuarrie conseguiu um consenso raro entre nós.

Quanto a desilusões, foram muitas. A maior delas terá sido Linhas de Sangue, de Manuel Pureza e Sérgio Graciano. Um filme com um elenco no qual pontificam José Fidalgo, Soraia Chaves, José Raposo, Catarina Furtado, entre outros, tinha obrigação de fazer bem mais do que cerca de 15 mil bilhetes. O cinema português com pretensões de multiplex está pelas ruas da miséria e o bem simpático Leviano, de Justin Amorim, também teve resultados confrangedores.

Para refletir também o sucesso de estima do novo da catalã Isabel Coixet, A Livraria, que com poucas cópias conseguiu levar mais de 13 mil pessoas. O "boca-a-boca" funcionou lindamente para um pequeno filme que a imprensa deixou passar. Mas o efeito da crítica teve um resultado francamente positivo com No Coração da Escuridão, de Paul Schrader, com Ethan Hawke. Este filme que poderá estar na corrida da temporada dos prémios de 2019 fez uns honrosos quase dez mil espectadores, embora a grande surpresa venha do Brasil, que nos trouxe Nada a Perder, de Alexandre Avancini, que neste momento já vai em mais de 66 mil entradas e promete não ficar por aqui. O segredo? É um objeto de propaganda religiosa, neste caso ao serviço da Igreja Universal do Reino de Deus.

Fracassos não muito esperados houve bastantes. À cabeça poderá estar Equalizer 2, de Antoine Fuqua, que não passou dos 85 mil bilhetes. Nada a ver com o êxito que protagonizou nos EUA. Mas o problema não foram os filmes dos grandes estúdios. Este foi o verão da desgraça para os filmes de médio porte e autores consagrados. Não Te Preocupes, Não Irá Longe a Pé, de Gus van Sant, foi um desastre, mesmo com Joaquin Phoenix no elenco, ainda que O Meu Amigo Pete, de Andrew Haigh, tenha corrido pior.

Neste rol de flops, difícil explicar como uma pérola como Happy End, de Michael Haneke, consegue atrair apenas cerca de três mil almas ou que Gotti - Um Verdadeiro Padrinho Americano, com John Travolta, nem 4000 portugueses levou ao cinema. Por muito mau que seja, não bate certo. Algo está mal também na maneira como as distribuidoras comunicam os filmes, algumas das quais ignorando a imprensa, como aconteceu com Terminal, filme de ação com a nomeada ao Óscar Margot Robbie. Ficamos a pensar que esta moda de estrear filmes a torto e a direito faz descurar o trabalho de marketing das distribuidoras. Custa ainda acreditar que um filme tão bem-amado como Sicario - Guerra de Cartéis, com Benicio Del Toro e Josh Brolin, não consiga fazer números mais vistosos.

Importa também ter a consciência de que uma obra como Homem-Formiga e a Vespa, de Peyton Reed, o único filme da Marvel neste verão, não tenha conseguido uma entrada superior a 55 mil espectadores. Numa era de supremacia de super-heróis, não deixa de ser um resultado um tanto ou quanto desconsolador. Lembre-se que a Disney em Portugal receou estrear esta sequela em simultâneo com o Mundial de Futebol. Talvez a espera de muitas semanas tenha arrefecido o entusiasmo dos fãs...

Coincidência ou não, cada vez há mais sessões ao ar livre e festivais como o Curtas Vila do Conde e o Periferias - Festival Internacional do Marão, que tiveram muitas casas cheias. Não é preciso este balanço do verão para percebermos que se está a instalar a ideia de que para ir ao cinema é cada vez mais preciso uma ignição de evento. De evento especial, de preferência...

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