Os norte-americanos negros

Entre os numerosos problemas ameaçadores da vida habitual dos brancos que anunciaram a ocidentalização do globo, são frequentes as questões suscitadas pela assumida visão da história, que agora parece orientar intervenções de destruição de monumentos, talvez tendo como referência significativa atirar com a estátua de Colombo ao mar. Não é apenas naquela região que estão a verificar-se ações que parecem inspiradas pelo que se vai chamando populismo, uma expressão que deve investigações valiosas ao professor José Pinto, mas que não consegue abranger toda a ação do atual Governo dos EUA. O ganho da presidência de Trump, que nunca executara funções políticas, foi uma ação, facilmente considerada populista, mas, assumindo o poder, aquilo que aconteceu foi confirmar o dito de Canovan, que considerou o populismo uma sombra da democracia que pretende dominar. Neste período mais dominado pela destruidora covid-19, acontece que todo o processo parece mais utilizador do Estado espetáculo de Schwartzenberg. Uma das primeiras demonstrações está na questão do muro impeditivo das migrações, de custo financeiro transferido para sul.

Na Europa, ainda hoje a braços com a dimensão das migrações, encontraria exemplo em Angela Merkel, que, referindo-se aos refugiados do drama de 2015, declara ter aceitado cerca de um milhão de pedidos de emigrantes no território alemão, vindos do Médio Oriente em guerra, porque "quando tanta gente se apresenta nas fronteiras, é necessário tratá-la com humanidade". É certo que as condições continuam mais exigentes do que as possibilidades, mas é a responsabilidade permanente que justifica o poder de governar, não o Estado espetáculo.

E de novo o que se passa nos EUA, na aparência, é Schwartzenberg com um inquietante passivo. Temos na União Europeia o tema doloroso de Lampedusa, que não pode omitir-se, e que já levou o maire local a declarar que "o que inquieta, é que não há nenhuma consciência, nem da parte do Governo nem da Europa", para responder às exigências dos que esperam emigrar, e são já atingidos pela gravidade do ataque do vírus.

Mas não esquecendo o conflito dramático europeu entre os deveres beneméritos e os valores da segurança, nos EUA a questão dos emigrantes é mais dramática, não quanto aos impedidos pelo Muro do Sul, mas quanto ao conflito entre americanos brancos e americanos negros. Acontece que ambos os grupos são emigrantes: os brancos apoderando-se do território com o vigor com que eliminaram os nativos; os negros trazidos de África para a economia do Sul na condição de escravos. Passaram sessenta anos desde que o discurso e a morte de Luther King foram necessários para impor a igualdade jurídica sem discriminação social, porque só a primeira podia ter sido decretada pela vitória de Lincoln, que por isso foi assassinado.

Agora, é uma criança que toma a palavra: quando, morto George Floyd, em 22 de maio, com o joelho de um polícia, e depois assassinado Jacob Blake, a 23 de agosto também pela polícia, com sete tiros, a referida palavra comovedora, que se distinguiu no movimento, sobretudo dos negros, contra Trump, foi a de Yolanda Renee, com 12 anos, única neta de Martin Luther King, no lugar onde o seu avô tinha proclamado o "sonho de fazer vigorar a justiça na América com duas etnias de "emigrantes" ainda segregados pela discriminação exercida pelo poder governamental.

A situação vai ser enfrentada por dois candidatos que sustentam visões opostas do vigor da justiça natural nos EUA. Espera-se que seja vencedora a justiça natural, orientadora de todos os regimes políticos ocidentais que respeitam os "direitos humanos", e esquecida quando é o Estado espetáculo em que se apoiam algumas ambições populistas, crentes da hierarquia aristocrática do poder, que não foi esquecida no Conselho de Segurança.

Devia ser um texto de referência a famosa carta do chefe índio Seattle (1787-1866), dirigida ao presidente dos EUA Franklin Pierce, na qual escreveu sobre o homem branco que lhes tomou o território: "Nós sabemos que o homem branco não entende o nosso modo de ser... Deixa atrás de si a sepultura de seus pais e não se importa. Sequestra os filhos da terra e não se importa. A cova de seus pais e a herança de seus filhos, ele as esquece." Os iroqueses perderam a sua terra. Os americanos negros, depois do assassínio de Lincoln, exigem que a Carta seja meditada para que a cidadania não seja violada.

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