O duelo entre a emergência e o planeamento

O Governo prolongou o estado de contingência até 14 de outubro. Na prática mantêm-se as medidas restritivas, na tentativa de evitar a subida dos contágios por covid-19. Hoje não é só a saúde que está carente de um plano de contingência, também a economia continua a padecer da doença provocada pelo apagão da atividade, desde março.

Nesta semana, o Governo decidiu prolongar as medidas de apoio ao crédito das famílias e liquidez das empresas. Uma das formas foi estender as moratórias bancárias até final de setembro de 2021, o que é uma medida de bom senso, um sinal importante na conjuntura atual. Mesmo não sendo uma medida estrutural, ajuda, em parte, a proteger empregos. Segundo o balanço feito pelo ministro da Economia, os seis meses adicionais representam uma folga temporária de perto de sete mil milhões de euros para negócios e famílias.

A medida tem efeito também para a própria banca, já que várias empresas de diversos setores irão enfrentar dificuldades num outono-inverno que se antecipa duro e austero. À medida que certas empresas começarem a entrar em incumprimento, a banca ficará com o "menino nos braços". Assim, também pela defesa do setor financeiro, esta folga temporária é bastante relevante.

Para os mais críticos, à esquerda ou à direita, as moratórias são sinónimo de "empurrar o problema com a barriga", mas é preciso elogiar, nesta altura, o pragmatismo e o bom senso de quem tem a noção clara de que os problemas de curto prazo são para resolver hoje e não podem ficar presos apenas e só nos planos a dez anos. Os grandes planeamentos estratégicos são bem-vindos, mas quando falamos de urgências e emergências, são necessárias ações com efeitos imediatos.

Nas medidas de proteção à economia e ao emprego é preciso ainda voltar a olhar seriamente para a formação, capacitação e inclusão, para que ninguém fique realmente para trás. Planos consistentes de formação podem ajudar a reter postos de trabalho e a manter o rendimento das famílias. No futuro, esta poderá ser uma fórmula importante para aguentar o barco à tona de água numa das economias mais expostas da União Europeia, pelas suas fragilidades estruturais.

Em matéria de formação, as empresas não podem, nem devem, esperar que seja o Estado, ou neste caso o Governo, a resolver tudo. É necessário que as organizações, desde a indústria tradicional ao turismo, sejam capazes de apresentar planos concretos e realistas. Para que ninguém fique para trás, a responsabilidade tem de ser partilhada por todos, inclusive pelas associações setoriais. A responsabilidade social também faz parte da missão empresarial, não contribuindo para que a sociedade deslace nesta crise profunda que só agora está a começar.

Jornalista

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