Resistência. "Isto é que é a vingança dos anos 90"

Mais de 25 anos depois de ter editado o primeiro disco, e meia dúzia após o regresso, a Resistência tem novo disco e um concerto de apresentação, hoje, no Coliseu dos Recreios, em Lisboa. O DN assistiu ao ensaio da banda.

Miguel Ângelo mostra-se convicto de que o primeiro ensaio do grupo começava uma hora antes. "Vejam lá se amanhã chegam a horas", lembra o cantor numa pausa entre temas. Os restantes respondem de pronto que era às 21.00, no único momento em que os nove elementos mostram alguma desafinação.

Em bom rigor também não foi à hora certa que os trabalhos começaram no estúdio A Casinha, dos Xutos & Pontapés. M​​​​​eia hora depois os músicos ainda afinam os instrumentos. Olavo Bilac adestra as capacidades geométricas num jogo de telemóvel. Miguel Ângelo prepara as letras no tablet. Alexandre Frazão desliza da sala de ensaios para logo voltar com uma lata de spray. "Isto é para desenferrujar o pessoal", graceja. O óleo é para uma peça do prato de choque.

A Resistência deve apresentar-se hoje no Coliseu dos Recreios devidamente oleada, após os ensaios de segunda e terça-feira. Apresentam o novo disco, Ventos e Mares, a quarta produção de estúdio do coletivo.

São dez temas, um deles inédito, Tágide, do guitarrista Dudas, que fez parte da formação entre 1992 e 2015. Se não causa surpresa a inclusão de temas dos Xutos, dos Delfins, ou de João Gil e Luís Represas, desta vez o grupo foi ao baú dos GNR (Sete Naves), Jorge Palma (Estrela do Mar e A Gente Vai Continuar), Sérgio Godinho via Clã (Sopro do Coração) e Quinta do Bill (Se Te Amo).

Tim explica que a ideia de se lançarem em novo disco surgiu a meio da digressão, quando "as pessoas estão congregadas e dizem que está na altura de aproveitar o facto e continuar a trabalhar".

"Uma coisa era termos regressado para fazer uns espetáculos grandes e desaparecer. Sentimos a necessidade de trazer coisas novas para o nosso repertório. Uma vez que ficámos a tocar de forma regular, não íamos tocar só os temas do passado", completa Miguel Ângelo.

Digressão de sucesso

"A verdade é que quando fizemos o comeback em 2012 ninguém estava à espera de que isto acontecesse. Eu não tinha essa expectativa. Era o Campo Pequeno, o Multiusos de Guimarães... e 2018 foi das tours mais conseguidas da banda, em termos de afluência, e de como os concertos correram em êxtase, parecia aquela festa Revenge of the Nineties. Isto é que é a vingança dos 90!", diz o cantor que se celebrizou nos Delfins.

Sobre a escolha dos temas e a forma como deram novas roupagens às músicas, Tim afirma que o processo "foi muito natural", até porque, como lembra Miguel Ângelo, foram introduzindo alguns temas nos concertos.

"Há uma coisa que neste disco é evidente: toda a gente contribuiu para todas ou quase todas as músicas e arranjos. No princípio não era tanto assim. Havia um núcleo central, agora toda a equipa funciona em todas as canções", releva o músico dos Xutos.

De projeto para banda

"A Resistência seguiu de projeto para banda. Nos anos 90 era o projeto e agora - claro que há os Xutos na estrada e outros elementos têm os seus grupos - há um outro tempo, uma outra idade, um outro respirar que torna este coletivo mais unido em termos artísticos e estéticos", sentencia Miguel Ângelo.

De volta ao ensaio, Estrela do Mar levanta algumas dificuldades. "É este ritmo?", pergunta Pedro Jóia. Mário Delgado anui. Tocam uma e outra vez. Agora é o monitor (coluna de som) que serve Miguel Ângelo e Olavo Bilac que falha. Depois é um harpejo que não está bem. Ouve-se no telemóvel. E volta a começar. Há algo de método científico no ensaio, tentativa e eliminação de erro. "Já não melhora mais", diz Alexandre Frazão.

Nas pausas bebe-se água, dizem-se uns chistes, esticam-se as pernas. "Isto é uma seca para vocês", atira com bonomia o homem das percussões, José Salgueiro, à equipa do DN.

Segue-se Não Voltarei a Ser Fiel, tema composto pela dupla dos Delfins e Olavo Bilac e interpretado pelos Santos e Pecadores. "Esta é fácil, só tem uns truquezinhos lá para a frente", assegura Fernando Júdice. Ouve-se a gravação nas colunas. Há uma passagem que a todos intriga: "É do mi para o ré?" Afinal parece que a solução é um quarto de tom. E, dado o tom, Mário Delgado e Pedro Jóia acertam fazer dois acordes cada um.

Quase duas horas depois de iniciado o ensaio chega-se ao terceiro tema, Se Eu Pudesse Um Dia, original dos Delfins, agora cantado por Tim. Os nove músicos fazem jus ao nome da banda e prometem mais um par de horas, para no dia seguinte voltarem a acertarem o passo. Porque, como se despedem no Ventos e Mares, "enquanto houver estrada para andar/ a gente vai continuar..."

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