Premium Admirável mundo novo

O modelo externo de afirmação chinesa tem na Venezuela um exemplo dos seus graves problemas. Vale a pena olhar para a ascensão imparável de Pequim e interpelar a forma, o método e os dilemas associados. Analisar criticamente não é o mesmo que vetar. Mas todo o relacionamento estratégico precisa de inquietação prévia e calibragem funcional.

Em semana de Davos, vale a pena recordar a atuação do presidente chinês na edição de 2017, quando se apresentou como o campeão do comércio livre, da abertura de fronteiras e o garante da ordem liberal no atual choque de perceções sobre o fechamento norte-americano. Na altura, o discurso surpreendeu o mundo, dividindo-o ao meio. De um lado, aqueles geograficamente próximos da China, com a noção clara da dose de charme propagandístico desprovido de adesão à real conduta de Pequim. Percebemos o efeito negativo que a imparável ascensão chinesa cria nos vizinhos asiáticos quando as sondagens apontam negativamente a imagem de Pequim para mais de dois terços dos japoneses, dos vietnamitas ou dos filipinos, todos em disputas territoriais com a China. Do outro lado, geograficamente mais ocidental, mas nem por isso com sofisticação analítica, um conjunto alargado de países visivelmente deslumbrados com o canto (e o encanto) de Xi.

Proponho, aliás, que as relações internacionais cunhem o conceito de "pato-bravismo" para descrever o que se tem passado, um romance de alta patente que faz lembrar o velho conluio entre empresas de construção e partidos políticos, agora levada à alta esfera das relações entre Estados. Falo, evidentemente, da tentação muitas vezes concretizada da venda sustentada de setores estratégicos num arco triunfal que vai da Grécia a Portugal, passando por França, Finlândia, Islândia, Reino Unido ou Polónia, a braços com um escândalo de suspeitas de espionagem e vulnerabilidades de cibersegurança, envolvendo entidades locais e a Huawei, detentora de metade da rede de comunicações polaca. Que fique mais uma vez claro: não sou contra a existência de investimentos chineses, mas sim contra a falta de diversificação equilibrada de investimento estrangeiro e, sobretudo, contra a concentração de ativos estratégicos na posse de empresas que, como sabemos, atuam numa lógica vertical de maximização da ação política no estrangeiro definida única e exclusivamente pela cúpula de poder chinesa.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Nuno Severiano Teixeira

"O soldado Milhões é um símbolo da capacidade heroica" portuguesa

Entrevista a Nuno Severiano Teixeira, professor catedrático na Universidade Nova de Lisboa e antigo ministro da Defesa. O autor de The Portuguese at War, um livro agora editado exclusivamente em Inglaterra a pedido da Sussex Academic Press, fala da história militar do país e da evolução tremenda das nossas Forças Armadas desde a chegada da democracia.

Premium

Maria Antónia de Almeida Santos

Dos pobres também reza a história

Já era tempo de a humanidade começar a atuar sem ideias preconcebidas sobre como erradicar a pobreza. A atribuição do Prémio Nobel da Economia esta semana a Esther Duflo, ao seu marido Abhijit Vinaayak Banerjee e a Michael Kremer, pela sua abordagem para reduzir a pobreza global, parece indicar que estamos finalmente nesse caminho. Logo à partida, esta escolha reforça a noção de que a pobreza é mesmo um problema global e que deve ser assumido como tal. Em seguida, ilustra a validade do experimentalismo na abordagem que se quer cada vez mais científica às questões económico-sociais. Por último, pela análise que os laureados têm feito de questões específicas e precisas, temos a demonstração da importância das políticas económico-financeiras orientadas para as pessoas.