Passos ou o regresso de quem nunca partiu

Sempre que Passos Coelho tem uma intervenção pública há uma espécie de tumulto na área política a que ainda, preguiçosamente, se chama direita.

O ex-primeiro-ministro tem gerido cirurgicamente as suas aparições e pouco importa se se concorda com os argumentos que deu para a manutenção de Joana Marques Vidal ou contra a obrigatoriedade das aulas de cidadania ou, desta vez, contra alguns dossiês da governação. O facto é que as tomadas de posição do ex-primeiro-ministro foram, desde que saiu das luzes da ribalta, sempre a e com propósito, bem pensadas e com conteúdo. Apesar de os temas, as opiniões e os momentos serem estranhamente coincidentes com os de Cavaco Silva, há um mundo que os divide: Cavaco espalha amargura e ressentimento, Passos Coelho faz política.

Não faz qualquer sentido a conversa do regresso de Passos Coelho à política. É um homem relativamente novo, decidiu não ter uma carreira fora da política depois de ter deixado o cargo de primeiro-ministro e mantém e cultiva todas as ligações no meio. Passos Coelho está na política e ativamente.

Claro que um partido, e uma área política,que chora pelo regresso de antigos líderes tem um problema de renovação de pessoal político. Infelizmente, e apesar de não ser exclusiva do centro-direita, a incapacidade deste espaço em atrair gente de qualidade é evidente e até assustador para o equilíbrio do nosso sistema.

Mas a realidade é o que é: há um setor alargado da nossa comunidade que anseia pelo regresso à liderança do PSD de Passos Coelho.

A principal razão é a não afirmação clara de Rui Rio como líder da oposição. Melhor, a sensação de que com ele a chegada ao poder não está próxima.

Claro que o facto de Passos Coelho se manter em jogo e ter os seus homens de mão a fazer uma oposição feroz a Rui Rio não ajuda à afirmação do antigo presidente da Câmara do Porto, mas não é de forma nenhuma o aspeto principal para o PSD não aparecer como alternativa, será apenas mais um.

Em primeiro lugar, Rio viu-se numa conjuntura em que tudo, sobretudo em termos económicos, sorriu ao Governo. Depois, herdou um PSD em cacos, sem quadros e ruralizado. Mas, claro está, os erros graves que tem cometido apenas potenciaram as razões mais estruturais.

Passos acha que faria melhor e tem o direito de o ir lembrando, até porque discorda do caminho que o atual líder do PSD está a trilhar. Melhor, do de Rio de há uns meses, agora há outro.

Aliás, esta anarquia estratégica que Rui Rio está a mostrar é uma das razões para o declínio do PSD. É que uma coisa é ser um partido com pouca ideologia, mas pragmático, outra é mudar-se de opções fundamentais por dá cá aquela palha.

Não deixa de ser curioso que Passos Coelho tenha sido um progressista na liderança da JSD, se tenha apresentado ao país quando concorreu à liderança do PSD como um liberal preocupado com as questões sociais e agora seja um homem muito à direita; como também é de estarrecer ver o que Rio dizia há um ano sobre o seu posicionamento ideológico e sobre populismos e agora vê-lo a namoriscar com o Chega e a sucumbir ao populismo na questão do Novo Banco.

Passos Coelho está na política. A sua intervenção em momentos importantes tem um objetivo claro: manter a sua base de apoio mobilizada à espera do momento certo.

Ele sabe que terá militantes suficientes para liderar a direita, mas também sabe que não tem votantes suficientes para voltar ao poder.

Em circunstâncias normais a possibilidade de Passos Coelho voltar a ganhar eleições e liderar um governo seriam ínfimas. As memórias da sua governação ainda estão muito vivas, por exemplo nos pensionistas e funcionários públicos - grupos muito importantes em termos eleitorais. Por outro lado, o seu atual posicionamento ideológico servirá para agregar o espaço da direita, mas alija completamente o do centro e é com esse centro que se ganham eleições e se continuarão a ganhar.

A questão é que a perspetiva política e económica é muito negra. Os partidos políticos estão a atravessar uma crise profunda com os problemas de representação a agravarem-se rapidamente e a direita desagregada; a justiça sem conseguir resolver os seus problemas endémicos enquanto os casos de corrupção se vão arrastando; e, claro, adivinha-se um crescimento brutal do desemprego, falências e toda uma quantidade de problemas que levarão muita gente ao desespero. Nessa altura teremos um clamor por um salvador. Um homem austero que ponha as coisas na ordem: a imagem que Passos Coelho tem em alguns setores.

Não acredito nem por um momento que o homem decente que Passos Coelho é deseje esse cenário. Mas será esse o único que o pode levar de novo ao poder e é por isso que continua na política ativa.

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