Que tal um almoço no Sahel?

Há uns anos, a minha mulher e eu fomos convidados para um almoço de Natal invulgar. O convite veio da presidência do Chade e o local do repasto situava-se a uma centena de quilómetros a norte de Fada, uma localidade a mais de duas horas de avião de Ndjamena, já na zona de transição do Sahel para o Sara. O plano consistia em voar até Fada e seguir por terra até um dos oásis da depressão de Mourdi - um conjunto de vales profundos, com várias lagoas, muito procuradas pelos mercadores das numerosas manadas de camelos em trânsito para a Líbia, onde cada camelo acaba vendido nos mercados de carne.

Lá fomos. A viagem entre Fada e o oásis decorreu no meio de vinte e tal jipes de uma companhia de tropas de elite com experiência operacional da região. Os jipes de caixa aberta - os famosos technicals - avançavam a alta velocidade, em paralelo, numa frente única de várias centenas de metros. Tratava-se de evitar a poeira e as emboscadas de grupos sem lei que já na altura vagueavam por essas paragens.

O pitéu foi carneiro, recheado com galinha e cuscuz, assado num buraco cavado na areia. O bicho, bem passado, limpo das cinzas e da areia, foi colocado à nossa frente, inteiro, da cabeça às patas, a fitar-nos com os seus olhos de carneiro bem morto, para que nós, os convidados, déssemos início ao festim. O protocolo era claro. Ninguém tocaria em qualquer pedaço de comida antes de nós havermos terminado a nossa. A minha mulher e eu olhávamos um para o outro, e não sabíamos o que fazer. O chefe dos GOE (Grupo de Operações Especiais da PSP), que tinham a responsabilidade da minha segurança pessoal, puxou de um navalhão, cortou dois pedaços e nós lá começámos a roer. Devagarinho, para mostrar apreço pela iguaria. Duas centenas de olhos seguiam atentamente o nosso mastigar. Quando demos o sinal de que estávamos aviados, os militares lançaram-se ao bicho e à restante comida. Limparam tudo num abrir e fechar de olhos.

Ao contar tudo isto, a minha intenção não é a de convidar o leitor para um almoço de Natal semelhante. Trata-se, isso sim, de aproveitar o momento para falar do Sahel, da fome e da insegurança alimentar que definem o quotidiano das suas gentes, e da violência que se vive nessas terras. É também uma homenagem a quem pouco mais tem do que a sua dignidade pessoal, uma qualidade que sempre definiu a maneira de ser das gentes do Sahel. Mas essa dignidade é agora frequentemente violada por quem tem poder, seja do lado dos governos, dos salteadores armados ou dos terroristas.
O Sahel e o Sara adjacente vivem uma profunda crise de segurança, que se agrava continuamente desde 2012, e isto apesar de uma forte presença militar europeia na região.

O ano que agora termina foi o mais violento. Os jihadistas e outros grupos armados, incluindo as milícias populares constituídas pelos governos que os europeus apoiam, terão provocado mais de 4250 mortes e milhares de deslocados. A zona mais perigosa é a das três fronteiras, entre o Mali, o Burkina Faso e o Níger. Cerca de metade dos ataques foram dirigidos contra populações civis. Na maioria dos casos, a violência, mesmo a que usa uma capa de radicalismo religioso, tem como principal objetivo extorquir recursos. As comunidades que vivem da exploração artesanal do ouro ou da pastorícia, bem como aqueles que percorrem os corredores comerciais de ligação com a costa ocidental de África, com o Benim, o Togo e a Nigéria, são os alvos mais frequentes. É difícil determinar onde acaba a pilhagem e começa o fanatismo, o ódio étnico ou a violação dos direitos humanos. Terrorismo é um rótulo que define mal uma realidade muito complexa. Mas pesa. Em 2020 assistimos a numerosas confrontações entre dois dos grupos mais importantes, ou por eles perpetradas: o Estado Islâmico no Grande Sahel e as fações ligadas à Al-Qaeda. E continuamos a ouvir relatos de crimes de guerra cometidos pelas forças armadas de países aos quais a Europa dá formação militar.

A UE está a preparar uma nova estratégia para a região. Poderá estar pronta durante a presidência portuguesa. Para ser válida, deverá começar por questionar as razões do insucesso da estratégia que tem sido seguida até agora. As primeiras indicações que tenho é que será mais do mesmo. Talvez fosse uma boa ideia organizar, para alguns responsáveis europeus, um almoço num canto remoto do Sahel.

Conselheiro em Segurança Internacional. Ex-representante especial da ONU

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