Tempos de medo

A mudança é quase sempre o prenúncio de uma incerteza, como um pressentimento de sombra. Há nela uma disrupção que mobiliza a prudência, a disposição de um estado de sentinela, porque não há mudança que dispense um qualquer prejuízo, que não implique alguma forma de perda. Nesse sentido, a mudança interpela, coloca-nos à prova, e por isso inspira medo, receio - o de fracassar, o ficar do lado da perda, da sombra, de ficar para trás.

Sei que há quem manifeste uma predisposição para a novidade; são os que esperam pouco para a abraçar, os que se adaptam ao novo com afinco, e por isso são chamados de pioneiros. Mas nem esses, que são uma minoria, dispensam a ponderação: há neles uma audácia que os ilumina, que os cobre de otimismo ou pragmatismo, mas nada disso se confunde com ingenuidade, como se fosse possível arriscar sem discernimento, sem o cálculo das probabilidades. Haverá sorte na audácia, mas há também método, engenho; e é esse método, que até pode ser inato, que eleva o pioneirismo para lá de um estado de espírito - que o transforma em sistema, num processo de superar o risco e consequentemente o medo.

Ora, num mundo aberto, de inteligência artificial e de economia digital, nunca a mudança foi tão veloz, tão transversal, tão rapidamente substituída por outra. Não se trata de um desabafo geracional, mas de uma constatação: ao contrário do que sucedia com outras disrupções, que afetavam setores particulares da economia ou da população, a disrupção provocada por esta nova economia afeta todos os setores e faixas populacionais a um ritmo inédito.

Ninguém vai ficar imune: dois terços das crianças que entram no ensino vão trabalhar em ocupações que ainda não existem, milhares de funções e postos de trabalho vão desaparecer, milhões de pessoas vão circular pelo mundo, inventando novas coisas, concorrendo connosco. O ritmo da mudança é tal que desafia até os métodos dos pioneiros: nada lhes garante que o seu pioneirismo se não torna obsoleto antes de ser concretizado, nada lhes garante que estão, como antes, protegidos pela sua audácia.

Pode parecer paradoxal, mas estes tempos de mudança, de saltos em frente, são tempos de medo, de desconfiança. Olhamos para o que está a suceder procurando perceber o como e o quando vamos perder o que temos: o emprego, o talento, a casa, as poupanças. E fazemo-lo mesmo sabendo que ao longo das últimas décadas as nossas condições de vida melhoraram substancialmente, e não o contrário, que as inovações nos têm feito viver cada vez melhor, não pior (aconselho, para confirmação, a base de dados Our World in Data da Universidade de Oxford).

Os populistas perceberam primeiro que nós este sentimento de medo e exploram-no sem decoro, mesmo que para isso tenham de negar todas as evidências de sucesso que os desenvolvimentos tecnológicos trouxeram. São capazes de perorar durante horas, do alto do conforto que o capitalismo do mundo global lhes trouxe, apenas sobre os perigos e os riscos sem nunca falarem dos maravilhosos resultados atingidos.

Se este medo é o sentimento predominante, e eu penso que é, aquilo que politicamente nos definirá nos próximos tempos é a nossa forma de reagir a ele, de nos posicionarmos perante ele, que é uma outra forma de nos perguntarmos como lidaremos com a mudança. Tenho defendido que esta é a distinção política mais relevante deste século: vamos estar entre os que querem travar a mudança ou os entre os que se querem preparar para ela? Vamos estar entre os que querem vencer o medo ou entre os que o querem explorar para fins eleitorais?

Advogado e vice-presidente do CDS