O ateu católico e os crimes da Igreja

Aos católicos, que dizem "a Igreja somos nós" , resta-lhes tirarem conclusões do que têm sido e perceberem para o que todos contribuíram.

Um irlandês está a passar a linha que dividia Belfast da zona católica para a protestante. Um guarda pergunta-lhe: "Católico ou protestante?" "Ateu", responde-lhe o homem. "Hum, mas ateu católico ou ateu protestante?" A história não é nova nem sequer sei se é verdadeira, mas diz-me muito. Fosse a mim e a pergunta teria resposta rápida: ateu católico.

Sou daqueles que pensam que a Igreja Católica fez mais mal do que bem. Não só a mim, mas à comunidade a que pertenço e à parte do mundo que decisivamente influenciou. Mas, seja como for, o mundo a que pertenço foi feito em larga medida pela Igreja Católica, pelas suas qualidades, defeitos e valores. Eu sou, queira ou não, lute o que lutar contra o que ela me inculcou e a sua influência, boa parte produto dela.

Por isso, este ateu católico, por muito que lhe custe, sente os crimes da Igreja como muito mais graves do que os de qualquer outra instituição. E não, não é só por causa dos amigos que sofrem, não é só pelo mal que ela tem feito a mim e a outros - repito, maior do que o bem -, é porque o que eu sou tem o seu, impossível de evitar, contributo.

Apesar de a sua influência ter diminuído, não há como negar a sua ainda importância. É aliás por isso que critico e me revolto contra posições da Igreja que afetam profundamente homens e mulheres que são crentes e que não concebem as suas vidas sem ser dentro da Igreja Católica. Recasados a que são vedados sacramentos, homossexuais que têm de viver a sua fé na clandestinidade e todos os que se sentem rejeitados por qualquer outra razão. Sim, isto diz-me respeito. São meus amigos, familiares ou só muitos homens e mulheres que eu gostaria de ver menos infelizes.

Mas não só. A atual profunda crise que a Igreja Católica vive, em larga medida consequência dos horrendos crimes que praticou e encobriu sobre milhares e milhares de crianças que estavam ao seu cuidado, está longe de ser um assunto que diz respeito ao seus fiéis, à sua estrutura e mesmo às autoridades. É algo que ultrapassa outros crimes que a Igreja praticou ao longo da sua história: as guerras santas, a Inquisição, a colaboração com ditaduras ferozes, os autos-de-fé e um infinito etc. Nesta situação a lógica de diabólica autopreservação, que presidiu a quase todos os crimes que a Igreja praticou, chega aos mais indefesos, aos que confiaram nela, aos que dependiam dela, aos que lhe foram entregues, a muitos que pensavam que as infâmias de que eram vítimas era o que Deus tinha para elas. Nada mais hediondo. Mais do que um auto-de-fé feito a um inimigo, mais do que calar um massacre para teoricamente poder continuar a salvar almas.

Mas a forma como estes crimes foram, durante centenas de anos, praticados é também algo que põe em causa a forma como vivemos e como nos organizamos em sociedade. O poder que se foi alijando deixando que uma organização tenha impunemente praticado crimes e que se tenha julgado - mesmo depois, muito depois de efetivamente separada do Estado - acima da lei dos homens. Logo a Igreja Católica que vive a repetir que é feita de homens, e assim, por definição, tão capaz de errar como outra qualquer organização e que assim não podia deixar que os crimes que praticou e encobriu fossem julgados como atos humanos.

Mais, não tem sido ela a denunciar os seus próprios pecados, a querer ser melhor. Como em todos os crimes da Igreja, foi por haver pessoas que se revoltaram contra ela que lhe foi tirado o poder. Foi por muita gente se ter sacrificado que se souberem os seus horrendos podres. Não foi a Igreja a querer mudar, foram pessoas foram dela que a forçaram a mudar. Fica transparente, até pelo que vamos sabendo dos encobrimentos, que por ela tinha ficado tudo na mesma. E não só nestes casos de violência sexual.

"A Igreja somos nós", dizem os católicos. Resta-lhes tirarem as conclusões do que têm sido e de perceberem para o que todos contribuíram. É esta a Igreja deles e a que ajudou a fazer e a moldar a sociedade em que vivemos.

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