Memória

Esta semana ficou marcada pela saída da Grécia de um programa de ajustamento. Na realidade foram três programas que marcaram a vida dos gregos nos últimos anos, depois de vários governos e ameaças de saída do euro. Portugal, tal como a Grécia, também teve de implementar um programa de ajustamento, depois da bancarrota imposta pelo governo do PS. Mas as semelhanças terminam aí.

Saímos em 2014 com a economia a crescer e sem necessidade de novos programas de ajustamento/cautelares e com as condições criadas para que várias das medidas de austeridade impostas naqueles anos pudessem ser revertidas.

Para isso contribuíram de forma determinante o empenho e o esforço dos portugueses e a capacidade que o governo do PSD/CDS-PP teve de fazer com coragem as reformas necessárias para a recuperação do país. Também contribuiu a sorte que tivemos de ter a liderar este governo Pedro Passos Coelho, que mesmo nos momentos mais difíceis optou sempre por não abandonar nem desistir do seu país.

Mas há certamente um fator que não contribuiu em nada: a colaboração do maior partido da oposição que também tinha aposto a sua assinatura no memorando de entendimento. O PS até de medidas por si negociadas protestou. Tudo valeu para naqueles anos tentar mandar abaixo o governo, não compreendendo que assim mandaria abaixo as hipóteses de o país sair o mais rapidamente possível daquele programa de austeridade.

É verdade que há sempre alternativa, mas o PS nunca propôs a sua.

Foi, por isso, com estupefação que ouvi o vídeo de Mário Centeno e li as declarações de António Costa, congratulando efusivamente o governo grego pela conclusão do programa. Os gregos bem merecem, pelo que tiveram de suportar também em resultado das decisões irresponsáveis, e que tanto custaram ao seu país, tomadas pelo venerado pela esquerda portuguesa antigo ministro grego Varoufakis. Fico estupefacta porque os parabéns que deram agora ao governo grego e aos gregos nunca foram capazes de dar aos portugueses e ao governo português.

Esta situação ilustra o melhor dos últimos anos da dupla Costa&Centeno. Cá, adotam um discurso de fação, não reconhecendo uma única vez que as reversões de 2014 em diante só foram possíveis devido aos esforços que sempre menorizaram dos portugueses entre 2011 e 2014. Lá fora, discorrem sobre a necessidade de continuar reformas estruturais e de evitar decisões irresponsáveis do passado (semelhantes àquelas que levaram Portugal à situação de 2011?).

Cá, fazem propaganda com o suposto milagre económico que a alternativa portuguesa à ortodoxia alemã permitiu. Lá fora, gabam-se de cumprir e até ultrapassar metas orçamentais.

Em 2015, o recém-chegado Centeno via na saída limpa de Portugal em 2014 um "resultado pequeno para uma propaganda enorme", num país com "crescimento anémico". Em 2015, a economia portuguesa cresceu 1,9% e a taxa de desemprego no final do ano foi de 12,6%.

Em 2018, o Centeno-ministro-presidente do Eurogrupo vê na saída da Grécia (após três resgates) a "recuperação do controlo" de uma "economia reformada e modernizada", onde "estão a ser criados novos empregos, há um excedente orçamental e comercial". No final do ano passado, a economia grega cresceu 1,4% e a taxa de desemprego rondava os 22%.

Não há como explicar ou entender políticos que, para não reconhecer méritos de adversários, fazem malabarismos e piruetas deste género. Se estivermos a falar de pessoas sérias, então apenas a memória, neste caso um gigante lapso de memória, pode justificar as palavras de Mário Centeno e de António Costa.

Presidente da JSD

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João Gobern

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