Premium Antissemitismo no caminho de Corbyn para Downing Street

Apesar da crise no governo, Labour não descola nas sondagens devido a polémica antissemita, mas também à falta de alternativas ao brexit de May.

Jeremy Corbyn segura uma coroa de flores enquanto olha para quem tira a fotografia. Estamos em 2014, um ano antes de ser eleito líder do Labour, num cemitério em Tunes. O então deputado diz que estava numa cerimónia de homenagem aos 47 palestinianos mortos, em 1985, num ataque aéreo israelita a uma base da Organização da Libertação da Palestina na Tunísia. Mas o tabloide Daily Mail revelou que o monumento que assinala esse evento está a mais de dez metros de distância e que, na realidade, ele estava junto à placa que assinala a campa dos membros do grupo responsável pelo massacre de 11 atletas e técnicos israelitas nos Jogos Olímpicos de 1972, em Munique.

Este foi só mais um episódio numa longa série de acusações de antissemitismo contra Corbyn ou o Partido Trabalhista, que teimam em não desaparecer por muito que o Labour as desminta ou lembre o passado de ativista dos direitos humanos e antirracismo e intolerância do seu líder. Isso, juntamente com uma posição não comprometedora sobre o brexit e propostas económicas radicais na economia, são um entrave no caminho até ao número 10 de Downing Street.

Na última sondagem YouGov para o The Times, nesta semana, os conservadores tinham quatro pontos de vantagem, isto apesar da crise dentro do governo de Theresa May por causa dos seus planos para um soft brexit. Em meados de julho, os trabalhistas tinham uma vantagem de cinco pontos nessa mesma sondagem. Números que podem enganar: antes das legislativas antecipadas de 2017, May chegou a ter mais de 20 pontos de vantagem sobre Corbyn e este acabaria por ficar a apenas 2,4 pontos, com 40%, uma percentagem superior à que deu a terceira maioria absoluta a Tony Blair, em 2005.

"Problema resolvido"

Corbyn assumiu o controlo do Labour em setembro de 2015, no rescaldo da derrota eleitoral de Ed Miliband. Este dizia querer ser o primeiro chefe de governo judeu no Reino Unido (na realidade esse título pertence a Benjamin Disraeli, que governou no século XIX), mas não poupava também as críticas a Israel por causa dos bombardeamentos a Gaza. Contudo, os escândalos antissemitas só rebentaram verdadeiramente em 2016.

Naz Shah, que pertencia ao governo-sombra de Corbyn, foi suspensa após partilhar mapas no Facebook a defender a relocalização dos israelitas para os EUA, acrescentando "problema resolvido". Para piorar a situação, o ex-mayor de Londres, Ken Livingstone, aliado do líder trabalhista, ao defender Shah, alegou que Hitler tinha sido sionista até ficar maluco e matar seis milhões de judeus. Foi suspenso também e deixou o partido já neste ano.

O inquérito que se seguiu concluiu que o Labour "não está a ser dominado pelo antissemitismo". Mas as conclusões ficariam ensombradas porque, dois meses depois, a sua autora foi a única nomeada por Corbyn para uma posição vitalícia na Câmara dos Lordes.

"Peço descupa pelo dano causado a muitos judeus (...). Aqueles que usam o veneno antissemítico devem saber: não o fazem no meu nome nem do meu partido."

E os problemas não ficaram por aí. Antes de a foto de Tunes ter relançado a polémica, o Labour resolveu não reconhecer todos os 11 exemplos da definição de antissemitismo da Internacional Holocausto Remembrança Aliance - pois isso travaria críticas legítimas a Israel. Já neste mês, Corbyn partilhou um vídeo nas redes sociais. "Peço desculpa pelo dano causado a muitos judeus", disse, mas o tema teima em não desaparecer, com os diretores de três jornais judeus do Reino Unido a alegarem que representa "uma ameaça existencial para a vida judaica no país". A comunidade judaica tem cerca de 270 mil pessoas.

Brexit

Além do antissemitismo, Corbyn enfrenta outro problema, chamado brexit. No referendo de 1975, o então vereador num bairro de Londres votou pela não continuação do Reino Unido na Comunidade Europeia - o sim ganhou 67% contra 33%. E tem mantido essa posição. Em 1993, já deputado, votou contra o Tratado de Maastricht, que estabeleceu as bases da moderna União Europeia (UE). Em 2008, opôs-se ao partido e foi contra a implementação do Tratado de Lisboa.

No referendo de 2016, muitos criticaram o facto de o líder do Labour, um partido que desde os anos 1980 se apresenta como pró-europeu, não ter feito uma campanha ativa contra o brexit. E ainda nesta semana Corbyn respondeu de forma evasiva ao jornalista do Channel 4 que lhe perguntou seis vezes: "Acredita honestamente que o Reino Unido está melhor fora da UE?"

Novo referendo?

Corbyn defende o resultado do referendo, ao mesmo tempo que apela a uma solução que implique a manutenção de união aduaneira com os 27. "Houve um referendo, uma decisão foi tomada, temos de respeitar o resultado desse referendo e negociar uma relação comercial com a União Europeia para defendermos os empregos e os níveis de vida que existem neste país", foi a resposta de Corbyn numa das seis perguntas.

Esta é uma posição que ajuda os trabalhistas a manterem o apoio dos seus militantes do norte e do centro de Inglaterra, que votaram a favor do brexit. Mas crescem as vozes a pedir uma posição mais radicalmente oposta à de May exigindo, no mínimo, um novo referendo no final das negociações - perante um acordo considerado catastrófico para o Reino Unido ou até o cenário de um "não acordo". O ministro-sombra do brexit, Sir Keir Starmer, disse nesta semana que todas as hipóteses estão sobre a mesa, nomeadamente se os deputados votarem contra o acordo que May negociar com Bruxelas.

Tanto o antissemitismo como o brexit são temas que vão marcar a conferência do Labour, de 23 a 28 de setembro em Liverpool.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Rosália Amorim

Crédito: teremos aprendido a lição?

Crédito para a habitação, crédito para o carro, crédito para as obras, crédito para as férias, crédito para tudo... Foi assim a vida de muitos portugueses antes da crise, a contrair crédito sobre crédito. Particulares e também os bancos (que facilitaram demais) ficaram com culpas no cartório. A pergunta que vale a pena fazer hoje é se, depois da crise e da intervenção da troika, a realidade terá mudado assim tanto? Parece que não. Hoje não é só o Estado que está sobre-endividado, mas são também os privados, quer as empresas quer os particulares.