Costa seduz eleitorado progressista e faz avisos à esquerda

Líder socialista aproveita comício da rentrée em Caminha para dramatizar geringonça, prometer mais igualdade e anunciar apoios à arte, à ciência e aos emigrados da crise.

João Pedro Henriques
© ARMÉNIO BELO/LUSA

"Estabilidade." "Continuidade". "Dar força ao PS". "Ganhar" - europeias, legislativas e "pela primeira vez" a Madeira (onde haverá regionais em 2019). Estas foram ontem as principais palavras-chave do líder do PS no comício, em Caminha, Viana do Castelo, com que o partido se lançou no novo ano político, o último da legislatura iniciada em 2015.

Um comício - antecedido por exibições de folclore do Alto Minho nos quais se quebraram novos recordes ao nível dos agudos - onde todas as formas de mobilização e transporte usadas (comboios e autocarros) não foram suficientes para encher a praça central do Parque 25 de Abril. O evento contou também, a uma distância razoável, imposta pela GNR, com um pequeno mas muito ruidoso protesto de um grupo de lesados do Novo Banco. O início dos discursos foi antecipado para as 17.30 por causa do dérbi Benfica-Sporting.

Para a história do evento ficarão os avisos do líder socialista aos parceiros do PS na maioria de esquerda. Implicitamente, António Costa sugeriu que uma eventual rutura na aliança já no próximo Orçamento poderá derrotar a esquerda no seu conjunto mas legislativas. O que o preocupa são eventuais cálculos eleitorais internos no BE, PCP e PEV que conduzam a um chumbo do próximo OE. "Um voto que se ganha pode ser um país que se perde", disse o líder do PS - e dificilmente podia ser mais claro.

Costa tentou explorar a favor do seu partido os efeitos do voto útil dizendo que "não há nenhum governo progressista em Portugal sem o PS e sem que o PS tenha força para fazer esse governo". Ou seja: "Eles [os parceiros da geringonça] têm sido essenciais mas o PS é imprescindível para que haja um governo de esquerda." Por isso "é absolutamente essencial dar força ao PS" nas eleições que se aproximam - europeias, legislativas e regionais da Madeira - para se poder "dar continuidade" às políticas de devolução de direitos e rendimentos postas em prática desde 2015. "Dar força" para manter a "estabilidade política", para "dar continuidade às políticas" - mas também para "baixar a carga fiscal".

No curto prazo, é "fundamental" que o próximo Orçamento passe, para "não estragar o que já produzimos". Dirigindo-se claramente a BE, PCP e PEV, Costa insistiria: "Não podemos pôr em causa nem a estabilidade política nem ter uma gestão orçamental irresponsável que faça derrapar o défice e aumentar a dívida. Não vamos pôr em causa nem o acordo [das esquerdas] nem o rigor [orçamental]."

Numa aparente tentativa de se demarcar da herança socrática, António Costa sublinharia ainda o seu objetivo pessoal como primeiro-ministro: "No dia em que cessar funções não deixarei o país pior do que o encontrei, deixarei muito melhor."

"Maioria absoluta" foi, mais uma vez, uma expressão que evitou. "Não gosto de tabus e por isso deixo claro que só temos uma meta: ganhar nas legislativas, ganhar nas europeias, e pela primeira vez ganhar na Madeira."

Quem falou de "maioria absoluta" foi o outro orador do comício, Miguel Alves, presidente da Câmara Municipal de Caminha e da federação do PS de Viana do Castelo. Mas fê-lo para dizer que "a Portugal e aos portuguesas interessa pouco saber se o PS pede ou não pede maioria absoluta - o que interessa é uma derrota absoluta à direita".

Quanto ao conteúdo do próximo Orçamento, Costa repetiu notícias que já tinha dado: a cultura terá "o maior orçamento de sempre", a ciência vai ter "o maior crescimento orçamental" de todas as áreas e será lançado um programa de incentivos fiscais ao regresso de emigrantes a Portugal - já em 2019-2020 - pagarão metade do IRS durante "um período de três a cinco anos".

Antes de chegar a Caminha, Costa almoçou com mulheres num forno comunitário no Lugar de Vila Verde, em Riba d"Âncora, ainda em Caminha. Aí reafirmou a promessa de que a lista do PS ao Parlamento Europeu será absolutamente paritária (algo que António José Seguro já havia feito nas europeias de 2014). Sublinhou que a nova proposta de lei da paridade - aprovada pelo governo e a aguardar discussão no Parlamento -, que reforça a quota mínima de um terço para 40%, irá abranger rigorosamente todas as listas políticas. "do Parlamento Europeu às juntas de freguesias", afirmou.

No governo, soube o DN, há a consciência de que o alargamento destes princípios às juntas de freguesia suscita bastantes reservas em muitos dos seus presidentes - que argumentam não conseguirem angariar mulheres para integrar as listas. O líder socialista acrescentou ainda que a proposta de lei inclui uma "imposição de alternância" entre homens e mulheres nos primeiros lugares - para evitar o facto, que considerou "estranho", de as listas atualmente até terem a quota mínima de mulheres (33%) mas depois essa percentagem não se refletir nos eleitos (porque os 33% de mulheres são colocados na parte inferior da lista).

Sublinhou a lei que combate a desigualdade salarial entre homens e mulheres, aprovada há semanas, sublinhando o facto "intolerável" de essa desigualdade aumentar à medida que os quadros são mais qualificados (a média da desigualdade é de 14% mas no topo das empresas ascende a mais de 25%)."Não me venham dizer que a questão salarial é uma questão dos privados. Tudo o que tem que ver com o país tem que ver com a política", enfatizou.

Em suma: num momento em que, segundo fez questão de recordar, há governos europeus que assumem frontalmente práticas desigualitárias (étnicas, raciais ou de credo) é importante pensar que "o combate contra as desigualdades nunca está acabado", sendo essa aliás a razão fundadora do socialismo. "Há sempre novas formas de igualdade a serem descobertas."