Premium A cara que merecemos

Todos os dias e hoje também. A cortina de ferro içada aos solavancos, duas voltas à chave e as portas abertas de par em par, as luzes que se acendem e logo o cigarro. Todos os dias às nove da manhã. O mesmo fato escuro e a gravata preta, o rosto inexpressivo, o corpo lento e cansado, os olhos tristes que fixam um vazio longínquo e universal. O letreiro serve de legenda, esclarecedor e inequívoco: "Funerais", por baixo um número de telefone fixo e outro de telemóvel para as mortes que não se conformam com o horário de expediente.

"A natureza dá-te a cara que tens aos 20, a vida molda a cara que tens aos 30, aos 50 tens a cara que mereces." A frase é atribuída a Coco Chanel e aplica-se a todos, a começar pelo senhor da funerária. Aos 41 tenho o rosto já moldado mas não ainda o que mereço. Caminho pelo bairro e vou adivinhando nos reflexos das montras os traços que se hão de vincar, a retirada lenta da frente capilar, as rugas alegres dos cantos da boca e as outras mais soturnas, por cima das ideias. Vou também notando os sorrisos rápidos das lojistas, os lábios cerrados do último sapateiro, a preocupação ensaiada da farmacêutica e os olhos arregalados da rapariga que agora vende casas.

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Adriano Moreira

O relatório do Conselho de Segurança

A Carta das Nações Unidas estabelece uma distinção entre a força do poder e o poder da palavra, em que o primeiro tem visibilidade na organização e competências do Conselho de Segurança, que toma decisões obrigatórias, e o segundo na Assembleia Geral que sobretudo vota orientações. Tem acontecido, e ganhou visibilidade no ano findo, que o secretário-geral, como mais alto funcionário da ONU e intervenções nas reuniões de todos os Conselhos, é muitas vezes a única voz que exprime o pensamento da organização sobre as questões mundiais, a chamar as atenções dos jovens e organizações internacionais, públicas e privadas, para a necessidade de fortalecer ou impedir a debilidade das intervenções sustentadoras dos objetivos da ONU.