Premium A cara que merecemos

Todos os dias e hoje também. A cortina de ferro içada aos solavancos, duas voltas à chave e as portas abertas de par em par, as luzes que se acendem e logo o cigarro. Todos os dias às nove da manhã. O mesmo fato escuro e a gravata preta, o rosto inexpressivo, o corpo lento e cansado, os olhos tristes que fixam um vazio longínquo e universal. O letreiro serve de legenda, esclarecedor e inequívoco: "Funerais", por baixo um número de telefone fixo e outro de telemóvel para as mortes que não se conformam com o horário de expediente.

"A natureza dá-te a cara que tens aos 20, a vida molda a cara que tens aos 30, aos 50 tens a cara que mereces." A frase é atribuída a Coco Chanel e aplica-se a todos, a começar pelo senhor da funerária. Aos 41 tenho o rosto já moldado mas não ainda o que mereço. Caminho pelo bairro e vou adivinhando nos reflexos das montras os traços que se hão de vincar, a retirada lenta da frente capilar, as rugas alegres dos cantos da boca e as outras mais soturnas, por cima das ideias. Vou também notando os sorrisos rápidos das lojistas, os lábios cerrados do último sapateiro, a preocupação ensaiada da farmacêutica e os olhos arregalados da rapariga que agora vende casas.

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Ferreira Fernandes

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É muito irónico Plácido Domingo já não cantar a 6 de setembro na Ópera de São Francisco. Nove mulheres, todas adultas, todas livres, acusaram-no agora de assédios antigos, quando já elas eram todas maiores e livres. Não houve nenhuma acusação, nem judicial nem policial, só uma afirmação em tom de denúncia. O tenor lançou-lhes o seu maior charme, a voz, acrescida de ter acontecido quando ele era mais magro e ter menos cãs na barba - só isso, e que já é muito (e digo de longe, ouvido e visto da plateia) -, lançou, foi aceite por umas senhoras, recusado por outras, mas agora com todas a revelar ter havido em cada caso uma pressão por parte dele. O âmago do assunto é no fundo uma das constantes, a maior delas, daquilo que as óperas falam: o amor (em todas as suas vertentes).

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