Premium A cara que merecemos

Todos os dias e hoje também. A cortina de ferro içada aos solavancos, duas voltas à chave e as portas abertas de par em par, as luzes que se acendem e logo o cigarro. Todos os dias às nove da manhã. O mesmo fato escuro e a gravata preta, o rosto inexpressivo, o corpo lento e cansado, os olhos tristes que fixam um vazio longínquo e universal. O letreiro serve de legenda, esclarecedor e inequívoco: "Funerais", por baixo um número de telefone fixo e outro de telemóvel para as mortes que não se conformam com o horário de expediente.

"A natureza dá-te a cara que tens aos 20, a vida molda a cara que tens aos 30, aos 50 tens a cara que mereces." A frase é atribuída a Coco Chanel e aplica-se a todos, a começar pelo senhor da funerária. Aos 41 tenho o rosto já moldado mas não ainda o que mereço. Caminho pelo bairro e vou adivinhando nos reflexos das montras os traços que se hão de vincar, a retirada lenta da frente capilar, as rugas alegres dos cantos da boca e as outras mais soturnas, por cima das ideias. Vou também notando os sorrisos rápidos das lojistas, os lábios cerrados do último sapateiro, a preocupação ensaiada da farmacêutica e os olhos arregalados da rapariga que agora vende casas.

A frase de Chanel não é uma mera observação, mas uma sentença, e a cara dos outros é também o espelho que às vezes merecemos.

Escritor, diariamente online

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João Gobern

Tirar a nódoa

São poucas as "fugas", poucos os desvios à honestidade intelectual que irritem mais do que a apropriação do alheio em conluio com a apresentação do mesmo com outra "assinatura". É vulgarmente referido como plágio e, em muitos casos, serve para disfarçar a preguiça, para fintar a falta de inspiração (ou "bloqueio", se preferirem), para funcionar como via rápida para um destino em que parece não importar o património alheio. No meio jornalístico, tive a sorte de me deparar com poucos casos dessa prática repulsiva - e alguns deles até apresentavam atenuantes profundas. Mas também tive o azar de me cruzar, por alguns meses, tempo ainda assim demasiado, com um diretor que tinha amealhado créditos ao publicar como sua uma tese universitária, revertido para (longo) artigo de jornal. A tese e a história "passaram", o diretor foi ficando. Até hoje, porque muitos desconhecem essa nódoa e outros preferiram olhar para o lado enquanto o promoviam.

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Rogério Casanova

Três mil anos de pesca e praia

Parecem cagalhões... Tudo podre, caralho... A minha sanita depois de eu cagar é mais limpa do que isto!" Foi com esta retórica inspiradora - uma montagem de excertos poéticos da primeira edição - que começou a nova temporada de Pesadelo na Cozinha (TVI), versão nacional da franchise Kitchen Nightmares, um dos pontos altos dessa heroica vaga de programas televisivos do início do século, baseados na criativa destruição psicológica de pessoas sem qualquer jeito para fazer aquilo que desejavam fazer - um riquíssimo filão que nos legou relíquias culturais como Gordon Ramsay, Simon Cowell, Moura dos Santos e o futuro Presidente dos Estados Unidos. O formato em apreço é de uma elegante simplicidade: um restaurante em dificuldades pede ajuda a um reputado chefe de cozinha, que aparece no estabelecimento, renova o equipamento e insulta filantropicamente todo o pessoal, num esforço generoso para protelar a inevitável falência durante seis meses, enquanto várias câmaras trémulas o filmam a arremessar frigideiras pela janela ou a pronunciar aos gritos o nome de vários legumes.