Premium A cara que merecemos

Todos os dias e hoje também. A cortina de ferro içada aos solavancos, duas voltas à chave e as portas abertas de par em par, as luzes que se acendem e logo o cigarro. Todos os dias às nove da manhã. O mesmo fato escuro e a gravata preta, o rosto inexpressivo, o corpo lento e cansado, os olhos tristes que fixam um vazio longínquo e universal. O letreiro serve de legenda, esclarecedor e inequívoco: "Funerais", por baixo um número de telefone fixo e outro de telemóvel para as mortes que não se conformam com o horário de expediente.

"A natureza dá-te a cara que tens aos 20, a vida molda a cara que tens aos 30, aos 50 tens a cara que mereces." A frase é atribuída a Coco Chanel e aplica-se a todos, a começar pelo senhor da funerária. Aos 41 tenho o rosto já moldado mas não ainda o que mereço. Caminho pelo bairro e vou adivinhando nos reflexos das montras os traços que se hão de vincar, a retirada lenta da frente capilar, as rugas alegres dos cantos da boca e as outras mais soturnas, por cima das ideias. Vou também notando os sorrisos rápidos das lojistas, os lábios cerrados do último sapateiro, a preocupação ensaiada da farmacêutica e os olhos arregalados da rapariga que agora vende casas.

A frase de Chanel não é uma mera observação, mas uma sentença, e a cara dos outros é também o espelho que às vezes merecemos.

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