"Erasmus" no call center: trabalhar para viver uns meses em Portugal

Já reparou nos grupos de jovens que se encontram ao final da tarde junto da estação de comboios de Entrecampos, em Lisboa? Serão estudantes de Erasmus? Não. São estrangeiros, sim, mas vêm para Portugal trabalhar num call center. Em troca recebem um salário e uma experiência com muitas festas. Pelo meio formam uma comunidade internacional.

O português não é a língua comum, embora estejamos numa rua central de Lisboa e junto a um prédio icónico da cidade: o Edifício Marconi, em Entrecampos. Fala-se inglês, mas também francês, italiano, alemão, holandês, espanhol, entre os jovens ali reunidos, à volta de um pequeno café, ou na esplanada improvisada entre o muro da antiga Feira Popular e a estação de comboio. Copos na mão, gritos e risos altos, são um grupo heterogéneo e estranho a quem passa por ali. Serão turistas? Estudantes a fazer Erasmus?

A resposta é não... e sim. Estes jovens trabalham todos no call center que funciona no Edifício Marconi, a Teleperformance, e estão numa espécie de "Erasmus", o Atlantic Experience, um programa da companhia que permite a jovens estrangeiros trabalhar e viver em Portugal durante seis meses. Para muitos é o primeiro emprego, uma forma de conhecer um novo país. E Portugal está na moda. Os salários são baixos, muito inferiores ao que ganhariam no seu país, mas as atividades e o convívio permitem-lhes uma outra experiência em que esse não é o ponto fulcral.

Na sua página na internet, a empresa está permanentemente à procura de "colaboradores" e anuncia a multiculturalidade como uma vantagem. Além de slogans como "vais adorar trabalhar connosco" ou "transformar paixão em excelência", pedem fluência no inglês, alemão, espanhol e francês, mas são muito mais as línguas de que precisam as empresas que aqui têm os seus seus centros de contacto, num total de 36 idiomas. A multinacional trabalha, para 64 mercados, destacando entre os cerca de cem clientes a Netflix, Expedia, Asos, Wish, NOS ou Michael Kors.

O anúncio mais recente é para candidatos suecos, por exemplo. E reza assim: "Se estás à procura de uma oportunidade para trabalhar no exterior, a Teleperformance Portugal é a escolha certa. Junta-te ao nosso grupo e começa uma carreira internacional. Oferecemos um conjunto de condições que incluem o reembolso de despesas do voo inicial e alojamento num quarto de um apartamento da Teleperformance!"

Um outro anúncio pede um funcionário para Vila Nova de Gaia: "Estás pronto para uma carreira no estrangeiro? Se a comunicação é a tua área e gostas de colaborar com as marcas mais conhecidas, tens aqui a oportunidade única! Inscreve-te agora." Propõe-se um bónus inicial de mil euros.

Línguas do norte rendem mais

Os jovens junto a Entrecampos retraem-se um pouco quando percebem que estão a falar com jornalistas. Não querem dar nomes, nem tirar fotos, mesmo quando elogiam a experiência. Justificam com o acordo de confidencialidade que assinam junto com o contrato de trabalho. Falam em projeto ou campanha, nunca em empresa - como se, de facto, estivessem numa experiência tipo Erasmus.

É o caso da holandesa de longos cabelos louros que está sentada numa escada por debaixo das arcadas da estação, à conversa com outros colegas, incluindo um português. Está na empresa, e em Portugal, há três meses, é licenciada em Comunicação e Marketing. "Vantagem, definitivamente, não é o salário, porque é um terço do que poderia ganhar na Holanda. Mas aqui consigo ter melhor qualidade de vida. Trabalho oito horas por dia, nem mais um minuto, o resto do tempo é para mim." Atende os clientes em holandês, e a língua materna traz-lhe mais-valia. Preferiu ser ela a alugar um quarto, e, como é supervisora, recebe 1800 euros.

O salário aumenta para os funcionários que dominam línguas pouco comuns. O português e o inglês são as que rendem menos. Como a América Latina é um grande mercado de recrutamento, o espanhol vale pouco, e o italiano está também em baixa - até porque os falantes destes idiomas têm falta de emprego nos países de origem. Melhor é para quem fala alemão, e no topo está o holandês ou o sueco. Que arranja casa por si, ganha mais 200/300 euros mensais - que são retirados, se é a companhia a tratar do alojamento. "Dá autonomia, não estamos dependentes, podemos deixá-los se as coisas não correrem bem. Ou conseguir um emprego melhor", explica a holandesa.

A Teleperformance fornece o alojamento num programa a que dá o nome de Welcome & Support. "Inclui o tratamento da documentação necessária em termos fiscais e de segurança social para trabalhar no país, com equipas disponíveis 24 horas para dar apoio aos colaboradores. Oferecemos a possibilidade de integração em apartamentos partilhados disponíveis por um certo período de tempo para os colaboradores que reúnem os requisitos necessários, tendo em conta a distância a que estão de sua casa, independentemente da sua nacionalidade", explica a assessoria da multinacional. A empresa recebeu oito vezes o prémio Great Place to Work (melhor empresa para trabalhar).

Sol, convívio e festas "Vim para Portugal por causa do bom tempo. E não gosto de viver na Holanda e esta é uma forma fácil de viver e conhecer outro país", explica outra holandesa, também com 23 anos, formada em Gestão. Ao lado, a amiga explica que "não estava propriamente à procura de trabalhar em Lisboa, procurava um emprego no sul da Europa, talvez Barcelona. Pesquisei quais eram as agências com ofertas de emprego para o estrangeiro e encontrei a Teleperfomance. Acabei por vir para Portugal e estou a gostar, em particular do ambiente e da comida. Já estive em Albufeira e Sintra. Trabalho para o mercado holandês e inglês". Ambas trabalham na empresa há três meses, usaram a opção de fornecimento do quarto e recebem 1100/1200 euros ao fim do mês.

Há um português no meio do grupo, que partilha casa com uma colega. Tem 28 anos, o curso de cozinheiro, mora na Margem Sul, está há sete meses na Teleperfomance. "É um emprego seguro, oito horas por dia, com uma hora para o almoço e três pausas de 15 minutos. As horas extra são pagas a 50% e, se trabalho um dia a mais, tenho uma folga de compensação, além de 26 dias de férias por ano. Entrei há sete meses, subi a supervisor e, daqui a um mês, vou ter 18 pessoas a meu cargo e receber mais", relata. Ganha mil euros por mês. Diz-se feliz por ter mudado de profissão (cozinheiro), e é óbvio que gosta do convívio com gente de outras paragens.

É também o caso de Manon Zieyad, 21 anos, um holandês do sul que tem no sangue o cruzamento de várias culturas. Também por isso, explica, sempre quis conhecer outras realidades. Estudou Design Gráfico, que no futuro gostaria de ensinar. "Não tinha nada que me prendesse à Holanda e decidi vir para Portugal, assinei um contrato de um ano. Conheço pessoas novas todos os dias, novos amigos, acabo o trabalho e venho para aqui conviver. Além de que há várias atividades extratrabalho. Lisboa tem um excelente ambiente." De cerveja na mão, não só quer falar como ficar na foto.

A Atlantic Experience tem um programa de eventos, aberto a nacionais e estrangeiros que inclui torneios desportivos - voleibol, basquetebol, ténis de mesa, matraquilhos, xadrez e futebol (o TP Cup tem 46 equipas, femininas e masculinas) -, caminhadas, surf, bodyboard e ioga. Além de workshops, por exemplo, para aprender a fazer sushi. Neste fim de semana estavam programados o Dia da Byke, um torneio de matraquilhos e um soft treakking (treino) na lagoa de Melides, em Grândola. Há festas, as mais concorridas são as de verão, de Natal e o Arraial, em junho.

Manon resume numa palavra: "Festa." Abraça quatro colegas pelo caminho, querem que se juntem numa foto para o DN: Aiwira Pieter, de 19 anos, Frank Kerver, de 23, e Kirne Lars, da mesma idade. Todos conhecem Manon Zieyad e a sua boa disposição, já famosa no call center. Esta é uma imagem diferente do que habitualmente se tem destes locais de trabalho repetitivo e maquinal - e é uma face muito restrita dele. Resume Manon: "Este convívio é o melhor. Se vou ficar mais do que um ano, logo vejo. Agora, estou muito bem."

Nem tudo são rosas e novas experiências

O convívio e a animação tomaram conta das imediações do edifício da Teleperformance, em Entrecampos. E a experiência que aqui têm os jovens acabados de sair da faculdade, ou estrangeiros em busca de novidades na vida, até pode ser boa. Mas a vida num call center não é fácil nem sempre em festa. Muitos dos funcionários têm bem mais de 30 anos, e, no final do dia, correm para casa ou para a escola.

Para muitos, este é o único emprego que conseguiram arranjar. Anabela Sobrinho tem 43 anos, uma licenciatura em Filosofia, com pós-graduação no ensino, foi professora, está na Teleperformance há dois anos, subcontratada por outra empresa. Trabalha das 12.00 às 19.00. "Os estrangeiros têm 19/20 anos, trabalham aqui seis meses a um ano, é como se fossem férias, não é o meu caso", diz. Ganha o salário mínimo. O que a prende? "O facto de ter um emprego com salário e é muito bom poder conhecer pessoas de todo o mundo."

Magid Deferstem, 39 anos, é turco,e deixou a empresa há três, por um emprego melhor. Explica que volta à zona pelo convívio. "Ganhava 700 euros por mês. Vivia num apartamento com 16 pessoas, percebi ao fim de poucos meses que as condições não eram as que me prometeram. Há muita rotatividade, todos os dias há pessoas novas na empresa, e não há progressão, como anunciam. Quando comecei a questionar os meus direitos, tornaram as coisas tão difíceis que tive de sair."

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