Cuba. O país dos "puros"

Mala de viagem (49). Um retrato muito pessoal de Cuba

Esta história decorre durante o prazer de fumar um "puro" em Havana. Para eu assim estar, confortável e contemplativo, o território cubano teve de ser propício e único de elementos que contribuíram para haver um microclima - a região de Vuelta Abajo -, a que se juntou a mão hábil do homem. À plantação, seguem-se o corte, a seleção das folhas, o enrolamento, a formatação final através da prensa e a colocação da cinta. Este foi o caminho até à boca de um charuto médio, o que escolhi. Depois, foi deixar-me estar, prezando o seu desgaste. As outras experiências, umas boas, outras mais confusas, não entram nesta história. Apenas poderia admitir que a música acompanhasse o evoluir das palavras, mas não é suposto que estas tenham música. Porém, desta praça onde me encontrava, sob um calor aconchegante, ouvi ao fundo o som de uma voz familiar e agradável aos meus ouvidos. Pensei tratar-se de Sílvio Rodríguez, poeta, compositor e cantor cubano, fundador da chamada "Nova Trova", cuja consciência social sempre o acompanhou, que para mim é o mais importante neste contexto cubano. Entretanto, um velho homem sentou-se junto de mim, com um jornal na mão. Não o abriu, apenas preferindo olhar-me. Inusitadamente, três minutos depois foi-se embora. O que levaria na alma aquele homem sem ter trocado comigo uma palavra para além dos "buenos días"? A praça reduzia o frenesim do outro lado a uma tranquilidade aparente. Passavam táxis cheios ou sem passageiros, carros normais e antigos, mais os coco-táxis amarelos, estes precisamente em forma de coco. Naqueles minutos, o charuto substituiu o telemóvel que, aliás, nem funcionou bem, dado que não existe Internet aberta em Cuba. Pela minha frente, passaram homens e mulheres: o homem proletário e a mulher proletária, o homem mais ocidentalizado e a mulher morena e fatal, o machismo e o feminismo, o homem explorador e a mulher sofrida. Estas categorias não se vislumbram de imediato, mas que as há naquele vaivém, estou certo disso. Fotografo-os, indiscriminadamente, à procura de uma que seja tão icónica como a do fotógrafo cubano Alberto Korda, que foi o autor da fotografia mais conhecida de Che Guevara. Para mim, nem que fosse o instante de uma jovem mulher cubana, que parece ter um talento natural para mover o seu corpo de um modo provocador. Os seus quadris balançam, quase dançam - energéticas! Cumprimentam o estrangeiro com um sorriso e esperam algo mais. Ainda bem que este "puro" estava terminando o seu papel nesta história e na boca de um estrangeiro e turista para "coger un diez", expressão cubana que significa "fazer uma pausa". E contemplar, para mais tarde recordar.

Jorge Mangorrinha, professor universitário e pós-doutorado em turismo, faz um ensaio de memória através de fragmentos de viagem realizadas por ar, mar e terra e por olhares, leituras e conversas, entre o sonho que se fez realidade e a realidade que se fez sonho. Viagens fascinantes que são descritas pelo único português que até à data colocou em palavras imaginativas o que sente por todos os países do mundo. Uma série para ler aqui, na edição digital do DN.

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