Há muito Japão além de Murakami

Haruki Murakami tornou-se um fenómeno em Portugal desde que cá chegou Norwegian Wood e por isso não surpreenderá que o novo livro, uma coletânea de contos intitulada Primeira Pessoa do Singular, se transforme num campeão de vendas. Confirma a notoriedade da cultura japonesa entre nós, seja a nível popular, como é o caso do manga e do anime, seja num plano mais erudito, basta pensar na retrospetiva sobre Akira Kurosawa que no ano passado esteve no lisboeta Nimas ou o ciclo dedicado a mestres desconhecidos do cinema japonês programado para o Cinema City Alvalade em novembro e depois para o Porto.

Mas por trás de tantos restaurantes de sushi, tenho a impressão de que o Japão continua um país distante para nós, o que é pouco desculpável dada a geografia não ter impedido os portugueses de Quinhentos de terem sido os primeiros europeus a chegar ao arquipélago, facto que qualquer miúdo japonês aprende na escola. Quando muito reverenciamos como produtos de qualidade os automóveis da Toyota ou as consolas da Sony, mas deslumbrados com as taxas de crescimento do PIB chinês nas últimas décadas tendemos a esquecer que o Japão tem a terceira economia mundial e, por muito que se queixe da estagnação, oferece à sua população um altíssimo nível de qualidade de vida. Além disso, é uma sociedade democrática, desmentindo a tese de que modelos autoritários garantem mais sucesso aos povos.

São muitas as empresas japonesas instaladas em Portugal, casos de Toshiba, Hitachi, Konica Minolta, Sony ou Yazaki Saltano, que empregam alguns milhares de pessoas. E não pensemos que o saber japonês se limita à tecnologia: no verão de 2020 fiz una reportagem numa armação de pesca de atum ao largo de Olhão que nasceu da vontade de um empresário japonês que continua a viver no Algarve.

Que esta reflexão nasça de um artigo que hoje o DN publica sobre o novo Murakami em português não significa que a falta de atenção ao Japão seja de agora. Outro exemplo é o pouco destaque que recebe uma notícia como a nomeação de um novo primeiro-ministro japonês, caso de Fumio Kishida neste mês, quando comparada com o relevo dado a qualquer discurso de Xi Jinping, o presidente chinês.

Mas neste ano e meio de pandemia, e perante a óbvia lição de que é preciso diversificar laços económicos, deveríamos ter olhado para velhos parceiros, não só a Índia, como também o Japão, para equilibrar o contexto global em que Portugal se insere. Tal não significa ignorar nem a UE, nem os Estados Unidos, nem o mundo lusófono, e também não significa excluir a China, tão importante como investidor e como mercado.

Quando iniciou funções em Lisboa, em janeiro de 2020, o embaixador Shigeru Ushio declarou: "Neste início do ano 2 da era Reiwa, na qualidade de embaixador do Japão em Portugal, é com muita honra que vos afirmo que estou determinado a desenvolver ao máximo possível, as relações de amizade entre o Japão e Portugal, o nosso amigo mais antigo da Europa, tornando-as cada vez mais sólidas e frutíferas no futuro." Talvez se alguns, muitos, costumam ler Murakami, outros deveriam ler com atenção o que se publica no site da embaixada japonesa e seguir o exemplo do ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, que, consciente das vantagens da abordagem multilateral, aproveitou a visita do seu homólogo em finais de 2020 para desafiar empresas japonesas a concorrer à construção do segundo terminal do porto de Sines.

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