Postícias e boatos

O termo anda nas bocas e nos dedos de toda a gente mas ainda não arranjámos uma expressão portuguesa que substitua as famigeradas fake news. "Notícias falsas" não soa bem e já muitos advertiram para o facto de, sendo falsas, não poderem ser notícias. Alguns propõem boatos, ou até boatos falsos, o que me parece um desrespeito para algo mais sofisticado e subtil, como tentarei demonstrar. Eu sugiro que lhes chamemos postícias, uma mistura de post, notícias e postiças, uma aberração linguística e etimológica à altura do fenómeno que pretende descrever. Mas o que separa as postícias modernas do mui antigo e tão disseminado boato?


Enquanto as postícias são partilhadas com alarde e entusiasmo através de textos em maiúsculas e profusamente exclamados (DEPUTADO APANHADO EM RITOS SATÂNICOS!!!), o boato é sempre um ato íntimo, uma inconfidência dita em surdina e "aqui que ninguém nos ouve" (Olha lá, tu sabias que o Antunes anda metido com a Olga do economato?).


Enquanto as postícias reclamam uma proveniência séria e jornalística, muitas vezes citando sítios que emulam jornais de referência (www.dn.pr ou www.finantialtime.org), o boato orgulha-se das origens obscuras e enviesadas (Quem me disse foi um tipo que é segurança no Benfica...).


Enquanto as postícias procuram influenciar eleições junto de eleitorados sensíveis a questões fraturantes (Fernando Haddad quer tornar o aborto obrigatório para quem não for homossexual!!!), o boato é uma pequena vingança social dirigido aos mais ricos, poderosos ou famosos (Com tanta cocaína até eu apresentava o Telejornal, quem me contou foi uma maquilhadora...).


Os russos podem inundar-nos de postícias, mas têm de beber muito vodka até se aventurarem no boato. Parece que até há um contingente de Moscovo a estagiar com as vizinhas do bairro, quem me disse foi a sobrinha da presidente da junta que está junta com um ucraniano.


Escritor

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