Guterres pediu trégua global. Desta vez o secretário-geral da ONU foi ouvido

António Guterres apelou na segunda-feira para um "cessar-fogo global imediato" para proteger civis vulneráveis em zonas de conflito da devastação da pandemia. O pedido não caiu totalmente em saco roto num mundo com cerca de 20% da população confinada.

"A fúria do vírus demonstra a loucura da guerra", disse o secretário-geral da Organização das Nações Unidas num discurso realizado na sede da instituição, em Nova Iorque. "É por isso que hoje apelo a um cessar-fogo global imediato em todos os cantos do mundo."

"É hora de pôr o conflito armado no isolamento e de nos concentrarmos juntos na verdadeira luta das nossas vidas", disse Guterres. "Silenciem as armas; parem a artilharia; acabem com os ataques aéreos." Fazer isso, prosseguiu, é crucial para abrir corredores para entregar ajuda para salvar vidas, mas também para levar esperança às populações e abrir uma janela de oportunidade para a diplomacia.

"Acabem com a doença da guerra e lutem contra a doença que está a devastar o nosso mundo. Isso começa por parar os combates em todo o lado. Agora", disse. "É disso que a nossa família humana precisa, agora mais do que nunca."

Especialistas e diplomatas antecipam que o vírus venha a causar o caos em países em conflito, já de si pobres e com sistemas de saúde frágeis, num momento em que mais de 1,7 mil milhões de pessoas (num total que se calcula de 7,5 mil milhões) estão sujeitas a medidas de isolamento devido à pandemia.

Primeiro caso na Síria

A Síria relatou o primeiro caso do vírus, num país já dilacerado por nove anos de guerra. Na segunda-feira, o ministro da Defesa da Rússia, Sergei Shoigu, dirigiu-se a Damasco, onde se encontrou com o líder sírio, Bashar al-Assad. À mesa, entre outros temas, foi discutido o cessar-fogo entre os turcos, que defendem do avanço do exército de Assad a província de Idlib, a única nas mãos dos opositores do regime, bem como defendem alguns dos grupos jihadistas.

O acordo suspendeu uma ofensiva do regime sírio, apoiada pela Rússia, que durou três meses e na qual centenas de pessoas morreram e quase um milhão de pessoas se deslocaram na província.

O acordo interrompeu o fluxo de refugiados para a Turquia e criou uma zona-tampão em ambos os lados de uma estrada vital, a M4. Como parte do acordo, tropas turcas e russas também iniciaram patrulhas conjuntas na M4, na semana passada. No entanto, os combates e os bombardeamentos, em menor escala, prosseguem.

Líbia sem ilusões

Na véspera do apelo de Guterres, noutro país sem paz à vista, a Líbia, falava-se de uma trégua para que o país, oficialmente sem casos de covid-19, pudesse viver um problema de cada vez.

Yacoub el Hillo, coordenador humanitário da ONU para a Líbia, disse no domingo que o " momento não poderia ser pior " para o coronavírus se aproximar da Líbia. El Hillo pediu a "cessação completa das hostilidades" para que as autoridades sanitárias possam garantir o acesso sem obstáculos à ajuda e impulsionar as medidas de proteção.

O marechal Khalifa Haftar, que quer expulsar os islamistas, controla o leste do país e há um ano que cerca a capital Tripoli, onde o governo reconhecido pelas Nações Unidas e apoiado pela Turquia e Qatar tenta sobreviver.

Na segunda-feira várias pessoas morreram em combate e vítimas de bombardeamento, acabando com a ilusão de um cessar-fogo. A Líbia tem estado atolada em guerra desde a revolta de 2011 que derrubou Muammar Kadhafi.

Houthis e comunistas filipinos respondem ao apelo

Mas os já habituais pedidos dos secretários-gerais da ONU para a paz (foi assim que António Guterres começou o mandato) não passaram ao lado. No Iémen, os rebeldes houthis (apoiados pelo Irão contra as forças governamentais e a coligação liderada pela Arábia Saudita) regozijaram-se com o pedido de trégua.

O apelo de Guterres "é importante para os esforços de mobilização da comunidade internacional na luta contra o coronavírus", disse o autodenominado ministro das Relações Exteriores dos houthis, Hisham Sharaf Abdullah. O dirigente expressou a esperança de que a coligação liderada pela Arábia Saudita "responderia positivamente ao apelo da ONU e acabaria com os ataques aéreos da coligação e levantaria o cerco ao povo iemenita". Riade, que começou a bombardear os houthis há cinco anos, não respondeu até agora.

Quem deu ordem para parar as ações de combate foi o Partido Comunista das Filipinas: ordenou que o seu braço armado, o Novo Exército Popular e as milícias "parassem e se abstivessem de realizar operações militares ofensivas contra as unidades e o pessoal das Forças Armadas das Filipinas, a Polícia Nacional e outros grupos paramilitares e armados ligados ao governo das Filipinas".

Na semana passada, o presidente Rodrigo Duterte ordenou um cessar-fogo a partir do momento em que a ilha de Luzon foi colocada sob quarentena reforçada para deter a propagação do novo coronavírus. As Filipinas contam 35 mortes devido ao covid-19.

Plano de combate ao covid-19

Espera-se que as Nações Unidas divulguem na quarta-feira um plano mundial detalhado de ajuda humanitária, com a criação de um fundo dedicado à luta internacional contra o coronavírus.

Já na semana passada, Guterres fez um apelo para uma resposta global à pandemia, que coloca "milhões" de vidas em risco. A ONU tem como objetivo obter dois mil milhões de dólares para ativar o plano global de combate e está a solicitar aos principais governos do G20 que ajudem a coordenar a resposta. "É claro que precisamos de uma coordenação muito mais forte na supressão da doença e coordenação para garantir que não só os países desenvolvidos possam responder eficazmente à doença, mas que haja um apoio maciço ao mundo em desenvolvimento", disse o dirigente português.

Guterres disse que o Alto Comissariado da ONU para os Refugiados e a Organização Internacional para as Migrações estão a trabalhar para mitigar o impacto da propagação do vírus nos campos de refugiados e acampamentos com grande número de refugiados.

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