Pedaço de mim

Por muito que o Chico tenha feito por todos os que sentem em português, passou o Bojador da língua portuguesa porque marcou quem o leu e ouviu em qualquer lugar do universo.

Era um álbum duplo azul. Chamava-se a Arte de Chico Buarque. Tinha na capa uma fotografia grande do Chico e os títulos das músicas. Abria-se como se fosse um livro e lá dentro estavam impressas as letras de todas as canções. Encontrei-o em Braga, no meio dos discos dos meus tios Manuel e Teté. Tinha 12 ou 13 anos e fez-me uma tatuagem marcada a frio, a ferro e fogo como o título de uma das músicas que mais vezes cantarolei. Comprei-o mal regressei a Lisboa. Escrevia as letras das músicas desse disco em cadernos e pedaços de papel só para me encantar com aquelas palavras, vê-las a aparecer como o Chico as deve ter visto sair pela primeira vez da sua mão.

Foi o primeiro dos muitos que tenho e que ainda conservo em vinil e mais tarde reforcei em formato CD.

Por esta altura, milhões, a propósito do Prémio Camões ou não, contaram o que o Chico Buarque fez por eles. Só isso já diz quase tudo. Só posso falar por mim. Já lá vou, a banda ainda está a passar. Mas sei o que ele fez por nós, pelos da língua portuguesa.

Conta-se que uma vez no Algarve teria saído desarvorado e em fúria de um restaurante porque lhe tinham dado uma lista em inglês. Ninguém mais do que ele para se sentir revoltado com essa falta de respeito à terra mãe da língua portuguesa. Logo ele que em cada palavra, em cada frase, em cada canção, em cada livro, louva o português. Logo ele que amando-o o aprimorou, embelezou, lhe deu novos significados. E sempre com um profundo respeito pelas suas raízes, os seus pais, os seus cultores.

Siga o jeito manso que é só dele. O Chico cantou os meus amores e desamores, as minhas paixões e os meus desencantos, as minhas angústias e as minhas dúvidas, despertou-me para realidades fora do meu mundo, abriu-me para a vida, formatou-me e formou-me, em larga medida. Ele deu-me a medida do Bonfim e valeu-me. O Chico Buarque apanhou-me numa altura da vida em que absorvemos tudo e era ele que lá estava. Ainda bem.

A verdade é que ouvimos, lemos e vemos sempre as mesmas coisas mesmo quando pensamos que estamos perante coisas novas. Formamo-nos e definimo-nos cedo nas nossas vidas. Gostos, sentimentos, valores que ficam gravados e não nos apercebemos. Crescemos e envelhecemos, vamos sendo disto ou daquilo, dizemos que somos isto ou aquilo mas são só conceitos que vamos adaptando ao que realmente somos. Eu, no fundo, nunca soube, fui julgando que sabia.

Na altura, lá está, não percebi o impacto que o Chico ia ter em mim. Aliás, só o percebi mais tarde. Quando já raramente ouvia a música dele, nem sequer os discos novos. Fui-me apercebendo. Uma situação que me lembrava um verso de uma canção, um retrato do quotidiano que ele tinha pintado, uma história de amor, uma luta por um mundo melhor. Tem certos dias em que penso em minha gente... O Chico Buarque já me tinha contado aquelas histórias todas, já me tinha despertado e desenhado a maneira como eu as ia ver.

E refiro as canções porque foram elas que me marcaram. Os livros são complementos, obras de que gostei mas que nunca tiveram, para mim, claro, o impacto das letras e das músicas. E ninguém me convence da superioridade da forma literária em forma de livro da de uma canção. A Teresinha, a Bárbara, a Lígia, a Rita, a Geni e todas as de Atenas dizem-me tanto sobre o amor e a natureza humana como qualquer mulher de um clássico da literatura. O exprimir dos nossos sonhos, angústias, desejos, fragilidades e tudo o que diga respeito às nossas vidas e o que as rodeia não tem uma forma escrita mais importante do que outra. Vem em poemas, em canções, em romances, em crónicas. E melhor ainda se vier com açúcar e com afeto.

Por muito que o Chico tenha feito por todos os que sentem em português, passou o Bojador da língua portuguesa porque marcou quem o leu e ouviu em qualquer lugar do universo. Porque tocou todos os que o ouviram e o amaram (e amam), indistintamente do sítio onde vivem, da língua que falam, da origem social, do percurso de vida, da religião, da linha política e de todos os etcéteras e tais. Toda esta gente é capaz de fazer um imenso coro com as músicas dele. Une-nos. Tornou-se universal porque fala de nós e do que nós somos e sentimos.

Agora falando sério. Era capaz de apostar em que ele fica mais feliz com o Prémio Camões do que ficaria com o Nobel, mas ele já é mais Nobel que Camões.

Obrigado, Chico. A tua semente não está esquecida no canto do nosso jardim.

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É procurador no Tribunal de Cascais há 25 anos. Escolheu sempre a área de família e menores. Hoje ainda se choca com o facto de ser uma das áreas da sociedade em que não se investe muito, quer em meios quer em estratégia. Por isso, defende que ainda há situações em que o Estado deveria intervir, outras que deveriam mudar. Tudo pelo superior interesse da criança.